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Adalberto Campos Fernandes: "A fila de candidatos é tão grande que PS precisa de listas de espera"

Escolhido por Seguro para coordenar Pacto na Saúde acredita que conseguirá promover consensos, incluindo com o Chega. Avisa que, sem acordo, legislação laboral pode "ficar como está".

Mariana Lima Cunha
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Miguel Viterbo Dias
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Rita Tavares
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Rui Pedro Antunes
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Adalberto Campos Fernandes acredita que vai conseguir consensos interpartidários para o Pacto para a Saúde, missão que está a coordenar a convite do Presidente da República. O ex-ministro da Saúde defende a inclusão do Chega nesse acordo, já que um democrata não o “pode ser em dias alternados”. Em entrevista ao programa Vichyssoise, da Rádio Observador, Adalberto Campos Fernandes concorda que Mário Centeno “daria um bom primeiro-ministro”, mas avisa que o PS já precisa de uma “lista de espera” como existem na Saúde, uma vez “a fila de candidatos é tão grande” que já não sabe “quantos é que estão na fila”.

Relativamente à legislação laboral, o ex-governante começa por esclarecer que Seguro “não tem porta-vozes“, mas destaca que o Governo se colocou dentro de “uma camisa de onze varas”. Daí que considere que “ou há acordo na concertação social (…) ou isto pode ficar como está“. Adalberto Campos Fernandes diz ainda que é preciso perceber que “um Presidente da República se move num quadro de valores e de referências”, caso contrário “passa a ser um notário ou uma espécie de representante emblemático.”

Chega no Pacto da Saúde? “Não a cercas sanitárias, mas corrigir defeitos”

Foi nomeado pelo Presidente da República como Coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde. No atual quadro parlamentar, esta não é uma missão impossível? Conseguir um acordo político numa área tão sensível?
Não vou entrar em grandes detalhes sobre o que vamos fazer, porque talvez seja esse o segredo principal de podermos ter algum sucesso: não estarmos a dizer em público o que procuramos fazer. Agora, a diversidade democrática existe hoje como existiu sempre, na confrontação entre os partidos, as propostas e as ideias; mas a vida também nos tem mostrado que o confronto pode perfeitamente conviver com o acordo, e do desacordo pode surgir uma ideia comum – e temos em Portugal, não apenas na Saúde, ideias que unem a sociedade. Agora, se me perguntam se eu acredito em consensos absolutos, a 100% poderá haver uma ou duas coisas. O que pode haver é consensos muito alargados em muitas coisas e esse é o caminho que perseguimos. Menos ruído e menos diferenças que muitas vezes são artificiais, e pensar mais nos objetivos: o que é que vamos deixar, que país vamos deixar para os nossos filhos.

Vai trabalhar nisto numa base quotidiana e encontrar-se com pessoas? A ideia é seguir o estilo do Presidente, de ser tudo mais reservado, e não publicitar esses encontros?
Vou ser fiel àquilo que o Presidente da República disse enquanto candidato e depois enquanto Presidente – entendo que a reserva, para quem procura promover acordos ou entendimentos entre partes, é um ingrediente essencial. Falamos do que fizemos, nunca devemos falar daquilo que vamos fazer.

O facto de ter sido ministro de um governo PS não pode complicar esta tarefa com um maior ceticismo por parte do PSD e até do Chega?
Uma das vantagens que a passagem do tempo e a idade têm é que ficamos com a nossa vida exposta, e ter sido alguma coisa na vida não é em nenhuma circunstância, cadastro – tenta ser currículo. E se há pessoa que, independentemente de ter exercido funções num governo de um partido, pensa pela sua cabeça, julgo que me farão essa justiça… Não tenho nenhuma obediência a não ser à minha consciência, e o meu quadro de valores enquadra-se, em áreas no partido que eu sou originário, o PS; como no PSD, e tantos outros, onde há valores eu estou, e não será por isso que estaremos desalinhados.

