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Muito investimento, pouco desporto: o paradoxo do PTRR 

O desporto, pelas suas características transversais, pode desempenhar um papel  relevante na economia nacional, não apenas como vetor de bem-estar social, mas como  motor de atividade económica.

Ricardo Afeiteira Marques
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O Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR) surge num momento  particularmente exigente para a gestão das finanças públicas e para a definição de  prioridades de investimento em Portugal. Num contexto de crescente pressão sobre os  recursos do Estado, agravado por choques externos e pela necessidade de reforçar a  resiliência estrutural do país, o plano assume-se como um instrumento agregador de  financiamento e de orientação estratégica. A sua ambição é clara: proteger infraestruturas,  mitigar riscos e melhorar a capacidade de resposta coletiva. No entanto, quando analisado  na perspetiva do desporto, enquanto setor com relevância económica e potencial de  criação de valor, torna-se evidente que há ainda um caminho significativo por percorrer.

Importa, desde logo, reconhecer um sinal positivo que enquadra esta análise. O  lançamento do Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo introduziu uma lógica de  planeamento que historicamente tem sido insuficiente no setor. A definição de metas para  o aumento da prática desportiva, a articulação com o sistema educativo e a preocupação  com a inclusão representam avanços relevantes. Esse enquadramento estratégico cria  condições para uma maior previsibilidade das políticas públicas e para uma melhor  afetação de recursos. Ainda assim, a passagem dessa visão para instrumentos financeiros  e económicos consistentes permanece incompleta.

No âmbito do PTRR, o desporto surge maioritariamente associado à dimensão  infraestrutural. A reabilitação de equipamentos, a sua adaptação a fenómenos climáticos  extremos e a melhoria da eficiência energética constituem áreas de investimento com  impacto direto. Do ponto de vista financeiro, estas medidas são justificáveis, na medida  em que contribuem para a preservação de ativos públicos e para a redução de custos  operacionais no médio prazo. No entanto, a análise económica não pode limitar-se à ótica  da despesa de capital executada. A ausência de modelos claros de exploração, de  indicadores de retorno e de mecanismos de responsabilização levanta dúvidas sobre a  eficiência do investimento.

Em termos práticos, persiste uma tendência para dissociar o financiamento da utilização  efetiva dos equipamentos. A lógica dominante continua a privilegiar a execução  orçamental em detrimento da criação de valor. Sem planos de negócio que assegurem  taxas de ocupação elevadas, diversificação de receitas e gestão profissionalizada, existe  um risco material de transformação de investimento público em encargos permanentes.

Este risco é particularmente relevante num contexto em que as finanças locais enfrentam  constrangimentos crescentes e em que a sustentabilidade de longo prazo dos ativos  deveria ser um critério central de decisão.

Paralelamente, o enquadramento do desporto no PTRR permanece essencialmente  instrumental. A sua ligação à saúde pública, à coesão social e à inclusão é reconhecida e  deve ser valorizada. Contudo, essa abordagem, embora necessária, é manifestamente  insuficiente do ponto de vista económico. O desporto representa hoje uma cadeia de valor  complexa, com impacto em áreas como o turismo, os serviços especializados, a formação  de recursos humanos e a projeção internacional do país. Ignorar esta dimensão significa  limitar o potencial de retorno do investimento público e reduzir a capacidade de o setor  contribuir para o crescimento económico.

A inexistência de medidas orientadas para a dinamização do investimento privado é, neste  contexto, particularmente relevante. A experiência internacional demonstra que os  ecossistemas desportivos mais desenvolvidos assentam numa combinação equilibrada  entre investimento público e privado, com modelos de governação que incentivam a  eficiência, a inovação e a concorrência. No caso português, o financiamento continua  fortemente dependente de transferências públicas, muitas vezes fragmentadas e pouco  articuladas, o que condiciona a escala e a sustentabilidade das organizações.

A este nível, a questão da governação assume um papel central. A dispersão de  competências, a sobreposição de intervenções e a ausência de métricas de desempenho  claras dificultam a avaliação do impacto das políticas. Estruturas como o Comité Olímpico  de Portugal e o Comité Paralímpico de Portugal desempenham funções essenciais na  representação externa e no desenvolvimento do alto rendimento, mas operam num  enquadramento financeiro que nem sempre favorece a previsibilidade e a eficiência. A  ausência de instrumentos que promovam a estabilidade plurianual e a contratualização de  objetivos limita a capacidade de planeamento e de execução.

