O último ano em Portugal foi marcado por uma sucessão de acontecimentos que nos deixaram inquietos: um apagão energético que paralisou serviços e revelou fragilidades; grandes incêndios florestais que voltaram a consumir território e vidas; e tempestades ciclónicas acompanhadas de inundações que atingiram populações desprevenidas. Não foram episódios isolados. Foram sinais. E a questão decisiva não é apenas técnica ou política, é também moral.
A Doutrina Social da Igreja convida-nos a ler a realidade à luz de princípios como o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade e o cuidado da casa comum. Não são conceitos abstratos. São critérios concretos de ação.
O apagão energético expôs a dependência crítica de sistemas complexos e a necessidade de planeamento responsável. Quando a luz falha, percebe-se que a energia não é apenas um recurso económico, é um bem essencial ao serviço da dignidade humana. Hospitais, comunicações, mobilidade: tudo depende dela. A Doutrina Social recorda-nos que o acesso a bens fundamentais deve ser garantido com justiça e previsibilidade. Não basta eficiência; exige-se responsabilidade ética e visão de longo prazo.
Os incêndios florestais, por sua vez, continuam a revelar um país que, apesar de décadas de alertas, tarda em cuidar do seu território. A desertificação humana do interior, a gestão fragmentada da floresta e a lógica de curto prazo criam um cenário propício à tragédia. Aqui, a encíclica Laudato Si do Papa Francisco é particularmente clara: “tudo está interligado”. O abandono social e económico gera fragilidade ecológica; e esta, por sua vez, atinge sobretudo os mais pobres. O fogo não é apenas um fenómeno natural: é também consequência de opções (ou omissões) humanas.
As tempestades e inundações vieram completar este quadro. Fenómenos extremos tornam-se mais frequentes e intensos, e atingem com maior dureza quem vive em condições mais precárias. A Doutrina Social da Igreja fala de “opção preferencial pelos pobres”: não como slogan, mas como critério de justiça. Preparar cidades, proteger margens, planear o território são formas de caridade política. Não agir é deixar que os mais frágeis paguem o preço mais alto.
Perante este cenário, a tentação é a do fatalismo: “sempre foi assim”. Mas a visão cristã recusa essa resignação. O mundo é dom, mas também tarefa. E a política — tantas vezes desacreditada — é, como lembrava o Papa Pio XI, uma das formas mais altas de caridade, quando orientada para o bem comum.
O que nos faltou neste último ano? Talvez não tenham sido apenas os meios, mas sobretudo a integração: pensar energia, ambiente, território e justiça social como partes de um mesmo todo. A Doutrina Social da Igreja chama a isto “ecologia integral”. Não há soluções técnicas isoladas para problemas que são, no fundo, humanos e relacionais.
Portugal precisa mais do que apenas reação a crises. Precisa de prevenção, de cultura de cuidado e de responsabilidade partilhada. Precisa de políticas públicas coerentes, mas também de comunidades vigilantes e participativas. A subsidiariedade lembra-nos que o Estado não faz tudo, mas também que não pode demitir-se. Cada nível da sociedade tem o seu papel.
No fim, fica uma pergunta incómoda: estamos a aprender com os sinais? Ou limitamo-nos a apagar fogos — reais e metafóricos — até à próxima tragédia?
Se a terra geme, como escreve São Paulo (Rm 8,22), é porque espera redenção. E essa redenção começa nas escolhas concretas do dia de hoje. Não apenas nas decisões dos governantes, mas também no modo como cada um de nós habita, consome, participa e cuida.
Mais do que um ano difícil, foi um ano revelador. E talvez, se soubermos escutar, possa ser também um ano fundador de uma nova responsabilidade, mais humana, mais solidária e mais fiel àquilo que nos é pedido: guardar e cultivar a casa comum.