No dia em que foi anunciada a escolha estava num evento onde também estaria Pedro Passos Coelho. Mas há uma frase que diz, que é que não há partidos de primeira e de segunda.
No atual contexto, um partido como o Chega – porque PS e PSD já têm um património, um histórico de se encontrarem para grandes questões estruturais – esse partido com a dimensão que tem não deve ser ignorado. Nesse almoço extraordinário estavam pessoas de todos os quadrantes políticos, não estava apenas o Pedro Passos Coelho, estava muita gente do Partido Socialista, de outros partidos mais à esquerda, mais à direita, muitos deputados, e portanto isso significa que as pessoas, quando discutem temas fora daquilo que é o ardor da ação política, podem estar juntos. Quanto à questão do Chega e a esta ideia de partidos de primeira e de segunda, um democrata não pode ser democrata em dias alternados. Posso ficar desagradado com aquilo que, por exemplo, se passa hoje na cena internacional, posso ficar encantado como fiquei com o discurso do Rei Carlos III em Washington, mas o presidente norte-americano foi eleito pelos americanos, e portanto não há cidadãos com os votos, sejam de primeira categoria ou de segunda categoria. Há os partidos que estão em desacordo com as ideias desses partidos, o que cabe não são cercas sanitárias, mas corrigir os defeitos que os eleitores pecepcionam que eles têm e, naturalmente, ser eficazes na ação política. Se os partidos tradicionais forem eficazes na ação política, se não forem opacos à matéria da transparência do exercício de cargos públicos, se todos fizermos melhor, o combate é pela escolha dos eleitores. Quem está na vida partidária e na vida política tem que perceber que disputa o quê? A atenção, o respeito, a curiosidade e a vontade dos eleitores votarem em si. Não é com um ambiente de queixinhas, ‘aquele menino é mau, portou-se mal, é pior do que eu’, que nós vamos lá. Portanto, às vezes parece que nos partidos tradicionais há uma abordagem um pouco infantil e imatura deste processo. O Chega está aí, tem 23%, bom, os partidos do arco democrático, que é assim que se reclamam, e do meu ponto de vista bem, têm que fazer pela vida para roubar desses 23% o maior número possível de votos e reconquistar a confiança dos eleitores.

Saiu do governo, depois de vários braços-de-ferro com as Finanças, até ficou famosa aquela frase do ‘Somos todos Centeno’, houve na altura cativações e falta de verbas para a sua área. Essa estratégia foi o início da descapitalização do SNS, com a meta do déficie superar sempre a questão da eficiência? 
Vale a pena, até para a memória futura, clarificar essa frase. Eu aliás alertei o primeiro-ministro que no debate de urgência que ia ocorrer no parlamento ia proferir essa frase, porque eu penso assim, sou verdadeiramente contra a ideia da acumulação de défice. Sabe porquê? Porque os défices geram sempre ao final do dia dívidas e quem paga as dívidas não somos nós, são os nossos filhos. Portanto, acredito que um país deve trabalhar num quadro de equilíbrio orçamental e, ao contrário do que se pensa, eu tinha uma excelente relação com o Mário Centeno e tenho. Outra coisa é dizer se nós podemos continuar nessa espiral da despesa em que em todas as frentes os portugueses estão a gastar muito dinheiro através dos impostos no SNS, com uma enorme ineficiência, estão a gastar muito dinheiro na frente privada através de terem de adquirir seguros de saúde e subsistemas e finalmente a despesa privada direta extra-financiamento intermediado. Porque enquanto a média na Europa é inferior a 15%, os pagamentos diretos em Portugal ultrapassam os 30% e eu disse isso nesse almoço. Não aguentamos tanta despesa, sobretudo se essa despesa estiver assente em cima de uma enorme ineficiência. Podemos pagar menos impostos se as áreas setoriais todas forem mais eficientes. A saúde precisará de dinheiro para quê? Para compensar melhores profissionais, para reter o talento, para trazer mais médicos para dentro do sistema público, isso é verdade, mas seguramente não para obrigar os cidadãos a andarem a gastar dinheiro em três sítios, porque efetivamente não encontram um alinhamento das suas necessidades e das propostas que procuram.

