Depois de um ano zero que deixou muitas dúvidas em relação ao futuro próximo do novo FC Porto, o verão serviu para a equipa liderada por André Villas-Boas começar a arrumar a casa. Na primeira época, a imagem inicial dos dragões até começou por ser boa, com Vítor Bruno a estrear-se com a vitória épica frente ao Sporting na Supertaça, mas o que se seguiu foi um longo período de instabilidade e de altos e baixos, que terminou no Campeonato do Mundo de Clubes, já com Martín Anselmi. O argentino aguentou cerca de meio ano no cargo, acabando por não resistir à eliminação da fase de grupos do novo formato da competição, já depois de ter terminado o Campeonato em terceiro e de não ter conseguido chegar longe na Liga Europa (caiu no playoff de acesso aos oitavos). Antes, já Bruno tinha sido eliminado na Taça de Portugal (quarta eliminatória) e na Taça da Liga (meias-finais).
Nesse sentido, Villas-Boas teve de refazer o seu projeto desportivo e a época que iria servir de transição antes do hipotético ressurgimento do FC Porto transformou-se num ano de afirmação do novo dragão, com Francesco Farioli a afirmar-se como uma das novas caras dos portistas. Por entre as múltiplas movimentações que aconteceram no mercado de verão, no início da época, destacam-se as contratações de dois experientes polacos que se encontravam na Premier League: Jan Bednarek e Jakub Kiwior. O primeiro foi oficializado a 28 de julho. O segundo chegou à cidade do Porto bem perto do fecho da janela de transferências, a 1 de setembro. Em comum tinham – e têm – a nacionalidade polaco, a experiência no melhor campeonato do mundo (Jan Bednarek fez 184 jogos na Premier League e Kiwior 44) e o facto de se conhecerem praticamente como ninguém.

Terá sido precisamente este último fator que mais agradou aos dirigentes azuis e brancos. Afinal, antes de vestirem a camisola do FC Porto, Bednarek e Kiwior já tinham atuado juntos em 31 jogos da seleção polaca, quase sempre no centro da defesa, numa parceria que começou na Liga das Nações em 2022, atravessou o Mundial-2022, passou pelo Euro-2024 e continuou na qualificação para o Mundial-2026. Curiosamente, foi depois da primeira paragem internacional da época que Farioli testou a dupla polaca, poucos dias depois de ambos terem jogado juntos na receção da Polónia à Finlândia (Kiwior foi lateral). Tudo aconteceu na receção ao Nacional (1-0), numa partida em que Kiwior foi eleito o melhor em campo e que deu início à era azul e branca da dupla polaca, até porque Nehuen Pérez lesionou-se gravemente apenas cinco minutos depois de ter entrado nesse jogo (com Kiwior a ir para a esquerda). Apesar de ambos serem centrais de raiz, tanto Bednarek como Kiwior podem atuar nas laterais, algo que Farioli foi testando – mais por necessidade do que propriamente por “vontade” – ao longo da temporada, essencialmente com o ex-Arsenal.
O início da nova vida de Bednarek, o líder que o centro da defesa precisava
Poucos dias depois de Dominik Prpic ter chegado ao Dragão, o FC Porto continuou à procura de um elemento para o centro da defesa e a “pescar” no leste europeu. Foi assim que Jan Bednarek foi escolhido como o novo reforço, numa altura em que se mantinha como uma figura importante no onze base do Southampton, o polaco não se contentou com a descida ao Championship e preferiu relançar a carreira em Portugal, despedindo-se dos saints oito anos e 254 jogos depois. Bednarek assinou contrato até 2029 e custou 7,5 milhões de euros aos cofres portistas, que adquiriram a totalidade do seu passe. Chegou para ser o novo líder sem braçadeira e para completar o lote de centrais para a nova época, ao lado de Nehuen Pérez, Zé Pedro e Prpic, embora ainda estivessem guardadas mais movimentações para lá das saídas de Iván Marcano e Otávio Ataíde.
