A obesidade influencia a saúde mental? E é influenciada por ela? Oito perguntas sobre estigma, ansiedade, depressão e excesso de peso
Dores, limitações físicas e dificuldades de gerir atividades do dia a dia agravam o sofrimento emocional. E a imagem ao espelho também. Quando é que se deve envolver um profissional de saúde mental?
1 A obesidade é influenciada por questões emocionais? Ou é mais comum acontecer o contrário?
Ambos se influenciam. Se a dada altura, a comida é assimilada como alívio e regulador de emoções de alta intensidade, poderá iniciar-se um ciclo de reforço positivo que, com o desenvolvimento da personalidade, se transforma num recurso para gerir momentos mais difíceis. “Esta dinâmica interna não é consciente e é difícil de reverter, dado ter sido eficaz”, diz a pedopsiquiatra Margarida Leão, que acompanha jovens com perturbações de comportamento alimentar. Frequentemente, eventos de trauma e experiências difíceis impedem a pessoa de pedir ajuda, aumentando o nível de ansiedade, o que potencia este ciclo.
“A regulação emocional associada à comida, não sendo causa única, muitas vezes constrói-se na história da pessoa, como uma peça que mantém o problema. O stress, a ansiedade associada ao desempenho, assim como a pressão de gestão de responsabilidades na vida adulta ajudam a amplificar a doença, porque alteram o centro de saciedade e potenciam o apetite por alimentos mais calóricos”, diz a especialista.
“O processo de dor, limitação física e dificuldade na gestão de atividades de vida diária são difíceis de gerir e afetam a saúde mental”, realça a psiquiatra, acrescentando que “este condicionamento vai além do temperamento e história de vida, uma vez que altera de forma decisiva a liberdade do paciente.” Ignorar a doença e as suas consequências pode ser uma estratégia de lidar e gerir a pressão emocional a curto prazo, mas que terá consequências a médio e longo prazo.
2 Especificando ainda mais: a baixa autoestima pode ser uma causa ou uma consequência?
Nem todas as pessoas com obesidade têm baixa autoestima e nem todas as que têm baixa autoestima serão obrigatoriamente obesas. Contudo, refere Margarida Leão, “é muito frequente que alguém que sofre com obesidade ‘esconda’ o seu sofrimento mental”.
Por um lado, a baixa autoestima promove a alimentação emocional, diminui a motivação para o autocuidado (alimentação, exercício, sono) e tem por base a presença de padrões de autossabotagem (“não vale a pena tentar”). Por outro lado, a obesidade pode afetar a autoestima devido a estigma social, experiências de rejeição ou bullying e a questões mais internas, nomeadamente a insatisfação com a imagem corporal. E a baixa autoestima pode promover a instalação de hábitos pouco saudáveis que, por sua vez, promovem o aumento de peso, que agrava o autoconceito e perpetua esse movimento.
3 E a depressão pode ser influenciada pela obesidade? Qual a relação entre ambas?
É uma relação complexa. A obesidade pode ter um impacto negativo na imagem, no autoconceito, e tornar-se um fator de risco acrescido para um episódio depressivo. Além disso, as alterações inflamatórias e hormonais têm uma influência negativa na regulação do humor, assim como na qualidade de vida, em limitações físicas que condicionam o acesso a atividades de lazer. No seu conjunto, estes aspetos aumentam o risco de um quadro depressivo.
“Se partirmos da depressão, sabemos que as alterações na neuroquímica cerebral (como a alteração dos níveis de cortisol) podem alterar a regulação do centro de saciedade e potenciar a vontade de comer alimentos mais calóricos”, diz Margarida Leão. Em alguns casos, os medicamentos para a depressão podem desregular o apetite e essa situação deve ser abordada entre o médico e o paciente, de modo a ser estabelecido um plano que proporcione o tratamento do quadro depressivo e se avance para uma abordagem saudável a um eventual ganho de peso.
“Não tratar a depressão agravará todos os fatores psicológicos que bloqueiam o sucesso de um tratamento eficaz da obesidade”, alerta a psiquiatra.
4 Uma perturbação mental pode explicar a obesidade?
Pode contribuir de forma significativa, sim, mas não é o único fator. A depressão, por exemplo, pode aumentar o apetite, reduzir a energia e a motivação. A ansiedade pode aumentar significativamente a ingestão de alimentos como mecanismo de regulação emocional. A insónia pode ter impacto nos circuitos de regulação da fome e saciedade.
A perturbação de ingestão alimentar compulsiva é um quadro mais complexo, em que o paciente tem o impulso de comer excessivamente, sem capacidade de autocontrolo, estando associada a mecanismos de culpa mais complicados de gerir. O trauma psicológico pode influenciar negativamente a relação com a comida e com o corpo.
São quadros psiquiátricos que implicam a gestão clínica por um profissional diferenciado em saúde mental. “O adiamento na procura de cuidados agrava o quadro mental de base e o quadro alimentar secundariamente. Um tratamento alinhado e complementar (especialista em saúde mental e especialista em obesidade) permite o tratamento seguro e atempado do quadro psiquiátrico, assim como a gestão do risco e tratamento da obesidade.”
5 O impacto é diferente numa criança, adolescente ou adulto?
Sim. Uma criança e um adolescente não têm ainda desenvolvidas as mesmas ferramentas internas que um adulto. A criança pode ser olhada de forma negativa por um problema que não conhece e que não controla. E sem apoio pode assumir que a responsabilidade é sua e sentir-se progressivamente menos válida e capaz.
A criança tornar-se-á um adolescente, que terá de enfrentar as alterações de puberdade que lhe mudam o corpo e este desafio pode levar a movimentos extremados de culpa, vergonha e zanga e a alterações extremas do padrão alimentar e relação com o corpo. O adulto que daí advém poderá ter cicatrizes de dor emocional que talvez não tenham sido vistas, escutadas ou suportadas por alguém.
6 Qual a importância de um psicólogo ou psiquiatra no tratamento da obesidade?
Desde logo, é fundamental identificar fatores de agravamento e manutenção da obesidade nas quais a doença mental tem destaque. Neste caso, a triagem por um psiquiatra é prioritária. Porém, mesmo quando não exista doença mental associada, a terapia de suporte ao doente e família, realizada quer por um psiquiatra ou por um psicólogo clínico, é necessária uma abordagem de autoconhecimento e capacidade de gestão da doença.
7 Qual é a abordagem recomendada?
Na presença de excesso de peso ou obesidade, a primeira abordagem deverá ser realizada por um médico especialista na área, para que sejam avaliados os riscos e plano de tratamento. Após esta avaliação inicial poderá ser recomendada a intervenção psicoterapêutica com o paciente e família, assim como a avaliação por um médico psiquiatra. Deste modo, a observação integrada e multidisciplinar permitirá o desenho de um plano de intervenção eficaz e individualizado.
8 Que cuidados devem ter as pessoas mais próximas?
Há detalhes e formas de estar e atuar a ter em consideração. A família e pessoas mais próximas não devem tratar uma doença reconhecida como algo que não merece atenção e cuidado diferenciado. Não devem julgar antes de ter o conhecimento suficiente sobre a especificidade de quem sofre. A partilha emocional, o tempo de qualidade em conjunto, proporcionar momentos de lazer e ócio, são muito importantes.
Margarida Leão recomenda que o doente não deve tentar fazer sozinho um caminho que deve ser trilhado em conjunto, com as pessoas à volta, com o apoio adequado. “O melhor tratamento é aquele que oferece suporte, conhecimento e estratégias medicamente validadas ao paciente e à família.”