Mas falava de Mário Centeno, sabendo que tem essa relação mais próxima, ou que tem uma boa relação com ele, até porque em tempos disse que, e defendeu que seria, que daria um bom Presidente da República.
Sim, quando havia uma indefinição disse isso, aliás aqui na Rádio Observador. Quando havia uma indefinição sobre o quadro de presidenciáveis na área, digamos, do centro-esquerda e na parte do PS, eu sugeri esse nome. Enfim, ele acabou por não estar disponível e felizmente tivemos a disponibilidade do António José Seguro, que foi eleito com uma grande maioria e está a ser, do meu ponto de vista, embora eu seja suspeito, um excelente Presidente da República.

E Mário Centeno daria um bom primeiro-ministro? 
Não tenho dúvida nenhuma em dizer que daria um bom primeiro-ministro, embora eu olhe para o PS agora e parece-me que é preciso introduzir um sistema como existe na saúde, de listas de espera, porque a fila de candidatos é tão grande que eu já não sei quantos é que estão na fila. É normal que os partidos na oposição tenham esta turbulência, eu não vejo isto como nenhum drama. Agora, deixem o José Luís Carneiro ser líder, com calma, com tranquilidade, e acho que é preciso dosear um bocadinho a ansiedade. O que é bom para a população, para os eleitores, é que veem que o PS tem verdadeiramente um pipeline que é inesgotável.

"Não tenho dúvida nenhuma em dizer que Mário Centeno daria um bom primeiro-ministro. Mas para a liderança do PS é preciso listas de espera porque são tantos que já não sei quem está na fila"

“A vida normal é uma legislatura durar quatro anos”

Dentro dessa convulsão que diz que é normal num partido na oposição, a verdade é que no caso do PS acabam por ser os líderes condenados a não irem às legislativas? Acha que vai ser assim também com o José Luís Carneiro? 
Estávamos há pouco em off a falar de futebol, como sabe eu sou benfiquista, faço aqui a minha declaração de interesses e portanto estou feliz por razões indiretas, mas na política é muito perigoso, sempre foi muito perigoso fazer prognósticos antes do fim do jogo. Nós tivemos um Governo com maioria absoluta, com uma das maiores maiorias absolutas, a segunda maior do PS, que caiu por causa de uma coisa que nós hoje ainda não percebemos.Montenegro já esteve para cair várias vezes com a Spinumviva todas essas questões. Portanto, o que nós queremos em Portugal é uma vida normal. Um cidadão comum, um eleitor, o que é que pretende para Portugal? Uma vida normal, que é, por exemplo, uma legislatura que dure quatro anos. Quando uma legislatura dura há quatro anos, os governos fazem pela vida e mostram o que valem. No final desse tempo, os eleitores avaliam e olham para a alternativa e dizem, bom, entre o que está e o que vem, o que é que eu acho? Agora, até lá, esta turbulência gera cocriação, criatividade, gera fulgor, mas talvez fosse boa ideia não exagerar, não é?

"Esta turbulência no PS gera cocriação, criatividade, gera fulgor, mas talvez fosse boa ideia não exagerar, não é?"

Esta demarcação de Duarte Cordeiro é o começo de uma oposição interna a José Luis Carneiro e faz sentido esta demarcação nesta altura do campeonato?
Sabe, parafraseando aqui o Pedro Nuno Santos, não sou um especialista em tática e, portanto, eu não sei se isto é tática, se é vontade, se é uma posição de energia, de motivação, não vejo nenhum drama sobre isso. Sempre entendi que nas empresas, nas universidades, na política, os líderes que estão em funções devem estar a ser permanentemente desafiados, porque se tornam melhores. Um líder forte é um líder que se confronta com desafios, que não está acomodado. Portanto, creio que quer o Duarte, quer o Pedro Nuno, quer outros que possam aparecer, ao manifestarem-se estão a desafiar-se.

Este regresso de Pedro Nuno Santos acrescenta valor à bancada do PS ou vem criar mais ruído? 
Isso é uma pergunta que lhe tem que fazer a ele, porque efetivamente é uma decisão individual, respeitável, e eu não queria estar a fazer a minha apreciação sobre isso. Ele terá as suas razões, tem o seu direito, foi eleito deputado, é um mandato que lhe está atribuído e, portanto, essa manifestação de vontade dele, aliás, foi correta, quando fez aquela afirmação pública, foi bastante correta com o líder, até do ponto de vista institucional, não deixando de ser um elefante dentro da sala pela série de recados que deu. José Luís Carneiro até foi o mais poupado. Agora o que eu vos digo é o seguinte: os líderes têm de ser desafiados. Por exemplo, no Governo, Luís Montenegro está permanentemente a ser desafiado por cenários alternativos.