“Estou muito entusiasmado por esta nova etapa. Acho que é uma excelente mudança para mim e para a minha família. Venho para um clube incrível, com uma história grandiosa e recheada de momentos fantásticos. É o passo certo para mim e para a minha família e sinto-me ansioso por começar a temporada, ganhar muitos jogos e dar tudo em campo pelo FC Porto. Acho que faz parte de mim tentar sempre ajudar os que me rodeiam. Às vezes pode ser difícil para os outros, mas exijo muito de mim em primeiro lugar, e também dos meus colegas, porque acho que não há tempo a perder. Quero ajudar a que todos aprendam, melhorem e quero evoluir também. É algo natural, não penso nisso, mas espero que possa trazer essa liderança para o FC Porto. O clube tem uma grande história de centrais e vou dar o meu melhor e tentar escrever a minha própria história. Espero que possamos fazer coisas bonitas juntos”, disse o número 5 aquando da sua apresentação.
https://observador.pt/2025/07/28/o-tres-em-um-do-gigante-made-in-premier-league-jan-bednarek-e-o-sexto-reforco-do-fc-porto-em-205-26/
Na história de centrais do FC Porto está, incontornavelmente, o nome de Jorge Costa, malogrado diretor de futebol dos dragões e um dos responsáveis pela contratação de Bednarek. Ao lado do polaco, o então dirigente assegurou que o reforço “ia ajudar muito” o clube, descrevendo-o com um “jogador com muita qualidade, muita raça e liderança”. “Tem 29 anos, mais de 200 jogos em Inglaterra e cerca de 70 jogos pela seleção. É um jogador experiente, de qualidade, e um líder que vai ajudar os nossos jovens a crescer com mais qualidade. Poderia dizer que é necessidade, mas é uma oportunidade e a vontade que temos de acrescentar qualidade e experiência a este plantel. O Jan Bednarek protagoniza o que nós queremos: é um jogador experiente, com muita qualidade e um líder que só nos vai fazer bem”, antecipou.
Mais tarde, já com a época em andamento, Bednarek revelou à UEFA que o seu futuro estava traçado, assumindo que estava “destinado” ao FC Porto. Fora de campo, o polaco revelou a intenção de “aprender a falar português” por “respeito” aos companheiros de equipas. “Estou determinado a fazê-lo pelas pessoas e pelo clube. Já conheço uma palavra muito importante: ganhar. Não tenho medo de cometer erros e essa parte até é importante quando aprendes uma língua nova. Mesmo que às vezes possa dizer alguma palavra mal, a verdade é que estou a tentar quebrar esta barreira linguística dentro da equipa”, acrescentou. De lá para cá, Bednarek esteve em 48 jogos dos dragões — a grande maioria a jogar os 90 minutos (tem uma média de 81 minutos por jogo) —, marcou três golos — dois deles decisivos (Benfica na Taça e na vitória na Choupana) e só falhou três partidas por uma lesão no joelho sofrida em Vila Nova de Famalicão, em novembro, embora também se tenha lesionado no clássico de Alvalade das meias-finais da prova rainha, algo que “apenas” o tirou dessa segunda parte. Entre setembro e dezembro e em fevereiro foi eleito o defesa do mês pela Liga Portugal.
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“Fomos feito um para o outro”: segunda contratação “inglesa” iniciou uma nova dupla
No que respeita aos centrais, a contratação de Jan Bednarek acabou por marcar o fecho do lote de opções de Francesco Farioli e, depois de várias semanas de procura, Jakub Kiwior rumou ao FC Porto no fecho do mercado de transferências. Para trás ficou um percurso de dois anos e meio no Arsenal, onde participou em 68 jogos, mas perdeu espaço depois da chegada de Piero Hincapié. Inicialmente, os dragões pagaram dois milhões de euros aos gunners pelo empréstimo do polaco, mas está praticamente garantida a sua continuidade em definitivo, com o novo campeão português a acionar a cláusula que detinha e que contempla o pagamento de mais 17 milhões por 100% do passe do central. Para além disso, os londrinos têm ainda direito a dois milhões numa potencial futura venda de Kiwior.
