Al Cook (Alois Koch, nome de baptismo), é cara conhecida dos bas fonds de Viena, capital austríaca. Guitarrista, pianista, cantor e compositor, Al gravou alguns discos e interpretou incontáveis concertos de blues ao longo de décadas, sobretudo em bares da sua cidade. Siderado por Elvis Presley desde os 15 anos — quando viu pela primeira vez o seu ídolo no filme Loving You/Ritmo no Coração — esta figura da cena blues austríaca sonhou toda a vida em visitar Memphis e o rio Mississippi. Mas nunca se afastou do Danúbio. Em Viena, ergueu uma carreira de “rockabilly revival”, sincera e desinteressada.
Foi assim que se apresentou nestas páginas The Loneliest Man in Town, uma das melhores descobertas do último Festival de Berlim e filme a que o IndieLisboa 2026 decidiu dar honras de abertura. Realiza o filme a dupla Tizza Covi e Rainer Frimmel, ela italiana, ele austríaco. Radicados em Viena, estes cineastas têm 25 anos de carreira e tornaram-se especialistas a construir documentários permeáveis à ficção. Privilegiam, acima de tudo, encontros verídicos e pessoas de carne e osso com histórias fora de comum — daquelas que nem o mais imaginoso guionista se lembraria de inventar.
Desta vez, convenceram o amigo de longa data Al, de 80 anos, a tornar-se o centro de um filme numa altura em que o artista enfrenta uma ordem de despejo do apartamento em que nasceu (em 1945) e em que sempre viveu. O prédio foi comprado por uma empresa imobiliária, que o quer demolir. Mas Al resiste — é o último inquilino. Conversámos há dias com a dupla por videochamada, antes da visita de Tizza a Lisboa (Rainer não pode estar presente), esta noite, às 19h, no Cinema São Jorge. A distribuidora No Comboio lançá-lo-á mais tarde nas salas, em data a anunciar.
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Há quanto tempo conhecem Al Cook?
RainerFrimmel (R.F.) — Há muitos anos. É um amigo nosso e um artista de Viena que respeitamos muito porque nunca cedeu a compromissos e foi sempre autêntico
Tizza Covi (T.C.) — The Loneliest Man in Town, no fundo, é um filme que queremos fazer há muito tempo sem nunca termos pensado realmente nisso. É que o Al trabalha muito como nós, fiel às suas regras, com um controlo total sobre o seu trabalho. E é um solitário, nas gravações, nos concertos, das plateias maiores aos espectáculos de café, sempre igual a si próprio.
Há muitos anos que sigo o vosso trabalho e a vossa aproximação ao documentário, mas nunca me esqueci tanto desta palavra como em The Loneliest Man in Town. Este filme trouxe algo de particular ao cinema que têm vindo a fazer?
T.C. — Diria que trouxe algo muito novo porque, pela primeira vez, filmámos com uma pessoa idosa, que vive no seu próprio mundo, ao seu ritmo e que, à partida, nem queria fazer o filme. Tivemos que inventar uma abordagem diferente da que praticamos por hábito, apostar em takes bastante longas e esperar com paciência pelos resultados, com a câmara fixa no tripé.
R.F. — O que, em si, acaba por não ser novo porque, nos nossos filmes anteriores, La Pivellina, Mister Universo ou Vera, foi sempre o cinema que se adaptou às personagens e nunca o contrário. Mas há uma parte afectiva neste filme que também conta. Gostamos de blues por causa do Al Cook. Aprendemos muito com ele sobre este género desde os primórdios e suas variantes, o country blues e o delta blues. Foi ele que nos introduziu a velhas gravações dos anos 20 e 30 do século passado. Por outro lado, tivemos que o convencer a fazer este filme, à nossa maneira, e não àquilo que ele idealizara, que era algo mais próximo do documentário convencional. Persuadimo-lo a abordar a sua história e biografia de uma forma indirecta.
As vossas personagens, de tão diferentes que são, nas idades e nas localizações, têm sempre algo em comum: são pessoas que vivem à margem, não têm propriamente uma relação apaziguada com a realidade que as rodeia. Porque é que tendem a eleger este tipo de pessoas para os vossos filmes?
T.C. — Em parte, a resposta já está na pergunta: nós filmamos pessoas que, em princípio, não deveriam estar no lugar em que estão. O cinema, para nós, é então uma ferramenta que nos permite retirar essas pessoas das margens que ocupam e colocá-las no centro da história. Quando nos sentimos muito ligados a alguém, quando percebemos que esse alguém está disposto a partilhar a sua vida, a sua existência, o filme começa a ganhar forma. No caso do Al, demorámos uns bons dez anos a encontrar uma solução.
R.F. — A familiaridade leva o seu tempo. E precisa de solidificar dos dois lados. Só depois é que o cinema aparece. Fazer um filme é sempre uma questão de confiança.
https://www.youtube.com/watch?v=XJzYIgdzX4Q
Há outra coisa que se nota neste filme em especial, sem desprimor para o resto da vossa obra: o sentido de humor. É uma delícia. Acredito que Al Cook deve ser assim, de facto: melancólico e divertido em simultâneo. Mas até os beras, os maus da fita que o querem despejar do apartamento, nos divertem. Pouco importa se a situação é verdadeira ou falsa. Mesmo sabendo que é verdadeira… Esquecemo-nos disso.