Pelos os seus parceiros de almoço.
Só os partidos que não têm desafios internos é que se acomodam e um partido que se acomoda morre. Veja a Iniciativa Liberal. Quer dizer, nós temos que ter um permanente desafio para que os líderes se afirmem como corajosos, como bravos, como capazes de ser líderes. Porque um líder não é alguém que chega a um sítio e entrou num lugar para a vida. Ele está todos os dias a fazer pela vida.

Legislação laboral. “O Presidente vai ver o que é que lhe chega à secretária”

O atual presidente da República disse em campanha que bastava o acordo da UGT para dar luz verde a uma reforma laboral. Não acabou por contaminar as negociações sobre o pacote com esta pressão que é muito grande sobre a central sindical? 
Puxemos a fita atrás. Vamos à campanha eleitoral e eu peço a vossa ajuda para recuperarmos a memória. Qual foi o candidato presidencial que não se pronunciou sobre uma matéria tão relevante ao país como era a alteração das leis laborais? Houve algum que não se tenha pronunciado sobre isso? Imagine que o Dr. Luis Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo ou Cotrim de Figueiredo tenham sido eleitos. Estávamos a falar de algo que era essencial porque tinha uma importância política e social forte. O Presidente manifestou a sua posição porque quem foi votar nele foi, digamos, esclarecido no sentido de qual seria a sua posição porque a lei cairia já não nas mãos do Governo.

A pergunta é se isso não acabou por condicionar as negociações e a própria UGT que têm agora este peso em cima de depender dela quase um veto ou uma aprovação.
Primeiro era útil que se percebesse que um Presidente da República ou um candidato se move num quadro de valores e de referências. Pensa sobre os Estados Unidos, pensa sobre a defesa, pensa sobre as leis do trabalho, pensa sobre a vida de todos nós. Se não, passa a ser um notário ou uma espécie de representante emblemático, mais um dos símbolos da República. Dito isto, esta ideia de que a UGT está às ordens do PS e do PSD é errada. A UGT terá lá, com certeza, pessoas que são militantes dos partidos, mas a UGT tem autonomia própria, como tem a CIP. A CIP não está à ordem de nenhum partido nem de nenhum governo. Deixemos que os parceiros sociais continuem a conversar com o Governo, e eu creio que o governo tem dado sinais de procurar esse entendimento, e esperemos que isto não se transforme num estreito Ormuz para o Governo. Que este bloqueio não seja infinito, e se seja fé, haja luz. Aliás, eu procuro a Luz, sinceramente, e falei há bocado em termos desportivos, eu estou desejoso por ver a luz ao fundo do túnel.

Mas nesse caso, se como dizia o Governo tem parecido fazer um esforço para chegar a acordo, e a UGT ficar de fora e a reforma passar apenas com os votos da direita e no Parlamento, deve contar com o veto do Presidente?
O Presidente vai fazer aquilo que disse, vai ver o que é que lhe chega à secretária. Ele pronunciou-se sobre um anteprojeto, como aliás todos os candidatos presidenciais. Algum dos senhores conhece o documento atual com as 188 alterações?

