No passado dia 28 de abril de 2026, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a sua saída da OPEP e da OPEP+, com efeitos a partir de 1 de maio de 2026. Membro da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) desde 1967, grupo de países cujo objetivo é coordenar a produção de modo a influenciar os preços do petróleo, os Emirados tornam-se o segundo país do Médio Oriente a sair da organização, depois da saída do Qatar, em 2019. Será esta uma tendência crescente de autonomia entre os produtores da região? Os EAU são também o primeiro grande produtor do grupo a tomar esta decisão, com uma quota de 6% nas exportações mundiais de crude e de 14% no total da OPEP, apenas atrás da Arábia Saudita e do Iraque. A nível global, são o 6.º maior exportador de petróleo bruto. Entre os principais exportadores, destacam-se ainda a Rússia, os Estados Unidos e o Canadá. É, portanto, um anúncio com relevância histórica e com potencial para influenciar a evolução da organização nos próximos anos.
A saída é justificada sobretudo pela intenção de obter maior liberdade para produzir petróleo, sem as limitações impostas pelas quotas da OPEP. Os Emirados pretendem aumentar a produção nos próximos anos e seguir uma estratégia energética própria, sendo também influenciados por tensões internas no seio da organização e por fatores geopolíticos, como os conflitos no Médio Oriente. Esta decisão tende a enfraquecer a influência da OPEP no mercado global de petróleo e poder-se-á traduzir, no futuro, numa descida do preço do crude, caso a produção aumente. No curto prazo, o efeito é limitado, uma vez que o mercado está condicionado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz. O barril de Brent cota nos 110 dólares, tendo subido mais de 5%, apesar do anúncio dos Emirados. O mercado ignora o efeito futuro de mais produção pelos EAU, reagindo sobretudo ao risco imediato associado às tensões geopolíticas no Médio Oriente.
Nos últimos anos, os Emirados têm investido de forma significativa no aumento da sua capacidade de produção petrolífera e na expansão das exportações. Permanecer na OPEP implicaria não poder utilizar plenamente essa capacidade instalada, o que reduziria o retorno desses investimentos. Assim, sair da organização permite-lhes maximizar o valor económico do setor energético, produzindo de acordo com os seus próprios interesses e com as condições do mercado.
Embora não tenha sido explicitamente assumido como motivo principal, existem também fatores implícitos relevantes. Entre eles destacam-se tensões internas no seio da OPEP+, nomeadamente divergências sobre a distribuição de quotas e sobre os cortes de produção, com particular destaque para desacordos com países como a Arábia Saudita. Estas diferenças refletem interesses nacionais distintos e contribuíram para o afastamento gradual dos Emirados.
Estas tensões tornam-se também relevantes no contexto da OPEP+. A criação da OPEP+ em 2016 teve precisamente esse objetivo, o de alargar a coordenação para além dos membros tradicionais da OPEP, envolvendo grandes produtores externos, de forma a permitir acordos mais eficazes sobre cortes ou aumentos de produção e, assim, estabilizar os preços do petróleo. Em suma, a OPEP+ acrescenta cerca de uma dezena de países à estrutura da OPEP e, acima de tudo, integra a Rússia como elemento-chave, sendo essa parceria o principal fator que reforça o poder do grupo no mercado petrolífero mundial.
Os Emirados Árabes Unidos detêm 7,6% das reservas mundiais de petróleo, revelando um elevado potencial e ajudando a explicar a sua intenção de aumentar a produção. Há uma forte concentração das reservas a nível global, com a OPEP a deter a maioria (79%), sobretudo no Médio Oriente (55%). A concentração também é evidente nos principais produtores mundiais (os 7 países com mais reservas concentram cerca de 83%). Os EAU destacam-se, integrando o top 6 mundial e o top 5 da OPEP em termos de reservas. A Venezuela, embora pertença à OPEP, constitui uma exceção geográfica ao domínio do Médio Oriente, enquanto o Canadá surge como principal exceção fora da OPEP em termos de reservas.
Os Emirados Árabes Unidos pretendem aumentar a produção para cerca de 5 milhões de barris por dia até 2027, dos atuais cerca de 3,2 milhões, evidenciando uma estratégia de maximização das suas elevadas reservas. Mais uma justificação para deixar a OPEP, que limita a sua estratégia.
Por fim, a decisão insere-se numa mudança mais ampla de posicionamento dos Emirados no panorama energético global. O país procura afirmar-se simultaneamente como um produtor flexível de petróleo e como um ator relevante na transição energética, investindo em novas fontes energéticas e tecnologias. Assim, a pertença à OPEP pode ser vista como um travão estratégico, dificultando a adaptação a um mercado em transformação. Em suma, não se trata da saída de um pequeno produtor periférico, mas de um dos pilares do Golfo, região central para a OPEP.