Apesar de ser justo reconhecer uma evolução face a ciclos anteriores, nomeadamente ao  nível do reforço de verbas e de alguma maior estruturação dos programas, persistem  défices relevantes, quer no volume de investimento, quer, sobretudo, na qualidade da  gestão operacional dos programas de preparação olímpica, paralímpica e surdolímpica. O  problema deixou de ser apenas de insuficiência financeira; é também, e cada vez mais, de  alocação eficiente de recursos. A inexistência de modelos consistentes de financiamento  plurianual, associados a objetivos quantificáveis e a indicadores de desempenho claros, conduz a uma gestão frequentemente condicionada por ciclos curtos, com impacto direto  na estabilidade das equipas técnicas, no planeamento desportivo e na capacidade de  retenção de talento.

Acresce que a fragmentação das fontes de financiamento e a diversidade de interlocutores  institucionais introduzem complexidade adicional, reduzindo a agilidade na tomada de  decisão e aumentando os custos de contexto. Em vez de um sistema orientado para  resultados, com incentivos alinhados e responsabilização efetiva, persiste uma lógica  predominantemente administrativa, onde o cumprimento formal de requisitos se sobrepõe  à avaliação do impacto real. Esta abordagem dificulta a criação de economias de escala,  limita a especialização técnica e reduz a eficiência global do sistema.

Num contexto de crescente exigência competitiva internacional, onde pequenas  diferenças de investimento e de organização produzem impactos significativos no  desempenho, estas fragilidades tornam-se particularmente evidentes. Mais do que  aumentar o financiamento, o desafio passa por estruturar um modelo de governação que  privilegie a previsibilidade, a transparência e a gestão por objetivos, permitindo transformar  recursos em resultados de forma consistente e sustentada.

Do ponto de vista fiscal, subsiste igualmente margem para evolução. O sistema atual  oferece poucos incentivos claros ao investimento no desporto, seja ao nível do mecenato,  seja na promoção de parcerias estruturadas com o setor empresarial. Num contexto de restrição orçamental, a capacidade de mobilizar capital privado torna-se um fator crítico.  A criação de mecanismos fiscais que alinhem interesses e incentivem o investimento de  longo prazo poderia contribuir para reduzir a dependência do financiamento público e  aumentar a eficiência global do sistema.

Mais do que benefícios pontuais ou regimes excecionais, o que está em causa é a  necessidade de um enquadramento fiscal coerente, estável e previsível, que trate o  desporto como uma atividade com potencial económico e não apenas como uma área  subsidiada. Hoje, o mecenato desportivo continua limitado, pouco competitivo face a  outros setores e excessivamente burocrático, o que reduz a sua atratividade para empresas  que poderiam desempenhar um papel mais ativo no financiamento do ecossistema. A  ausência de incentivos robustos à participação do setor privado traduz-se numa  oportunidade perdida de diversificação de receitas e de partilha de risco.

Por outro lado, a fiscalidade aplicável às organizações desportivas e aos seus agentes nem  sempre promove a eficiência nem a profissionalização. A inexistência de um quadro fiscal que incentive a reinversão, a capitalização e a criação de estruturas mais sólidas acaba por  perpetuar modelos frágeis, excessivamente dependentes de transferências públicas ou de  receitas voláteis. Acresce que não existe uma estratégia clara para atrair investimento  externo, seja na organização de eventos, seja no desenvolvimento de infraestruturas ou na  criação de centros de alto rendimento com vocação internacional.

Uma abordagem mais ambiciosa passaria por introduzir mecanismos que recompensem o  investimento produtivo e de longo prazo, nomeadamente através de deduções fiscais mais  eficazes para empresas que invistam em projetos desportivos com impacto mensurável,  regimes que favoreçam parcerias entre entidades públicas e privadas, e instrumentos que  incentivem a transparência e a accountability como contrapartida desses benefícios. Não  se trata de criar exceções, mas de desenhar um sistema que alinhe incentivos económicos  com objetivos de política pública.

Num setor onde o financiamento público dificilmente acompanhará todas as  necessidades, a fiscalidade pode, e deve, ser um instrumento de política económica ao  serviço da sustentabilidade. Sem essa evolução, continuará a prevalecer um modelo  assente na dependência e na fragmentação, com impacto direto na capacidade de  crescimento e na eficiência do sistema desportivo como um todo.