T.C. — Quando o filme passou pela primeira vez, no Festival de Berlim, lemos muitos artigos que chamaram a The Loneliest Man in Town o feel good movie do festival. Fomos apanhados de surpresa! Os nossos filmes não são nada disso. Mas este talvez seja. Isto é: as ambivalências de cada pessoa que filmámos sempre foi algo que decidimos explorar. Mas não há direcção nesse sentido. Eles não estão a fingir que são divertidos. São simplesmente assim. Surpreedem-nos. Acho que é por isso que também continuamos a fazer filmes.
R.F. — Para sublinhar o divertimento, um dos caceteiros que quer forçar Al a abandonar o prédio, o careca, tornou-se entretanto num dos mais afamados advogados de Viena. É muito convincente. Por aí se vê: a realidade não pára de nos dar surpresas.
Outra característica dos vossos heróis: são sempre teimosos. E orgulhosos da sua teimosia. Há aqui uma questão de ética, de alguma forma? Porque a vossa câmara defende-os, com o orgulho que faz parte deles.
T.C. — Mas o Rainer e eu somos iguais: teimosos! Chegámos a um ponto em que já podíamos ter tido acesso a orçamentos mais avultados, até a estrelas do cinema, porque criámos um nome, os festivais gostam de nós, etc. Insistimos em não querer ser maiores. Não nos vamos tornar comerciais. Só fazemos os filmes que queremos, em parte fora do meio artístico, porque somos produtores do nosso trabalho. No fundo, há um espelho muito grande entre nós e as pessoas que filmamos.
R.F. — Quanto à ética, digo que sentimos sempre uma grande responsabilidade em relação aos protagonistas dos nossos filmes. De certa forma, estamos a usá-los. Sabemos disso. Estamos a usar as suas vidas. Mas quando o filme acaba, queremos dar-lhes qualquer coisa de volta. Algo de que se sintam orgulhosos. Como se os filmes, afinal, fossem feitos para eles, antes de qualquer audiência. A sociedade pode tê-los marginalizado mas, nos nossos filmes, é no centro do foco que os colocamos. O business do cinema não nos interessa. O nosso poder é a empatia. O amor e o respeito. Disto, temos que se farta para dar e vender.
Fazem filmes juntos há 25 anos. Como é que dividem o trabalho?
T.C. — Temos isso muito bem definido. O Rainer produz, tenta financiar o filme e encontrar o dinheiro. Eu trato geralmente do guião. Em seguida, realizamos juntos, eu ocupo-me do som, ele da câmara. Estamos sempre juntos no set. Noutra etapa, o Rainer ocupa-se da pós-produção e a montagem costuma ser da minha responsabilidade.
R.F. — A Tizza trata dos elementos mais ficcionais que julgamos necessários para a dramatização, eu fico do lado do documentário. Tentamos que os filmes se equilibrem e revelem estes dois campos.

Por exemplo: foi preciso ensaiar muito com o Al? Ou o que conta para vocês é o efeito-surpresa, o poder da primeira take?
T.C. — Normalmente, queremos a primeira take, mas como o Al foi diferente. Ele estava inseguro. Queria agradar a toda a gente na equipa. É uma pessoa muito generosa. Por isso, tivemos que fazer acertos e esperar pelo momento em que ele se sentia realmente pronto, capaz de fazer bem. Nunca nos tinha acontecido trabalhar com alguém que não era bom à primeira take, mas sim à sétima… Mas nunca fazemos ensaios propriamente ditos. Quer dizer: chegamos lá de outra maneira. Com tempo e conversas.
Têm agora um corpo de trabalho [9 longas-metragens] que fala por si e que é único, sem precisarem de comparações com ninguém. Perdoem-me, portanto, o descuido seguinte: é que Al Cook parece mesmo uma personagem de Aki Kaurismäki. É quase impossível ver o vosso filme sem pensar no realizador finlandês.
T.C. — Não nos incomoda nada o apontamento, antes pelo contrário: adoramos o Aki Kaurismäki. A obra e a pessoa. Mas nunca nos passou pela cabeça fazer “à maneira de…”. Não escrevemos como ele, não iluminamos as cenas como ele. Continuamos a ser neo-realistas, como sempre. É essa a nossa base. O que não impediu de nos dizermos, durante a rodagem, que talvez Aki gostasse das nossas personagens. O Al obrigou-nos, pela sua idade, a trabalhar noutro ritmo.
R.F. — Digamos que o Al Cook é uma personagem de Kaurismäki por natureza.
T.C. — Aki é um dos grandes. Faz parte dos cineastas que seguimos sempre, como Pietro Marcello, Michelangelo Frammartino, ou o vosso João Pedro Rodrigues, de que gostamos muito. Estas pessoas ligam-nos ao cinema contemporâneo. Ligam-nos às salas, porque só vemos filmes no cinema. Não temos televisão.
Como está o Al Cook, a propósito?
T.C. — Está muito contente e orgulhoso, ainda ontem falámos. Disse-lhe que ele “tinha estado” no Uruguai e na Argentina, que em breve seria visto em Lisboa. Virtualmente, está farto de viajar. Na realidade, permanece um vienense típico: não gosta sequer de se afastar do seu bairro, quanto mais da sua cidade.
R.F. — O Al fez, entretanto, 81 anos, mas continua a dar concertos, toca todos os meses no Louisiana Blues Pub. Quem passar por Viena já sabe onde encontrá-lo.
Vêm a Lisboa apresentar o filme?
T.C. — Eu vou. Apenas por 24 horas, infelizmente. O Rainer fica. Estamos quase a arrancar um filme novo, em Roma. E desta vez, o tempo é escasso.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.