O ponto dele não era exatamente as medidas. Era haver uma legitimidade por via daquilo que estaria no programa de governo, e com o acordo na concertação.
Se a UGT se afasta do acordo provavelmente é porque o conteúdo das medidas não é, do ponto de vista da própria UGT, boa para os trabalhadores. A leitura que o Presidente fará será feita por ele próprio no momento certo, quando o documento lá chegar, e depois de passada esta fase final da negociação. Vou dizer uma opinião que é estritamente pessoal. O Governo meteu-se numa camisa de onze varas. Porque esta matéria não tinha sido apresentada aos eleitores na campanha. É uma matéria que é divisiva na sociedade portuguesa, e naturalmente que tem de ser feita com uma grande preparação e um grande trabalho de diálogo com os parceiros sociais. Chegados aqui, o Governo percebe que, não tendo sido possível o acordo na concertação social, o pior pesadelo que pode ter é negociar isto com o Chega. A gente já sabe que o Chega quer votar contra, porque não quer ficar ao lado do Governo numa matéria tão sensível. O seu eleitorado é muitas de pessoas que são afetadas por estas medidas, e portanto, o que é que o Chega diz? Quer dialogar, mas quer votar contra. Qual foi a melhor maneira? Previsível, baixar a idade da reforma. Podia ter sido outra coisa qualquer. Foi esta. As conversas estão feitas e o Governo sabe que negociar com o Chega é ter qualquer coisa que não corresponderá aos seus interesses estratégicos em matéria de leis laborais, e este sinal de baixar a idade da reforma já é um sinal de qual é a intenção de voto final do Chega. Portanto, ou há acordo na concertação social, ou há de facto aqui uma reviravolta do ponto de vista estratégico, ou creio que isto pode ficar como está.

"Ou há acordo na concertação social, ou há de facto aqui uma reviravolta do ponto de vista estratégico, ou creio que isto [a legislação laboral] pode ficar como está."

Há pouco quando dizia que os candidatos se pronunciaram e toda a gente ficou com a ideia que, sem acordo com o UGT, o Presidente António José Seguro, portanto, os eleitores votaram nele com a expectativa de que travaria essa lei em Belém. António Galamba escreveu um artigo aqui há dois dias no Observador que diz precisamente isso: que sem acordo na concertação social é muito difícil ao Presidente não vetar.
Há aqui um aspeto que deve ser aclarado: o Presidente não tem porta-vozes. Tem pessoas que o respeitam, que são próximos dele, que têm confiança política nele, mas ele não guarda a liberdade de nenhuma das pessoas que estão próximas dele dizer o que pensam. O António Galamba exprimiu a sua opinião, a sua ideia, aquilo que ele faria. Mas eu não vejo nisso uma posição do Presidente da República, vejo a posição do António Galamba como eu estou também aqui a dizer umas coisas que são a minha opinião.

Sobre a sua posição, parecia-me que estava a dizer que esse compromisso que os candidatos tinham com o eleitorado deve ser cumprido. E o compromisso de António José Seguro foi haver um acordo na concertação social, em particular com a UGT, ou no mínimo com a UGT, para que pudesse promulgar a lei. 
Mas eu acho que é mais o conteúdo da própria lei. Isto não é preto nem branco. O Governo cometeu esta imprudência de lançar o projeto. Os argumentos do primeiro-ministro, alguns deles são aceitáveis. Nós temos problemas de produtividade na economia há muitos anos. Resta saber se eles se devem apenas e só à vertente dos trabalhadores, ou se é também uma dimensão tecnológica, de inovação empresarial, etc, também das entidades patronais. Essa matéria é uma matéria que beneficiaria ter havido uma discussão prévia, aberta e profunda com a sociedade civil. O que é que nós podemos fazer para melhorar? Já ouvi muita gente dizer, até António Bagão Félix que não é pela lei que o país deixa de ser mais competitivo. Mas, quer dizer, toda a gente que tem um espírito aberto percebe que algumas melhorias progressivas em relação às leis podem ser feitas. Iria a uma expressão de um amigo meu de há muitos anos que me diz que as melhores reformas e as melhores transformações são aquelas que se baseiam no método das aproximações sucessivas. Uma vez em Paris esse meu amigo dizia-me que normalmente os melhores resultados nas transformações são pelos pequenos efeitos, pelas pequenas causas, pelos ganhos que às vezes são milimétricos. É preciso subir a escada não aos lances, aos saltos, mas subir de degrau a degrau. Se calhar, se o governo quisesse recuar um pouco e aproximar-se das posições da UGT, em vez de subir um lance de 10 degraus, subia três degraus, daqui por uns anos poderíamos estar a fazer uma nova release. O problema é esta ideia de que as reformas têm que ser o resultado de uma grande discussão. E ou é assim, ou é assado. Bom, isso não é reforma. Isso é, de facto, trabalhar para conservar os bloqueios, porque a sociedade é feita por pessoas que têm posições diferentes e, portanto, ou se juntam por um mínimo denominador comum, ou então não há.

