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BCE. Taxa de juro pode subir já em junho se os preços do petróleo não baixarem até lá

Conselho já debateu se juros deviam ser aumentados, contra o risco de inflação. Lagarde afasta "estagflação" mas volta a ver-se em encruzilhada que tem semelhanças com 2022 mas, ainda mais, com 2011.

Edgar Caetano
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O governo português, então liderado por José Sócrates, tinha pedido ajuda à troika no dia anterior. A Irlanda já tinha “caído”, uns meses antes, e a Grécia já caminhava para o segundo resgate. Estávamos em inícios de abril de 2011 e a zona euro convivia com um crescimento baixo e uma taxa de inflação teimosamente elevada, com preços da energia e de outras matérias-primas em escalada rápida. Sendo a missão (única) do BCE controlar a inflação, a terapêutica, aos olhos do então presidente Jean-Claude Trichet, só podia ser uma: subir as taxas de juro. Foi isso que fez a 7 de abril e, pouco depois, em julho, novamente. Porém, poucos meses depois, Mario Draghi tomava posse… e revertia tudo.

O caso de 2011, já distante no tempo, está a ser recordado por ter algumas semelhanças com a encruzilhada em que vive hoje o BCE – novamente liderado por alguém nascido em França mas que, apesar de tudo, tem um perfil bem diferente, porque as posições de Trichet estavam tipicamente mais próximas da ortodoxia monetária alemã. Mais do que a comparação com a recente crise energética de 2022, lançada (ou agravada) pela guerra na Ucrânia, o enquadramento de 2011 tem claras parecenças com a situação atual, em que existe um risco de estagnação económica com inflação que ameaça subir. Mas Lagarde recusa que se possa falar em “estagflação.

Essa vivência ficou “estacionada nos anos 70”, respondeu a presidente do BCE nesta quinta-feira, após ser questionada pelos jornalistas na conferência de imprensa sobre se a zona euro estava em “estagflação“. Esse é o conceito usado pelos economistas para caracterizar um período longo e traumático de crescimento muito baixo e inflação demasiado elevada, como aquele que se viveu devido aos choques petrolíferos dos anos 70 (1973 e 1979).

Mesmo garantindo que a situação atual não é de uma inflação cronicamente alta e um crescimento mais baixo, Lagarde reconheceu que a economia europeia, que estava a mostrar “algum ímpeto positivo”, sofreu um abalo com a escalada do conflito no Médio Oriente. Neste momento, os “riscos em alta na inflação e os riscos em baixa no crescimento intensificaram-se” e as perspetivas económicas tornaram-se “altamente incertas“.

“Os riscos positivos na inflação e os riscos negativos no crescimento intensificaram-se” e as perspetivas económicas tornaram-se "altamente incertas", disse Christine Lagarde.

E é neste contexto que a francesa admitiu que o Conselho do BCE já debateu “de forma aprofundada” uma possível subida dos juros, o que pode ser um sinal de que os juros podem, mesmo, ser aumentados já na próxima reunião de política monetária, marcada para 11 de junho.

Lagarde não o disse de forma explícita mas fontes conhecedoras do teor da discussão tida nesta quinta-feira garantiram à Bloomberg que o cenário é simples: se os preços da energia não baixarem até lá, o BCE irá aumentar a taxa de juro para dar um sinal à economia de que não irá tolerar uma nova subida da inflação.

BCE sinaliza possível aumento de juros, sem se comprometer

“Temos de voltar a olhar para os dados nas próximas seis semanas”, afirmou Lagarde, nesta quinta-feira, após uma reunião do Conselho do BCE que ocorreu poucas horas depois de o preço do petróleo superar os 126 dólares por barril, o valor mais elevado desde março de 2022 (e, claro, o preço mais alto desde que começou a guerra entre os EUA, Israel e o Irão).

A autoridade monetária já tinha afirmado, no comunicado inicial, que “as implicações da guerra para a inflação e a atividade económica a médio prazo dependerão da intensidade e duração do choque nos preços da energia e da magnitude dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem”, isto é, até que ponto é que os preços mais elevados da energia se repercutem nos outros preços na economia, incluindo nos aumentos salariais.

“Quanto mais tempo se prolongar a guerra e quanto mais tempo os preços da energia se mantiverem elevados, maior será o impacto provável na inflação e na economia em geral”, disse o BCE, no que foi, logo aí, um sinal de que o banco central estava a abrir a porta a possíveis mexidas na política monetária.

A próxima reunião, de 11 de junho, irá contar com a divulgação de previsões macroeconómicas atualizadas, o que é feito de três em três meses e poderá dar ao BCE uma justificação para mexer na política monetária. Sinalizando que já foi discutida uma possível subida, a presidente do BCE está a admitir que o cenário de um aumento das taxas de juro está em cima da mesa – sem se comprometer, por outro lado, que isso é uma inevitabilidade.