A confirmação da continuidade do camisola 4 no FC Porto surgiu na reta final de uma temporada de afirmação, marcada pela construção daquela que viria a ficar conhecida como a “muralha polaca” da Invicta. Foi ao lado de Bednarek, no centro da defesa, que Kiwior encontrou a melhor forma praticamente desde o primeiro dia no novo clube, ainda que, a espaços, tenha sido colocado no lado esquerdo da defesa, fosse por conta dos problemas físicos de Francisco Moura antes do “ressurgimento” de Zaidu, fosse pela chegada de Thiago Silva em janeiro. Curiosamente, a aproximação ao compatriota começou ainda antes de ambos serem companheiros de equipa em Portugal, numa altura em que Kiwior passava por um período “difícil” antes de assinar pelo novo clube. “Falámos muitas vezes desde que soube do interesse do FC Porto e ele está à minha espera na seleção para depois voltarmos juntos para aqui”, contou quando foi apresentado.
https://observador.pt/2025/09/01/as-duas-maos-cheias-de-reforcos-mais-de-100-milhoes-de-investimento-kiwior-apresentado-como-reforco-do-fc-porto/
“Estamos a morar perto um do outro, portanto, fomos feito um para o outro. Passamos muito tempo juntos, seja dentro ou fora de campo. Acho que isso só beneficia a seleção, pois sofremos menos golos quando estamos em campo. Estou feliz porque é a primeira vez que tenho um polaco na equipa”, assumiu Bednarek durante a qualificação para o Mundial. Já Kiwior falou, na mesma ocasião, de uma ligação praticamente telepática com o companheiro: “Às vezes, basta um olhar ou uma palavra e já sabemos do que se trata. Durante os jogos conversamos em polaco na maioria das vezes. Quando há mais jogadores envolvidos, passamos para o inglês”. Volvidos oito meses, é considerado pela opinião pública um dos principais jogadores deste 31.º título azul e branco.
“Transferência? Em termos de Liga, pode parecer um passo atrás, mas em termos de clube não foi. No FC Porto tenho o que me faltava em Londres, ou seja, jogo regularmente. Sinto-me muito bem aqui. No caso do FC Porto, não havia muito para analisar. Toda a gente que se interessa por futebol sabe que este clube é grande. A última conversa com o [Mikel] Arteta não foi difícil. Na altura já sabíamos que eu iria para o FC Porto por empréstimo. O treinador salientou a importância do clube e desejou-me boa sorte. Mais difícil foi a conversa anterior, em que pedi para ser emprestado. Nunca fiz isso antes, mas senti que era o momento de falar com ele a sós. Apoiou-me. Farioli? O treinador teve várias conversas individuais comigo, em que explicou os detalhes e analisou o [seu] jogo. Tive logo a oportunidade de entrar na equipa. Foi um sinal muito positivo para mim. Joguei logo desde o início”, disse Kiwior em entrevista ao site Laczy nas Pilka.
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O “Quaresma polaco” que veio dar uma nova vida ao ataque dos dragões
Como não há duas sem três, Oskar Pietuszewski foi o terceiro polaco a ingressar no FC Porto no decorrer desta época. Aquele que se esperava um mero movimento de antecipação, já que os dragões decidiram antecipar-se a outros gigantes europeus para contratarem uma das maiores promessas do futebol polaco, depressa se transformou numa jogada de mestre, capaz de reverter a tendência de queda do dragão que se vislumbrou na segunda metade da temporada. Aos 17 anos, Pietuszewski passou, em muito pouco tempo, de uma espécie de terceira linha nas opções de Francesco Farioli – nem sequer foi inscrito na fase a eliminar da Liga Europa –, para titular absoluto no onze do italiano, ultrapassando Borja Sainz e William Gomes. Os portistas pagaram oito milhões de euros ao Jagiellonia Bialystok, que tem ainda direito a 10% de mais valias futuras e a dois milhões em variáveis, e ofereceram-lhe um contrato válido até 2029, com uma cláusula de rescisão de 60 milhões.
