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Zach Galifianakis e o humor ajardinado

"Mãos na Terra" promete convencer miúdos e graúdos a cultivar os próprios vegetais e frutas. Depois do sucesso de "Between the Ferns", o ator procura a comédia num cenário (ainda) mais verde.

Mariana Carvalho
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A personagem de Zach Galifianakis n’A Ressaca, que catapultou a carreira do ator e humorista em Hollywood, afasta-se muito da estética naturalista da nova série documental que protagoniza na Netflix. Se no filme de 2009, Alan perde a memória após uma noite de descalabro em Las Vegas, Mãos na Terra (This is a Gardening Show) — estreado na plataforma de streaming a 22 de abril — oferece uma experiência bucólica e acolhedora, que incentiva qualquer um a enterrar os dedos na terra e comprar vegetais num mercado de agricultores. Ou pelo menos assim espera.

Apaixonado por jardinagem e horticultura há vinte anos, Galifianakis prefere uma maçã ou um tomate sumarento — que realmente é fruta, e não vegetal — às bebidas destiladas e estupefacientes d’A Ressaca. Para descobrir os segredos dos produtos cultivados que aparecem magicamente nas prateleiras de supermercado, o ator consulta especialistas e troca impressões com uma faixa etária com quem partilha, no mínimo, o sentido de humor.

Os seis episódios, de aproximadamente 15 minutos cada, começam com entrevistas a crianças entre os cinco e oito anos, numa série de momentos francamente enternecedores e nos quais o humor nonsense e espontâneo de Galifianakis surpreende até os mais novos. A partir de perguntas simples, estabelece diálogos disparatados com os interlocutores, confusos perante a sinceridade desarmante de um adulto que fala sobre diarreia, ladra como um cão e devora uma maçã inteira em poucos segundos.

https://www.youtube.com/watch?v=32kQ9Niy7EA

Há uma inversão de papéis que deixa os miúdos boquiabertos e, até embaraçados. Nas entrevistas, são eles que se comportam como adultos quando tentam inventar respostas certas para perguntas disparatadas — com algumas exceções. “Tens filhos?”, pergunta Galifianakis ao pequeno Lucas, que responde com a maior das certezas que sim, tem “onze”. “Ainda bem para ti, estás muito bem conservado”, continua Zach. “Quantos anos tens?” “Cinco e meio. Quase seis.” A punchline vem a seguir: “Ah, tens quase seis, isso faz mais sentido”, antes de um corte em que pergunta a uma menina do pré-escolar se sabe o que é um fungo ou conhece as variedades de cogumelo que existem.

As conversas desenrolam-se à volta de um grupo de vegetais, de uma fruta ou de uma prática agrícola, que serve de mote para o resto do episódio. Uma espécie de manual de agricultura para totós, Mãos na Terra tem um propósito pedagógico e quase ativista — apesar de Galifianakis rejeitar uma interpretação política na entrevista que deu ao The New York Times: “O elemento agregador é a comida. Eu e tu podemos não concordar sobre política, mas ambos adoramos meloa.”

Assim, do conforto do sofá, o espectador pode aprender a enxertar uma macieira, a plantar um pé de tomate, a produzir composto ou a descobrir as vantagens de colher frutos silvestres. Tudo a partir da sabedoria de produtores que praticam agricultura sustentável, pontuada pelo sentido de humor algo infantil de Galifianakis. Na crítica do The Guardian à série, Stuart Heritage recorda os programas de jardinagem que passavam na televisão durante a sua infância, como o Gardener’s World transmitido pela BBC: “Os mais longos e aborrecidos 30 minutos de televisão da [sua] semana”, escreve.

Heritage reflete sobre o quão diferente seria a sua vida se um programa mais atrativo, como Mãos na Terra, existisse no lugar daquele que lhe “consumia a força vital”. No mesmo artigo, expressa o desejo de mostrar a série da Netflix aos filhos, admitindo que, “se tiver o efeito esperado, pode assinalar o início de uma nova geração de agricultores”.

Num mundo onde a maioria da população vive em centros urbanos que privilegiam um estilo de vida sedentário, a proposta de Galifianakis serve de bálsamo ao sonho de evasão para uma quinta na planície alentejana ou nas profundezas de Trás-os-Montes. A proximidade da natureza e o ato de cultivar o próprio alimento sugere uma simplicidade e um despojo incompatíveis com a vida na cidade, além de um horizonte introspetivo que a pressão constante dos ponteiros do relógio não permite concretizar. Há um tempo especial e retardado na interação com o mundo vegetal, um vagar que só está autorizado à infância — talvez seja por isso que as entrevistas a crianças provocam uma sensação tão forte no espectador.

