O negócio foi fechado há quase um ano e, agora, está concretizado. A compra do Novo Banco pelos franceses do BPCE, acordada em junho e assinada em outubro, foi concluída nesta quinta-feira, dias depois da autorização do BCE noticiada pelo Observador. O valor final da venda foi 200 milhões maior do que o previsto, cerca de 6.700 milhões de euros. Destes, o Estado recebe 1.673 milhões de euros. O Lone Star, que tinha pago mil milhões por 75% do banco, vende por cerca de cinco mil milhões.
“Nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 29.º-Q, n.º 3 do Código dos Valores Mobiliários e do artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 596/2014 do Parlamento Europeu e do Conselho, e na sequência do anúncio efetuado a 13 de Junho de 2025, o Novo Banco, S.A. informa sobre a conclusão, com sucesso, da transação através da qual o BPCE SA adquiriu a totalidade das ações representativas do capital social do Novo Banco, após o cumprimento de todas as condições precedentes e a obtenção das necessárias aprovações regulamentares”, indica o banco em comunicado.
A venda foi inicalmente avaliada em 6,4 mil milhões mas o banco explica que “de acordo com o definido no Memorando de Entendimento de junho de 2025 e nos subsequentes acordos de aquisição assinados em agosto e outubro de 2025, o preço final de aquisição a 31 de dezembro de 2025 foi fixado em 6,5 mil milhões de euros, com base no resultado líquido de 2025 de 828 milhões de euros, o que corresponde a um múltiplo dos lucros de 2025 de 7,85x”.
Assim, “com o aumento do capital próprio do Novo Banco, decorrente da atividade dos primeiros quatro meses de 2026, a 30 de abril de 2026, o preço de aquisição totalizou 6,7 mil milhões“, esclarece a instituição.
https://observador.pt/especiais/franceses-batem-espanhois-na-corrida-ao-novo-banco-ao-pagar-64-mil-milhoes-sem-despedimentos-o-negocio-milionario-do-bpce/
O banco diz que “esta transação marca a conclusão, com sucesso, do processo de transformação plurianual do Novo Banco, apoiado pelos seus acionistas, colaboradores, clientes e restantes stakeholders relevantes, que resultou numa melhoria significativa do seu perfil financeiro, uma posição de capital robusta e um nível sustentável de rentabilidade, em linha com os bancos mais rentáveis da Europa”.
Ministério das Finanças “congratula-se”. Estado recebe 1.673 milhões de euros
Também em comunicado, emitido em simultâneo, o Ministério das Finanças indica que o Estado e o Fundo de Resolução vão, no seu conjunto, receber 1.673 milhões de euros com esta operação.
O Estado Português congratula-se com a conclusão da operação de venda do Novo Banco ao segundo maior grupo bancário francês, o BPCE – Banque Populaire et Caisse d’Epargne, tendo ocorrido hoje a última fase do processo, relativa ao pagamento e à respetiva transferência das ações”.
O comunicado acrescenta que “nos termos do acordado no Memorando de Entendimento, de junho de 2025, e no subsequente Acordo de Adesão ao contrato de venda do Novo Banco, em outubro de 2025, o preço final de aquisição, a 31 de dezembro de 2025,foi fixado em 6,5 mil milhões de euros, o que implica um rácio price-to-earnings de 7,85 com base no resultado líquido de 828 milhões de euros, de 2025″.
Tal como o Novo Banco, o Ministério das Finanças explica que “com o aumento do capital próprio do Novo Banco, durante os primeiros quatro meses de 2026, o preço total de aquisição ascende a 6,7 mil milhões de euros, a 30 de abril de 2026”.
Considerando que o Estado Português e o Fundo de Resolução (FdR) detêm 25% do capital do Novo banco, tal operação implicará um encaixe financeiro de 1.673 milhões de euros
(906 milhões para o FdR e 766 milhões para ETF) para o Estado.
Lone Star diz que teve um investimento “bem sucedido” no banco
Noutro comunicado emitido ao mesmo tempo, o fundo norte-americano Lone Star, que tinha 75% do banco, manifesta a satisfação com o investimento “bem sucedido” na instituição financeira portuguesa. O Lone Star pagou mil milhões por 75% e agora vende a mesma posição por mais de cinco mil milhões, tendo beneficiado de uma espécie de garantia pública de mais de três mil milhões de euros, através do Fundo de Resolução, para fazer a “limpeza” do balanço do banco após a compra dos 75%.
DonaldQuintin, CEO da LoneStarFunds, afirma que “esta transação representa o culminar bem sucedido do nosso investimento no Novo Banco, uma parceria plurianual que reposicionou o banco através de investimentos e de uma estratégia de criação de valor direcionada”.
“Estamos orgulhosos da transformação alcançada em conjunto com a excelente equipa de gestão do Novo Banco e acreditamos que o BPCE é o proprietário ideal a longo prazo para apoiar o crescimento contínuo do banco e a sua prestação de serviços à economia portuguesa”, termina o comunicado.
