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(A) :: "Fui um tolo ao financiar a OpenAI". Terceiro dia de julgamento marcado pelo confronto entre Musk e o advogado da criadora do ChatGPT

"Fui um tolo ao financiar a OpenAI". Terceiro dia de julgamento marcado pelo confronto entre Musk e o advogado da criadora do ChatGPT

No 3º dia de julgamento, Musk diz-se arrependido por ter financiado empresa que se desviou da missão. Acusação entrou em confronto e mostrou que magnata sempre soube (e promoveu) caminho que contesta.

Manuel Nobre Monteiro
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O terceiro dia do julgamento do caso que opõe Elon Musk a Sam Altman, CEO da OpenAI, ficou marcado por um confronto direto entre o magnata e o advogado da empresa, William Savitt. Em tribunal, o dono da Tesla e do X admitiu, ainda, que pode ter sido “um tolo” ao financiar a organização que agora acusa de ter traído a sua missão sem fins lucrativos.

Depois de um segundo dia dominado pelas declarações iniciais de Musk, nas quais acusa Altman de trair os objetivos iniciais da empresa e de colocar a Humanidade em risco através de fraude corporativa, Savitt entrou na sala com um conjunto de perguntas sustentadas por e-mails, mensagens e documentos internos, procurando demonstrar que o dono da Tesla sempre esteve a par das discussões sobre a eventual transformação da OpenAI numa entidade com fins lucrativos.

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Musk tentou fugir às respostas, levando a juíza Yvonne Gonzalez Rogers a intervir várias vezes, exigindo respostas de “sim ou não“. O milionário chegou a acusar Savitt de formular perguntas enganadoras propositadamente. “As suas perguntas não são simples. Na verdade, foram feitas para me induzir em erro”, disse.

Ao longo da sessão desta quarta-feira, Savitt tentou desmontar a narrativa central de Musk: a de que a OpenAI traiu o compromisso de desenvolver inteligência artificial para benefício da Humanidade, sem fins lucrativos. O advogado da empresa apresentou trocas de e-mails que sugerem que o próprio Musk ponderou, em vários momentos, a criação de uma estrutura que daria lucro. Num desses documentos, Musk terá escrito que a criação de uma organização exclusivamente sem fins lucrativos poderia ter sido “um erro”.

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Outro episódio explorado em tribunal foi o de uma reunião informal realizada em São Francisco, nos Estados Unidos, na qual Musk terá sugerido a transição da empresa para um modelo lucrativo. Confrontado com estes registos, o magnata respondeu: “Não acho que criar de uma entidade com fins lucrativos como complemento de uma sem fins lucrativos seja quebrar uma promessa“.

Do investimento ao arrependimento: Musk critica rumo da OpenAI

Questionado sobre o financiamento inicial, Musk reconheceu que contribuiu com cerca de 38 milhões de dólares (cerca de 32 milhões de euros), um valor que a defesa da OpenAI descreve como uma doação fiscalmente dedutível e não como um investimento com direitos associados. Perante o tribunal, o magnata não escondeu o desagrado: “Fui um tolo“, disse, acrescentando que este montante acabou por ajudar a criar uma empresa avaliada em centenas de milhares de milhões de dólares.

Ainda assim, Musk insistiu que o seu contributo foi muito além do dinheiro. “Sem mim, a OpenAI não existiria“, afirmou, elevando o tom de voz. Disse ter contribuído com reputação, talento e até com a escolha do nome da empresa, elementos que, na sua perspetiva, têm um grande valor.

O arrependimento surge logo depois, ligado a um ponto de rutura específico: o investimento de 10 mil milhões de dólares (8,5 mil milhões de euros) da Microsoft na OpenAI, em 2022. Musk descreveu esse momento como um “ponto de viragem“, que o levou a perder a confiança em Altman. “Não fazia sentido que fosse uma doação”, afirmou, sublinhando que enviou uma mensagem ao então aliado a questionar o que se estava a passar e acusando-o de um “bait and switch” (uma mudança de regras a meio do jogo, em tradução livre).

Segundo Musk, foi nessa altura que concluiu que a OpenAI estava a desviar-se da sua missão original e a transformar-se numa entidade orientada para o lucro. “Eles não podem ter tudo“, disse, acrescentando: “Não podem beneficiar da imagem de uma organização sem fins lucrativos e, ao mesmo tempo, enriquecer com isso”.

A defesa da OpenAI rejeitou esta leitura, classificando as acusações como motivadas por inveja e lembrando que Musk saiu da organização em 2018 após uma “tentativa falhada de assumir o controlo“. Em tribunal, Savitt procurou reforçar a ideia, sugerindo que o magnata nunca esteve verdadeiramente comprometido com o modelo sem fins lucrativos.

“Nunca esteve realmente empenhado em que a OpenAI fosse uma organização sem fins lucrativos, pois não?”, perguntou Savitt, ao qual Musk respondeu: “Não. O que está a dizer é falso“.

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Tesla no centro das tensões com a OpenAI

Outro ponto central da sessão desta quarta feira em Oakland, na Califórnia, foi a relação entre a OpenAI e a Tesla. Savitt acusou o milionário de recrutar ativamente talento para a sua empresa automóvel (incluindo o engenheiro Andrej Karpathy) enquanto fazia parte do conselho da OpenAI. Um email de 2017 foi apresentado como prova, no qual Musk reconhecia que os colegas da OpenAI “iam querer matá-lo” por causa dessa decisão.

Também a ambição de Musk no campo da inteligência artificial foi colocada sob escrutínio pela defesa da OpenAI. Vários documentos mostram os planos para criar um “exército de robôs com inteligência artificial”, uma ideia que o próprio justificou em tribunal com preocupações de segurança: “Se construirmos robôs, temos de garantir que não criamos uma situação tipo Terminator“, disse.

Ainda assim, Musk manteve a posição de que empresas com fins lucrativos no setor da IA representam um risco, incluindo a sua própria xAI, que descreveu como ainda pequena face à criada do ChatGPT.

Fora da sala de audiências, o julgamento continuou, de resto, a atrair atenções. A presença de Musk levou a muitos jornalistas enchessem a rua com filas desde a madrugada para garantir lugar. Espera-se que nesta quinta-feira o magnata volte à sala de audiências para continuar a ser ouvido.