O líder do PS disse que conta com o António José Seguro para levar o PSD a negociar mais com o PS. O Presidente deve ter esse papel?
Qual foi o Presidente da República relativamente ao qual os atores políticos e sociais não procuraram de alguma forma, alavancar, retirar vantagem, enquadrar, condicionar, etc. Todos. Basta ver que desde a fundação da democracia todos os presidentes passaram por isso. É natural que o líder do PS diga isso, é natural que o líder do PSD diga outra coisa qualquer, mas um Presidente da República não está imune a esse tipo de pressões. Tem que estar preparado para elas, mas faz aquilo que a sua obrigação de juramento e a sua consciência lhe obriga a fazer. Um Presidente só está obrigado a duas coisas: a sua consciência, em primeiro lugar; em segundo, ao juramento constitucional que faz de fazer cumprir a Constituição da República.

E não fragiliza o líder do PS estar a pedir esta proteção?
Não me parece. Isso faz parte da lide política normal. Podia acontecer os partidos mais à esquerda estarem a apelar ao Presidente, se o Presidente é de esquerda, para vetar, os da direita, se o Presidente é da direita, para fazer outra coisa qualquer. Aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares, Cavaco Silva…

Esta semana foi apresentado o PTRR, que tem um horizonte para oito anos, ou seja, para lá, desta legislatura. Devia ter sido negociado previamente com a oposição? 
Vamos à pureza dos princípios: quando eu apresento um plano que ultrapassa o meu mandato, mais que não seja por razões de delicadeza institucional, devo falar com aquele que pode, eventualmente, vir-me substituir no final desse meu mandato. Depois trata-se de uma matéria de regime e de Estado. Tratam-se medidas que são estruturais e que vão alterar profundamente aspetos ao nível quer da vida das pessoas, quer das infraestruturas. Sim, a minha resposta é sim. Se eu decido fazer um aeroporto, naturalmente, faz todo o sentido de falar com os partidos do Parlamento, sobretudo aqueles que têm a possibilidade de vir a ser Governo.

Luís Montenegro diz que incluiu, por exemplo, da parte do Partido Socialista, 60 a 80% das propostas. Isso é suficiente?
Sim. E admito que tenho falado, não sei se falou ou não, com o PS, tenho falado, mas a minha resposta à sua pergunta é claramente que sim. Quando são matérias de Estado e que ultrapassam os mandatos dos governos, é uma questão até de delicadeza cívica.

Transparência. “Espero que o PSD não cometa um harakiri ético”

O Presidente defendeu também que os donativos a partidos, no discurso de 25 de Abril, devem ser públicos. Ao mesmo tempo o PSD parece ter uma vontade mais de proteção dos políticos. Uma maior opacidade seria um diploma a ter oposição em Belém?
É preciso lembrar o papel de António José Seguro enquanto deputado e o que foi a vida parlamentar dele e a luta que prosseguiu em matéria de transparência e de escrutínio público. Tendo vista as cerimónias do 25 de abril, fiquei com alguma preocupação no discurso do Presidente da Assembleia da República, que levantou questões que merecem discussão, mas provavelmente num debate na Faculdade de Direito sobre a reforma do sistema político, não naquele momento e naquela circunstância. Por outro lado, espero que o PSD não cometa um harakiri ético em termos de política porque não se pára ao vento com as mãos. E não é por vir dizer que os políticos, do ponto de vista do sentimento do Calimero, são mal pagos e por isso lhes é permitido fazer tudo e mais alguma coisa, que nós contrariamos aquilo que é hoje a sensação de lodo. Infelizmente a disfunção da justiça gera nas pessoas uma perplexidade, uma incomodidade e até uma revolta que dá consequências. Tendo a justiça as dificuldades que tem a última coisa que nos faltaria era o Governo ou um partido que sustente o Governo ter hesitações sobre isso. O escrutínio é essencial. A questão dos salários dos políticos posso discutir, mas o escrutínio é essencial. Se não for feito pelas instituições, é feito por vós, pela comunicação social.

