Houve águas mil em abril? Tenho impressão que não – mas houve uma porrada de discos que nos chamaram a atenção. Infelizmente, não podemos dar o mesmo tempo a todos e agora vemo-nos naquela danada situação de irmos vasculhar o que foi sendo lançado ao longo do mês à procura de matéria sobre a qual não falámos.
Felizmente, e para bem de todos nós, descobrimos um pouco de tudo: math-rock que se tornou inexplicavelmente popular, country orquestral ou eletrónica ambiental cheia de emoções, mesmo que vinda de uma galáxia ou tempo distantes. Ide ler a peça inteira, que é para isso que me pagam, para vós lerdes.
“Wendy Eisenberg”
Wendy Eisenberg
Podíamos resumir Wendy Eisenberg, o disco, a uma expressão (“country orquestral”), desde que acrescentássemos que o álbum nunca se permite ser confortável ou fofinho. Não é “Eisenberg a fazer folk”; é Eisenberg a pegar nas variadas formas de folk e country dos anos 70 deixadas por aí e a mexer nelas por dentro. Take A Number, a abertura, deixa isso claro: fingerpicking quase clássico, voz íntima, e depois entram as cordas, não para embelezar, mas para desalinhar ligeiramente a canção.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/461pbwQf3k7oOQ43DZjzf5?si=TK2JgIL_RpqgEft6z_WxNg
Parece tradicional durante uns segundos e depois desvia-se para um caminho só seu. Meaning Business é quase folk barroca, Another Lifetime Floats Away, é o centro no disco: memória, infância, cenas domésticas que aparecem e desaparecem coalescem numa das músicas mais diretas emocionalmente do álbum. Eisenberg pega numa linguagem antiga e usa-a como se estivesse a inventá-la. Parece acessível, mas não é simples. Parece tradicional, mas nunca é nostálgico. E deixa espaço para a emoção direta sem perder a estranheza.
“Blue Angel Sparkling Silver 2”
Quiet Light
Sparkling Silver 2 parece existir fora do tempo, fora do nosso mundo, como se por acaso tivéssemos sintonizado uma estação de rádio perdida algures entre os anos 80 e um cometa cuja órbita nunca chegou próximo da Terra. Quiet Light é assinatura de quem trabalha com texturas eletrónicas suaves, vozes filtradas e ritmos que raramente se impõem, preferindo insinuar-se. O resultado é uma espécie de dream pop digital, onde tudo soa ligeiramente desfocado e deslocado – reconhecemos estes sons mas não sabemos exatamente de onde – são como polaroids de outra época que ficaram demasiado tempo ao sol e perderam a cor original.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/6jWka3XgiDpdNIuo04NMor?si=pYQB13nSRTGP6kVvkfrjhQ
As canções movem-se em ciclos, recusando o clímax fácil, criando uma sensação de suspensão constante. Há ecos de synth-pop, mas também uma melancolia contemporânea que impede qualquer leitura nostálgica. Este não é um disco de hits, nem pretende sê-lo – é um espaço, um ambiente onde se entra e se permanece, seduzidos pela estranheza. Sparkling Silver 2 funciona melhor quando ouvido como um todo, como uma deriva lenta através de luzes artificiais e emoções filtradas – até concluirmos que deve ser um primo perdido da obra dos Broadcast.
“Vol. II”
Angine de Poitrine
E de repente está tudo a falar da mesma coisa e quase apetece dizer mal só para chatear a manada. E aqui tenho de tirar-lhes o meu chapéu, porque não consigo minimamente perceber como é que Vol. II de Angine de Poitrine se tornou um disco popular. Esta música, que na raiz, é math-rock, aprofunda uma estética que vive do desconforto, da dissonância, de ritmos pouco óbvios. As vozes surgem distorcidas, os ritmos parecem quebrar antes de se afirmarem, e as estruturas raramente seguem um percurso previsível.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/3FqqIeynZXFBcyLS9FlWMo?si=Vjl-NmaKStWtO09JBvvucA
Ao contrário de muitos projetos experimentais, há uma intenção muito clara por trás do caos aparente: cada ruído, cada interrupção, parece colocado com precisão. Vol. II não oferece respostas nem momentos de catarse; oferece, isso sim, um espaço onde a ansiedade e a tensão podem existir sem resolução. É um disco exigente, por vezes árido, mas que ganha força precisamente por essa recusa em facilitar. Num panorama onde a experimentação muitas vezes se torna fórmula, Angine de Poitrine mantém-se imprevisível. Que isto se tenha tornado popular ainda me parece impossível.
“Pompeii // Utility”
Earl Sweatshirt / MIKE / Surf Gang
Quando três nomes como Earl Sweatshirt, MIKE e Surf Gang se juntam, espera-se densidade, e Pompeii // Utility não desilude. Este não é um disco de rap no sentido tradicional; é antes um exercício de atmosferas, onde as palavras surgem como fragmentos de pensamento sobre batidas minimalistas e texturas lo-fi. Earl mantém a sua escrita elíptica, cheia de imagens que parecem escapar no momento em que começam a fazer sentido, enquanto MIKE acrescenta uma cadência mais introspetiva, quase meditativa.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/3RoyVaZOzBSTfo6jm4dvSR?si=714e29f9b9014b68
A produção da Surf Gang é o elemento que une tudo: beats reduzidos ao essencial, samples fantasmáticos, espaços vazios que dizem tanto como os versos. Há uma sensação constante de inacabado, não por falta de ideia, mas por escolha estética. Pompeii // Utility exige escuta atenta e recusa a gratificação imediata, mas recompensa quem aceita o seu ritmo lento e contemplativo.
“Under My Umbrella”
Miss Grit
Miss Grit move-se num território onde o indie rock se cruza com a eletrónica e a introspeção digital. Under My Umbrella é um disco que parece constantemente dividido entre a exposição e a contenção: há momentos de intensidade emocional que são imediatamente travados por arranjos frios, quase mecânicos. As guitarras surgem processadas, os ritmos são precisos, e a voz, muitas vezes distante, funciona como um ponto de equilíbrio entre humano e artificial.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/6I3jAD916rESCOEmqmtzTx?si=9ECMv0SnQWeWrQsGtm-9cA
Liricamente, o disco explora identidade, isolamento e a dificuldade de comunicação num mundo hiperconectado, mas evita o dramatismo fácil. Há uma contenção que torna tudo mais interessante: em vez de explosões, acumulação. Musicalmente, Miss Grit demonstra um controlo notável, criando canções que são simultaneamente acessíveis e estranhas. Under My Umbrella não é um disco que se imponha de imediato, mas cresce com o tempo, revelando camadas que só aparecem numa escuta mais atenta.