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Sem o PS

Moralizar alianças é o último recurso de quem já não consegue disputar o governo. Quando governar sem o PS passa de improvável para indevido, o problema já não é partidário. É do regime.

Margarida Bentes Penedo
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Terça-feira, 28 de Abril, Assembleia Municipal de Lisboa. “Repensar a governação de Lisboa: das controvérsias às soluções” – debate imposto pelo Livre para acusar Carlos Moedas de governar com o Chega. As esquerdas existem na autarquia de Lisboa graças a uma aliança de décadas com o PS, actualmente eleitas numa lista única – à excepção do PCP, que sempre inventa a sua própria aliança unipessoal para fingir que é dois partidos e tem duas bancadas municipais. Excentricidades ou manobras que, ao fim de cinquenta anos, já reconhecemos como produto típico. Facto é que nenhum destes partidos apontou uma única crítica substancial às políticas de Moedas. Ninguém escrutinou – nenhuma decisão foi contestada, nenhuma escolha foi discutida. Toda a esquerda convergiu numa única direcção: a possibilidade de governar com o apoio do Chega.

A política desapareceu. Durante uma tarde inteira, as paredes da assembleia escorreram virtudes democráticas e afinação de um juízo moral já decidido. As alianças são legítimas desde que sejam negociadas à esquerda. As outras, que incluem o Chega, são alvo de condenação moral.

Desde que o mundo é mundo, a esquerda responde com argumentos morais aos fracassos daquele modelo político. Não se discutem decisões, não se confronta um programa. Desqualificam-se apoios e contaminações, como se o exercício da governação não estivesse certo ou errado em si mesmo. De um dia para o outro, a esquerda já não se interessa pelo que Carlos Moedas faz e exige apurar com quem o faz. Com o excesso de hegemonia, e a correspondente falta de exigência, os intérpretes da esquerda perderam o hábito e a destreza do confronto. Amoleceram. Não há ferocidade como a de um modelo enfraquecido. É mais simples – até porque dispensa as limitações da razão – declarar ilegítimo um apoiante do que contrariar politicamente uma escolha. Moralizar alianças é o último recurso de quem já não consegue disputar o governo.

Não é um desvio retórico. O vocabulário tem um papel revelador, quase traidor. Os deputados do Partido Socialista usam sistematicamente o verbo gerir em vez de governar – como se Carlos Moedas fosse o gerente de Lisboa, depois de Fernando Medina e António Costa terem “gerido” a cidade ao longo de catorze anos seguidos. E acusam Moedas de “comprar” apoios em troca de “lugarinhos”. A confusão entre gerir e governar é um erro, mas não é um lapso. A esquerda vê o poder desta maneira. Reduziu a política à administração de posições e, portanto, interpreta o governo como um exercício de gestão: distribui, equilibra, mantém. E a linguagem dos “lugarinhos” faz todo o sentido neste entendimento de quem trata o poder como uma grande empresa e usa a gerência para dar destino aos grandes e pequenos interesses familiares. Os cargos são tratados como recursos de um sistema interno.

Durante décadas o Partido Socialista deu e retirou credenciais de legitimidade democrática no sistema português. Sem essa certificação, tudo era “regresso ao fascismo”. Naquela terça-feira, tremeu de indignação perante a memória aviltada de Sá Carneiro. Há quarenta e sete anos, quando Sá Carneiro concorreu – e ganhou – para governar sem o PS e contra o PS, despejaram sobre ele o cesto da roupa suja. Chamaram-lhe fascista, autoritário e promíscuo, numa das campanhas eleitorais mais indignas da nossa democracia. Daí em diante, nem sempre o PS foi a única aliança possível, mas foi sempre a que validava as outras. Um vício. Todo o Portugal democrático se convenceu de que governar contra o PS podia ser difícil, mas nunca estrutural. A pouco e pouco, esse vício transformou dificuldade em ilegitimidade. E quando governar sem o PS passa de improvável para indevido, o problema já não é partidário. É do regime.