O Presidente escolheu a Ilha Terceira como palco do 10 de junho. Isto não é arriscado, tendo em conta que os Estados Unidos pediram para usar a base até junho? É compreensível ter os Estados maiores das Forças Armadas, as maiores entidades do Estado e ao lado de estarem a aterrar drones assassinos ou a ideia é mesmo uma afirmação de soberania? 
Não. Arriscado é abdicar daquilo que é a dignidade de um Estado, ainda que pequeno e frágil, e que tendo uma importância estratégica e que tem perante um grande parceiro, não renegando essa aliança e essa condição de parceria, que se fecha e que se remeta a uma condição de subordinado. Foi uma feliz escolha do Presidente da República, de afirmação de uma soberania de um país que, sendo pequeno, tem dignidade política, tem dignidade no contexto internacional, que é um aliado natural dos Estados Unidos, mas que não é um aliado anónimo, não é um aliado obediente que não tem olhos e ouvidos. E eu acho que o Presidente da República, não só no que disse, mas nesta intenção, dá um sinal que vem na linha o discurso do Rei Charles em Washington, que é o discurso que o mundo gostaria de ter feito perante o Presidente americano. Mas claro, o Rei de Inglaterra tem um poder que o Presidente português não tem, mas o Presidente português está a dizer que, apesar de pequenos e fracos, nós podemos não abdicar da nossa dignidade e dos nossos valores em matéria de política externa.

O Presidente português tem sido mais crítico da administração Trump do que propriamente o governo português. Isso dá um bom equilíbrio ao país ou pode revelar uma fragilidade, não haver um alinhamento total entre São Bento e Belém nesta matéria? 
Não há desalinhamento nenhum. O Governo português também está a corrigir a trajetória. Imagine que sou seu amigo, você é muito poderoso e tem muito dinheiro e está a fazer algo com o qual eu discordo. Eu não deixo de ser seu amigo e seu aliado se lhe disser o que está a fazer mal ou que não devia ir por aí. Ora, qual é o problema de um país pequeno e um aliado manifestar algum desconforto ou alguma divergência, não quebrando os laços que estão inscritos em tratados e em compromissos que são firmes? O Governo já dá ele próprio alguns sinais de procurar ir mais por uma posição europeia, não renegando aquilo que é fundamental: a aliança com os EUA é essencial, a NATO não pode acabar, a NATO sem os Estados Unidos acaba e o presidente americano tem mais dois anos de mandato, a seguir virá o outro e os EUA continuam 250 anos depois.

Mariana Vieira da Silva ou Temido? “Procuraria uma terceira ou quarta escolha”

Vamos agora à fase do Carne ou Peixe, em que tem de escolher uma de duas opções. Quem é que preferia apoiar numa campanha das legislativas como cabeça de cartaz pelo Partido Socialista: Duarte Cordeiro ou Mário Centeno?
Eu não tenho atividade partidária e portanto eu não me manifestaria sobre nenhum, acho que são os dois personalidades com grande qualidade. Talvez eu, pela minha maneira de ver a vida e a minha apreciação da vida pública, apreciasse mais um estilo mais executivo e mais tecnocrático. Não querendo ser desagradável para o Duarte Cordeiro, uma vez que tenho que responder, talvez apoiasse o Mário Centeno.

O Benfica campeão na próxima época ou um pacto para a saúde fechado, mas a ver o título de fugir ao Benfica no último minuto da última jornada por um ponto?
Correndo o risco de vir a ser expulso na próxima Assembleia Geral do Benfica, prefiro o Pacto à Saúde e sacrifico uma época de vitória do Benfica.

Que mulher socialista preferia ver candidatar-se à liderança do PS? Marta Temido ou Mariana Vieira da Silva? 
Olha, acho que ambas têm as suas qualidades, mas eu, entre essas duas hipóteses, procuraria uma terceira ou uma quarta alternativa.

Para terminar, preferia o regresso de Bernardo Silva ao Benfica ou o de António Costa à liderança de um governo?
Nesse aspeto a paixão clubística é mais forte. O António Costa já cumpriu o seu mandato, já tem uma idade que lhe permite ambicionar estar pela Europa, onde provavelmente continuará.

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]