Banco de Portugal, que gere o Fundo de Resolução, diz que “foram cumpridos os objetivos”
O Banco de Portugal afirma, no seu próprio comunicado, que “a conclusão da venda ao Grupo BPCE e a integração do Novo Banco num grupo bancário europeu de referência, bem como a evolução positiva do sistema bancário português na última década — hoje mais capitalizado, mais resiliente, mais valorizado e atrativo para investidores credíveis — confirmam que foram cumpridos os objetivos do Banco de Portugal na defesa do interesse público”.
O comunicado recupera “o processo iniciado, em agosto de 2014, com a aplicação da medida de resolução ao Banco Espírito Santo (BES) e a criação do Novo Banco como banco de transição”.
Ao longo desse processo, as decisões do Banco de Portugal, como autoridade nacional de resolução, tiveram como objetivos centrais a salvaguarda da estabilidade financeira, a continuidade das funções prestadas à economia nacional, antes pelo BES e depois pelo Novo Banco, a proteção dos depositantes e a preservação do financiamento da economia nacional, limitando, tanto quanto possível, o impacto da falência do BES para o erário público”, afirma o Banco de Portugal.
O Banco de Portugal acrescenta que “a criação do Novo Banco evitou a liquidação desordenada do BES e a reestruturação subsequente permitiu restaurar a viabilidade da instituição e reforçar a sua solidez financeira”. “O Novo Banco pôde, assim, continuar a desempenhar o seu importante papel no financiamento da economia nacional, na captação e guarda de poupanças e na prestação de serviços de pagamento”, acrescenta-se.
Além disso, remata o comunicado, “diversas decisões judiciais têm confirmado, ao longo dos anos, a legalidade, a proporcionalidade e a solidez das decisões tomadas pelo Banco de Portugal no contexto da resolução do BES e do processo de reestruturação do Novo Banco”.
Presidente do BPCE diz que investimento “reforça compromisso de longo prazo com Portugal”
Noutro comunicado, emitido pelo Novo Banco, o presidente do BPCE, Nicolas Namias, diz que o grupo comprador está “satisfeito e orgulhoso por dar as boas-vindas ao Novo Banco no BPCE e por reforçar o compromisso de longo prazo com Portugal“.
Após a aquisição do BPCE Equipment Solutions em 2025, estamos a demonstrar a nossa capacidade para realizar grandes transações de crescimento que reforçam a nossa presença na Europa, em linha com o nosso projeto estratégico Visão 2030. Gostaria de expressar o meu sincero agradecimento às equipas do BPCE e do Novo Banco pelo seu notável compromisso nos últimos meses, bem como às autoridades portuguesas pela confiança depositada em nós ao longo deste processo, tendo sido concluído dentro do prazo previsto”, pode ler-se no comunicado.
O comunicado acrescenta que “o Novo Banco é um banco de elevado desempenho, profundamente enraizado em Portugal, amplamente reconhecido e valorizado por famílias, PMEs e grandes empresas do país”. “O seu posicionamento no centro da economia real é comparável ao dos Banques Populaires e Caisses d’Epargne em França, assente em valores estreitamente alinhados com os do nosso modelo cooperativo: o foco no cliente, um modelo modelo relacional de proximidade e um forte compromisso com as comunidades e com o financiamento da economia real“, acrescenta o grupo comprador.
Nicolas Namias assegura que a “ambição” do BPCE é “apoiar o desenvolvimento do Novo Banco, mobilizando toda a experiência do BPCE para servir os seus clientes”. “Juntos, aprofundaremos o nosso apoio à economia portuguesa, reconhecida pelo seu dinamismo, e criaremos valor sustentável para os nossos clientes, colaboradores e acionistas cooperativos”, afirma, rematando que “esta transação é uma excelente notícia para o Novo Banco, para o BPCE e para a soberania económica e financeira da Europa”.
O comunicado acrescenta que o Novo Banco “continuará a operar como um banco gerido localmente, firmemente ancorado em Portugal”. “Como parte da sua nova estrutura acionista, o Novo Banco continuará totalmente responsável pela implementação da estratégia definida com o BPCE, dentro do quadro e sob a supervisão do seu novo acionista”, afirma-se.
Três novos membros propostos pelo BPCE irão juntar-se ao Conselho Geral e de Supervisão do Novo Banco, substituindo os anteriormente membros nomeados pelo Fundo Lone Star e Mark Bourke irá continuar como CEO e irá reportar a Jacques Beyssade, Secretário-Geral e membro do Senior Management Committee do BPCE.
“A equipa que preparou a integração do Novo Banco no BPCE irá agora concentrar- se na implementação operacional do plano de integração, e será liderada por Olivier Delay, anterior CEO da Natixis CIB Américas”, conclui o comunicado.