“A jardinagem não é assim tão difícil”, admite o ator, na entrevista já mencionada ao The New York Times. “Consome tempo, mas não é tempo perdido. De repente, passaram duas horas, três, e sentes-te bem porque estás ao ar livre, próximo da natureza. Eu olho para as cidades e não consigo acreditar em quanto cimento existe neste mundo. Porque é que em vez de área construída não existem hortas?”

O cuidado inerente à jardinagem propõe uma definição de amor paciente, mas enternecedora, e que pode servir de incentivo a quem prometeu fazer uma horta de aromáticas na varanda há anos, sem nunca passar a vias de facto. Afinal, estar perto do jardim “faz-nos bem” — como exemplificam Sylvain e Royann, o casal de produtores de tomate que passeia de mão dada pela propriedade. Galifianakis afirma que “o futuro é agrário”, e abraça práticas sustentáveis diante das condições climáticas extremas que a ciência prevê para os próximos anos — sem nunca ser fatalista. A presença das crianças, a imagem sob um filtro luminoso e a banda sonora mellow, com destaque para a canção do genérico da autoria dos britânicos Thunderclap Newman (Something in the Air), não o permitem. Como enfatiza no último episódio, “a horta”, “a Terra” e “a natureza” são a nossa esperança num mundo onde é difícil não ser pessimista.

Conversas entre fetos

De resto, Mãos na Terra não é a primeira peça audiovisual protagonizada por Galifianakis em que mostra uma queda particular pelo mundo vegetal. Recordem-se as entrevistas constrangedoras conduzidas pelo ator entre dois fetos (a planta) a celebridades americanas. Transmitidas pelo canal de YouTube Funny Or Die, desenrolavam-se num estúdio de baixo orçamento e despojado de adereços, onde para lá do entrevistador e entrevistado entretidos numa conversa quase insultuosa, existiam apenas dois vasos que derramavam os caules verdes e frondosos (exceto numa ou outra ocasião em que estavam secos) da espécie vegetal pré-histórica.

Passaram pelo programa satírico políticos, atores e humoristas, como por exemplo Barack Obama, Hillary Clinton, Brad Pitt, Sean Penn, Jennifer Lawrence, Jerry Seinfeld ou Conan O’Brian — que o apresentador ridicularizou e tentou hostilizar. No episódio com Bradley Cooper, com quem Galifianakis contracenou n’A Ressaca, o duo chega a encenar uma cena de pancadaria, e não são poucos os silêncios constrangedores dos convidados ou as instâncias em que a inadequação do entrevistador os obriga a levantar a voz.

https://www.youtube.com/watch?v=SVHAd3jwZy0

O jornal Chicago Tribune descreveu o projeto como “uma improvisação surreal, um talk-show mais próximo de tecer uma crítica à falsa intimidade da entrevista a celebridades do que de ser efetivamente um talk-show”. Os últimos episódios de Between Two Ferns, série que rendeu um Emmy a Galifianakis, foram emitidos pelo canal da Netflix is a Joke, marca de comédia da plataforma de streaming, em 2020. A série prova que o humor pode adquirir inúmeros formatos e que cada comediante tem uma interpretação muito própria e diferenciadora: neste caso destaca-se a inconveniência incómoda de tão ridícula, que habita o território do absurdo e do nonsense.

Em Mãos na Terra, as florestas temperadas do Canadá, os lagos de superfície espelhada, os frutos, as árvores e as flores beneficiam de uma abordagem humorística, que torna a jardinagem mais cativante para quem assiste — ainda que seja justo afirmar que a curta duração dos poucos episódios disponíveis trate o assunto pela rama, sem aprofundar ou oferecer instruções concretas para aspirantes a horticultor. O tratamento estético da imagem também contribui para uma experiência agradável e idílica, pelo desfoque da câmara, vivacidade das cores e utilização de técnicas visualmente apelativas, desde time-lapses de rebentos que brotam da terra, a ilustrações animadas oferecendo contexto histórico ou montagem de planos inteligente. Os seis episódios estão disponíveis na Netflix desde 22 de abril, sem previsões (para já) sobre novos lançamentos.