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Rússia é suspeita de burlas para recrutar homens de Cuba e Colômbia. Falsas ofertas de trabalho levam à linha de frente da guerra

Atraídos por falsas ofertas de trabalho em setores como a construção civil, homens de países que passam por crises económicas são recrutados pela Rússia, que os coloca na linha de frente do conflito.

Larissa Faria
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O exército de Moscovo está sob suspeita de realizar recrutamentos fraudulentos de homens em Cuba e na Colômbia, revela um relatório publicado esta quarta-feira pela Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH). Atraídos por supostas ofertas de trabalho em setores como a construção civil, os homens descobrem ao chegar aos países que seriam na verdade utilizados como “carne para canhão” — expressão utilizada no documento para os soldados atribuídos às posições mais arriscadas, sem que tenham a consciência ou a preparação adequada para tal.

O recrutamento de pessoas em países que passam por crises políticas e económicas para combater num cenário arriscado tem tido êxito pela facilidade com que é realizado e também pelos ordenados oferecidos. O documento da FIDH refere que há 18 mil estrangeiros a combater no exército russo, sendo que 30% foram recrutados entre setembro e fevereiro. A Ucrânia, no entanto, afirma que 20 mil cubanos foram contratados pela Rússia. Refere ainda que 3.388 estrangeiros atraídos pelo Governo de Putin morreram e que a maioria deles não sobrevive a mais de quatro meses de atuação na guerra. O Kremlin organizou campanhas para facilitar o visto de entrada e a cidadania russa a quem aceitasse propostas de cerca de 3 mil euros por mês durante um ano na guerra, que podiam incluir também um bónus de 30 mil euros. A Ucrânia, apesar de não ser citada no documento por suspeita de fraude, também recruta estrangeiros voluntários na sua Legião Internacional para a Defesa.

Além de Cuba e Colômbia, também são visados pela Rússia cidadãos da Argentina e do Brasil. “Em Cuba, o dinheiro e a vida são uma porcaria. Há milhares de cubanos na linha da frente, eu vi-os”, revelou um detido à organização Truth Hounds, que investiga crimes de guerra, avançou o El País. Mas nem todos os que decidiram embarcar sabiam, de facto, o que fariam ao chegar à Rússia. Os recrutadores, segundo o jornal El Espectador, são na maioria dos casos ex-militares de alta patente que tratam do envio de homens para países como Rússia, Ucrânia, México e Sudão. O mesmo prisioneiro de guerra, cuja identidade não foi revelada, afirmou ter sido recrutado através do Facebook, onde preencheu um formulário para uma oportunidade de trabalho na construção civil, cujo ordenado chegava aos 1.700 euros. Ao desembarcar na Rússia, entretanto, descobriu que iria, na verdade, atuar na linha de frente da guerra com a Ucrânia.

Ao El País, um colombiano disse ter se alistado no exército russo através de um anúncio no TikTok que foi partilhado por um amigo. A ambos, foi prometido um ordenado de 3 mil euros mensais. Está a receber, porém, 420 euros por mês enquanto está internado num hospital, a tratar de ferimentos num braço e num rim que foram causados por um ataque com drones. “Os estrangeiros são os primeiros a serem enviados para a linha da frente. Ao chegar, dizem-nos que nos treinarão por três meses, mas aos 15 dias já se está em combate“, revela, ao afirmar também que baixas por saúde não ocorrem mesmo em casos extremos. “Vi pessoas sem uma perna serem enviadas para a linha de frente”.

No relatório da FIDH, casos de tortura são referidos como punição aos que não cumprem as ordens do exército. A diretora da federação nas Américas, Jimena Reyes, afirma que os casos de propostas enganadoras aos estrangeiros devem ser classificados como tráfico de pessoas pelos governos dos países de origem das vítimas. O colombiano que está a recuperar no hospital afirma que estar na guerra é “um inferno”, mas que sair desta parece “impossível” devido ao medo de represálias caso volte para a sua casa. Não são estes os primeiros casos relatados de estrangeiros recrutados para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada em 2022. Pouco mais de um ano depois, a Ucrânia afirmou que a Rússia estava a usar cubanos como “carne para canhão” no conflito. Em janeiro deste ano, afirmaram que africanos estavam a ser recrutados nas mesmas condições.