Medidas temporárias e só para quem precisa. Lagarde lamenta que "alguns governos" não a tenham ouvido "muito bem"

Christine Lagarde não perdeu a oportunidade para lamentar que “alguns governos da zona euro” não a tenham “ouvido muito bem” quando a presidente do BCE pediu que se tomem medidas de apoio apenas temporárias e para quem precisa, sob pena de se alimentar ainda mais a inflação.

Sem ser específica sobre quais Governos estava a falar, Lagarde indicou que, de um modo global, os responsáveis políticos na zona euro lançaram medidas que equivalem a 0,1% do PIB do bloco de países. Mas esse é um valor agregado, que incorpora realidades diferentes entre os vários países e formas diferentes de reagir à pressão que se gerou, acima de tudo, nos preços da energia.

O BCE avisou várias vezes que, para evitar uma pressão inflacionista como a que se gerou após a pandemia, é necessário tomar medidas apenas “temporárias, direcionadas e feitas à medida” de ajudar só aqueles mais vulneráveis. Lagarde afirma que nem todos esses critérios estarão a ser respeitados nas medidas que têm vindo a ser lançadas por alguns governos.

Os analistas do BPI consideraram, depois da conferência de imprensa, que “o BCE manteve uma comunicação equilibrada, destacando tanto os riscos em alta para a inflação como os riscos em baixa para a atividade gerados pelo conflito no Médio Oriente” e “recusou-se também a antecipar futuros aumentos de taxas, reiterando a tomada de decisões ‘reunião a reunião, à medida que os dados evoluem’ e sem se comprometer com futuros aumentos de taxas“.

No entanto, dizem os analistas do banco português, “Lagarde indicou que a zona euro está a afastar-se do cenário central” que tinha sido gizado na última reunião, pelo que “se pode inferir que se aproxima do cenário ‘adverso’ desenhado pelo BCE (embora Lagarde não quisesse tornar isso explícito)”. No “cenário-base” desenhado em março, a inflação geral deveria atingir uma média de 2,6% em 2026, 2,0% em 2027 e 2,1% em 2028. Mas no cenário “adverso” admitiu-se que poderia atingir os 3,5% este ano (e não baixar tão rapidamente no próximo ano).

Juros podem subir mais duas ou três vezes este ano? Mercados preveem, analistas duvidam

Assim que Lagarde terminou a conferência de imprensa, que culminou com as despedidas do vice-presidente Luis de Guindos (que está em fim de mandato), os mercados passaram a atribuir uma probabilidade de 90% a que as taxas de juro subam em junho, em 25 pontos-base, para 2,25%. E a previsão dos mercados de futuros de taxas de juro, que são sempre voláteis, é, também, de “mais duas [subidas] no resto do ano“, o que colocaria a taxa de juro em 2,75% no final de 2026.

Os mercados estão a atribuir uma probabilidade de 90% a que as taxas de juro subam em junho, em 25 pontos-base, para 2,25%. E a previsão é, também, de mais duas [subidas] no resto do ano.

Para alguns economistas, como Irene Lauro da Schroders, quaisquer perspetivas de que haja mais duas ou mais três subidas dos juros este ano são “demasiado agressivas“. “Com o aumento dos riscos para o crescimento, tal parece cada vez mais improvável“, afirma a economista, salientando que se prevê uma “atividade mais fraca no setor dos serviços, [o que] deverá aliviar a rigidez do mercado de trabalho e limitar as pressões salariais sustentadas”.

É certo, diz a economista, que “as pressões inflacionistas começam a ressurgir na Europa, com novas perturbações na cadeia de abastecimento a elevar os custos”, como reconheceu Christine Lagarde. Porém, “em simultâneo, o setor dos serviços da zona euro começa a perder fôlego e uma queda acentuada da confiança dos consumidores sugere que as famílias irão permanecer cautelosas, limitando os gastos e pressionando ainda mais a procura por serviços”.

Por outro lado, acrescenta a economista da Schroders, “o turismo também enfrenta dificuldades, sendo provável que a escassez de combustível de aviação afete negativamente os setores relacionados durante o verão”. Ou seja, todos “estes acontecimentos deixam o BCE com pouca margem para aumentar ainda mais as taxas de juro este ano”, afirma Irene Lauro.

Assim que Mario Draghi tomou posse como presidente do BCE, em novembro de 2011, anunciou de imediato uma primeira descida dos juros – e outra logo a seguir, em dezembro, revertendo por completo os aumentos de juros feitas pelo seu antecessor. Caso o BCE decida mesmo fazer várias subidas, como aconteceu nos idos de 2011 pela mão de Trichet, o risco é que a História se repita e se constate outra vez que não havia, afinal, suficiente margem para agravar os juros (com o objetivo de contrariar a inflação) sem arriscar penalizar em demasia a economia.