Neste enquadramento, o Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR) pode  ser entendido como uma etapa relevante, mas ainda insuficiente. Representa, de facto,  uma oportunidade para corrigir défices acumulados ao nível das infraestruturas e para reforçar a resiliência dos equipamentos, num contexto em que a preservação de ativos  públicos ganha centralidade económica. Contudo, ao permanecer ancorado numa lógica  predominantemente infraestrutural, o plano limita o seu alcance transformador. Do ponto de vista económico, o investimento em ativos físicos só se traduz em criação de valor  quando está associado a modelos de exploração eficientes, taxas de utilização elevadas e  capacidade de geração de receita. No caso do desporto, isso implica pensar os  equipamentos não apenas como centros de custo, mas como plataformas de atividade  económica, capazes de acolher eventos, dinamizar serviços, atrair fluxos turísticos e  integrar cadeias de valor mais amplas. A ausência desta visão traduz-se numa  subutilização crónica de ativos e numa fraca produtividade do capital investido. Assim, a  transição de uma lógica centrada na despesa, medida pela execução orçamental, para  uma lógica de investimento produtivo, medida pelo retorno económico e social, continua  por concretizar.

Uma segunda fase de desenvolvimento exigirá, por isso, uma ambição acrescida, assente  numa leitura mais exigente da economia do desporto. Essa ambição deverá materializar-se  na introdução de modelos de financiamento baseados em desempenho, que associem  recursos a resultados concretos: níveis de prática, indicadores de rendimento desportivo,  sustentabilidade financeira das entidades e impacto económico local. A contratualização  plurianual, com metas claras e mecanismos de monitorização independentes, permitirá  reduzir a incerteza e melhorar a eficiência na alocação de recursos. Em paralelo, torna-se  essencial criar condições efetivas para a mobilização de investimento privado, não apenas  como complemento, mas como elemento estruturante do sistema. Isso passa por reduzir  barreiras regulatórias, aumentar a previsibilidade fiscal e promover modelos de parceria  que alinhem incentivos entre entidades públicas e operadores privados.

Do ponto de vista desportivo, esta evolução é igualmente crítica. O desempenho  internacional, seja no contexto olímpico, paralímpico ou surdolímpico, está hoje  diretamente correlacionado com a qualidade dos sistemas de preparação, a estabilidade  das equipas técnicas e a capacidade de acesso a recursos especializados, ciência do  desporto, tecnologia, medicina e análise de dados. Estes fatores exigem investimento  contínuo e previsível, dificilmente compatível com modelos de financiamento  fragmentados e de curto prazo. A profissionalização da gestão, a especialização técnica e  a criação de centros de excelência com escala suficiente tornam-se, assim, condições  necessárias para transformar investimento em resultados desportivos consistentes.

Por outro lado, a integração do desporto nas estratégias económicas mais amplas permite  explorar efeitos de arrastamento frequentemente subvalorizados. O turismo desportivo, a  organização de eventos internacionais, a exportação de talento e a prestação de serviços  especializados representam oportunidades concretas de geração de receita e de criação  de emprego qualificado. Países que estruturaram o desporto como setor económico  conseguiram não apenas melhorar o seu desempenho competitivo, mas também criar  ecossistemas sustentáveis e resilientes. Portugal dispõe de vantagens comparativas  relevantes, clima, localização, know-how técnico, que poderiam ser mais bem exploradas  num enquadramento estratégico adequado.

O desafio que se coloca não é, portanto, apenas de reforço financeiro, mas de  reconfiguração do modelo. Num contexto de recursos limitados, a eficiência na alocação  torna-se determinante. Isso implica substituir uma lógica de financiamento inercial por  uma lógica de investimento seletivo, orientado para projetos com maior potencial de retorno. Implica também introduzir maior transparência, responsabilização e avaliação  contínua, garantindo que as decisões de investimento são informadas por evidência e não  apenas por critérios administrativos.

O desporto, pelas suas características transversais, pode desempenhar um papel  relevante na economia nacional, não apenas como vetor de bem-estar social, mas como  motor de atividade económica. Mas para que esse potencial se concretize, será necessário  ultrapassar uma abordagem centrada no financiamento público e evoluir para um modelo  mais aberto, competitivo e orientado para resultados. Essa mudança não depende  exclusivamente de mais recursos, mas sobretudo da capacidade de desenhar políticas  públicas que transformem investimento em valor de forma consistente e sustentável.