https://observador.pt/2026/02/27/so-precisou-de-13-segundos-para-fazer-historia-oskar-pietuszewski-e-o-golo-mais-rapido-de-sempre-no-dragao/
“A primeira coisa que penso é que estou num grande clube, com uma grande história, grandes adeptos e a primeira impressão é claramente muito positiva. Falei muito com o Jan [Bednarek] e ele disse-me muitas coisas boas sobre o clube e esse foi um dos principais motivos para vir para aqui. Polacos? Sim, isso ajudou-me a tomar a decisão e a ser mais confiante à chegada. O mais importante é ter muitos minutos e conquistar troféus. Assinei pelo FC Porto para ganhar títulos e vou lutar e dar tudo para ganhar todas as provas que disputarmos. Sou um jogador que não tem medo dentro do campo e quando tenho a bola estou sempre pronto para partir para cima dos adversários. Espero transmitir ótimas energias e muita felicidade aos adeptos”, caracterizou o jovem polaco que, segundo o seu agente, esteve muito perto de assinar por Atl. Madrid e Betis. Ainda assim, os emblemas espanhóis queriam que Pietuszewski acabasse a época na Polónia, algo que acabou por lhe agradar.
Por outro lado, os defesas polacos foram determinantes na sua contratação, com o extremo a revelar inclusivamente que Bednarek é como um segundo pai. Em sentido inverso, os companheiros apelidam-no de “Quaresma polaco” e esperam protegê-lo por conta da sua idade. “Vou ser sempre o primeiro a ‘puxar-lhe as orelhas’ para que continue a evoluir. Ele é mesmo assim: corajoso e determinado. O que vejo no FC Porto, também vi aqui [na seleção]. Há tanto alarido e elogios à volta dele que, sendo mais velho, tenho de serená-lo um pouco. Quero que ele tenha paz. Em breve vão começar a perguntar-lhe o que come ao pequeno-almoço. É normal, porque ele é um grande talento. Quem o rodeia é crucial, porque estar a fazer este trabalho aos 17 anos é algo grandioso. Sinto que pode alcançar grandes coisas, pode ser um jogador incrível. Mas calma, ainda tem muito caminho a percorrer”, afirmou Bednarek citado pela imprensa polaca.
Assinou a 7 de janeiro, estreou-se no banco uma semana depois, no clássico frente ao Benfica da Taça de Portugal e, no dia 18 do mesmo mês, já estava a vestir a camisola portista e a ser determinante. Tudo aconteceu na sempre difícil visita a Guimarães. Pietuszewski saiu do banco aos 73 minutos, numa altura em que o nulo teimava em persistir. O polaco mexeu de tal forma com o jogo em apenas dez minutos, que acabou por ser decisivo ao conquistar a grande penalidade, cobrada por Alan Varela, que deu a vitória ao FC Porto. A titularidade apareceu no mês seguinte, assim como os recordes: tem o golo mais rápido da história do Dragão (13 segundos); é o estrangeiro mais novo a marcar pelos dragões; é o mais jovem portista a marcar ao Benfica; e é o estrangeiro mais novo sempre a ser titular pelo FC Porto. Na retina fica, precisamente, o golo apontado ao Benfica na Luz, em que correu mais de 40 metros com a bola na sua posse e “sentou” Nico Otamendi antes de faturar.
O impacto nos dragões acabou por transcender as fronteiras do nosso país e chegou muito rapidamente à Polónia, o que levou Jan Urban, selecionador polaco, a ser frequentemente questionado sobre a convocatória do extremo. O que é certo é que, com idade de júnior, Oskar Pietuszewski deu o salto dos Sub-21 para a seleção principal do seu país em março, estreando-se na meia-final do playoff de acesso ao Mundial, tendo sido lançado ao intervalo frente à Albânia (casa, 2-1). Cinco dias depois, o portista colecionou mais meia-hora frente à Suécia, num jogo que acabou por ditar a eliminação do seu país (fora, 2-3). Agora, o trio polaco segue caminho em direção aos Aliados.