O Governo reviu em baixa as projeções para 2026 que tinha feito no âmbito do Orçamento do Estado para 2026. No relatório anual de progresso que apresentou a Bruxelas, e a que o Observador teve acesso, no âmbito das novas regras orçamentais europeias, o Governo aproveita para refazer as contas deste ano, que começou com um comboio de tempestades a que se somou a guerra no Médio Oriente que tem trazido aumento de preços do petróleo. E é com base nestes dois eventos e na revisão do preço estimado para o petróleo que o Governo refaz as contas.
Assim, enquanto no Orçamento do Estado apontava para um excedente de 0,1% do PIB, Miranda Sarmento que até já admitiu poder haver um ligeiro défice aponta agora a um saldo nulo. Ou seja os choques que já estão contabilizados para este ano levaram agora o Governo a cortar uma décima no saldo orçamental face à projeção no Orçamento, o que significa anular o excedente. Se por um lado o efeito de carry over de 2025 — cujo excedente foi melhor do que o esperado — ajuda no saldo para este ano, o efeito acaba anulado pelas medidas de apoio quer por causa das tempestades quer do aumento de preços dos combustíveis.
“Esta redução reflete o efeito combinado do resultado orçamental de 2025 acima do esperado e impacto negativo dos mais recentes desenvolvimentos climáticos e geopolíticos que ocorreram no primeiro trimestre de 2026”, realça o Governo no relatório que fez chegar a Bruxelas.
O Governo inscreve um custo de 1.199 milhões de euros (0,3% do PIB) com as medidas de emergências por causa das tempestades, em linha com o que tinha sido anunciado. Mesmo com esta intervenção, o Ministério das Finanças ainda está confiante no equilíbrio orçamental, apesar de Joaquim Miranda Sarmento até já ter admitido poder chegar ao défice este ano.
Já no crescimento, também é feita uma revisão em baixa. O Ministério das Finanças era dos mais otimistas, mas ainda não tinha feito a projeção com os impactos deste ano. O aumento do preço de petróleo leva a uma revisão em baixa do crescimento para face aos 2,3% que tinha inscrito no Orçamento. Agora aponta para um crescimento de 2%, abaixo em 0,3 pontos percentuais. Ainda assim, acima das projeções mais recentes do Conselho das Finanças Públicas, Banco de Portugal e FMI. A revisão deve-se “em larga medida” ao impacto “da atualização das hipóteses externas, no contexto dos efeitos das atuais tensões no Médio Oriente”, mas “antecipa-se uma compensação parcial do impacto das tempestades do início do ano ao longo dos restantes meses, pelo que o impacto em termos anuais deverá ser reduzido”
Em 2025 o crescimento foi de 1,9%.
O crescimento em 2026 será impulsionado pelo investimento, acreditando o Ministério das Finanças que as exportações poderão ter alguma aceleração face a 2025. O consumo privado, aponta agora as Finanças, “deverá abrandar, num contexto de menor crescimento do rendimento disponível, aumento da inflação e manutenção de níveis de poupança elevados”. A inflação projeta-se agora deverá atingir 2,5% (índice harmonizado), face aos 2,1% que estavam inscritos no Orçamento.
O Governo projeta agora um preço para o petróleo de 85,9 dólares em 2026, um crescimento de quase 30% face a 2025. E superior aos 65,4 dólares que o Orçamento apontava, e no qual se dizia que um aumento dos preços de petróleo em 20% teriam um impacto de 0,1 pontos no crescimento.
O Governo aponta agora para uma dívida pública no final de 2026 de 87,5%, face aos 87,8% anteriores. E que significa uma descida de 2,2 pontos face a 2025.

As novas projeções são feitas no relatório anual de progresso que entregou a Bruxelas e ao Parlamento, no qual é feita a análise de cumprimento das regras orçamentais europeias.