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Da amnésia histórica à má-fé intelectual

Ao falar da IL como partido novo sem história, Carlos Bobone constrói uma teoria sobre a necessidade de vitimização para sobrevivência partidária, e nunca menciona o Chega. Seletividade cirúrgica?

Miguel Vargas
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Carlos Bobone escreveu um artigo que tem, na minha opinião, o raro mérito de ser simultaneamente pretenso e superficial, uma combinação que exige algum talento. Com uma prosa que imita a profundidade através da sinuosidade, constrói sobre o PCP um argumento bastante razoável para, imediatamente a seguir, o usar como trampolim para aterrar sobre a Iniciativa Liberal (partido com o qual eu já não tenho ligação) com a elegância de quem nunca aprendeu a saltar. O resultado é uma análise que, sobre o PCP, merece discussão séria, e sobre a IL merece apenas o que de mim vai receber.

O autor lamenta, com aquela tristeza de quem se habitou a ser condescendente, que a IL não tem história. Que não tem passado clandestino, que não tem mártires nem torturas no Aljube. Deduz assim, com a lógica peculiar de quem confunde história de partido com história de ideia, que não tem substância.

A IL, enquanto partido, tem muitos defeitos e muitas incoerências, mas talvez esteja na hora de relembrar as ideias centrais que lhe deram corpo.

O liberalismo não nasceu em 2017 com uns publicitários em Lisboa, caro Carlos. O liberalismo é, para ser preciso, a espinha dorsal filosófica da modernidade ocidental. John Locke, em 1689, no “Segundo Tratado sobre o Governo Civil”, definiu os direitos naturais do indivíduo, sendo eles a vida, a liberdade e a propriedade. Estes direitos foram assim definidos não como concessão de um soberano mas como condição humana.

Adam Smith, em 1776, demonstrou que a cooperação voluntária e o mercado livre geravam prosperidade de forma mais eficiente e mais justa do que qualquer planificação central. Immanuel Kant construiu a autonomia moral do indivíduo como fundamento de toda a ética. John Stuart Mill, em “On Liberty” (1859), defendeu a liberdade individual com uma clareza que ainda hoje envergonha os seus críticos. Alexis de Tocqueville advertiu, com uma acuidade profética, sobre os perigos do despotismo suave das democracias que trocam liberdade por conforto e tutela estatal.

O liberalismo tem trezentos anos de história intelectual densa, rica, poderosa e às vezes, contraditória. O comunismo, já que estamos a comparar, tem Marx e Engels e produziu o Manifesto em 1848, ou seja as ideias liberais são consideravelmente mais antigas.

Quando falamos de filosofia política, convém relembrar que foram as ideias liberais que fundamentaram as revoluções que criaram as democracias modernas como a Revolução Gloriosa inglesa, a Revolução Americana ou a Revolução Francesa. Foram esta ideias que conduziram finalmente à abolição da escravatura, à emancipação das mulheres e à separação entre a Igreja e o Estado. Todas estas conquistas têm raízes liberais mais profundas e mais antigas do que qualquer bandeira vermelha.

Liberais em Portugal, não são novidade. O que não existia em Portugal era o espaço político para existir um partido liberal, o que é totalmente distinto. Num país que saiu de quarenta anos de ditadura corporativista para uma transição tutelada por forças que definiram os termos do debate durante décadas, o centro-liberal simplesmente não teve onde se sentar. O bloco esquerda-direita tradicional ocupou todo o espaço disponível.

Dizer que a IL não tem história porque o partido é novo é como dizer que não existiam democratas em Portugal antes de 1974 porque não havia eleições livres. A ausência de expressão institucional não é ausência de ideia.

Noto também o conveniente esquecimento de outro partido recente, o Chega. Será seletividade cirúrgica?

Ao falar da IL como partido novo sem história, Carlos constrói toda uma teoria sobre a necessidade de vitimização para sobrevivência partidária, e em nenhum momento menciona o Chega, partido que surgiu no mesmo período, com o mesmo “défice histórico”, com a mesma ausência de passado clandestino, com a mesma necessidade de construir identidade do zero. Por que razão o Chega ficou de fora da análise?

Porque o Chega não serve o argumento e porque incluí-lo tornaria a análise honesta. Uma análise honesta obrigaria o autor a explicar que o Chega também não tem história, que efectivamente fabrica vitimização constantemente, e explora o ressentimento como combustível eleitoral mas de forma infinitamente mais grosseira e infinitamente mais perigosa para a democracia do que qualquer marcha liberal num 25 de Abril.

A questão da marcha do 25 de Abril não é quem desfila, mas quem realmente se opõe. Há uma inversão desonesta no argumento apresentado que merece ser nomeada com precisão.

Quando a IL quis marchar no 25 de Abril, quem se opôs? Não foi a esquerda democrática. Os partidos que constroem a sua identidade na herança do antifascismo como o PS, ou próprio PCP (mesmo não sendo democrático), não bloquearam fisicamente nenhuma marcha. O que aconteceu foi a presença de uma esquerda identitária e radical, que mesmo sem programa político coerente teve uma extraordinária capacidade de produzir interdições morais e decidiu que liberais não são bem-vindos à celebração da liberdade. A ironia seria cómica se não fosse reveladora da ignorância.

As vítimas do 25 de Abril não foram apenas os militantes clandestinos do PCP. Foram todos os que viveram sob censura, todos os que não podiam dizer o que pensavam, todos os que queriam um país onde o indivíduo tivesse direitos que o Estado não pudesse confiscar. Muitos desses eram liberais. Alguns eram conservadores. Outros eram socialistas e que eu saiba, a PIDE não fazia distinções filosóficas particularmente refinadas.

O 25 de Abril pertence à democracia e a democracia inclui os liberais, por mais que isso incomode quem quer monopolizar a data. Dizer que a IL fabrica vitimização ao querer marcar presença numa data democrática é inverter completamente a equação. A questão não é se a IL foi ou não fisicamente impedida, a questão é quem, numa democracia, reivindica o direito de decidir quem pode celebrar a liberdade. Essa reivindicação, essa exclusão, essa lógica de que há cidadãos de segunda categoria na festa da democracia, essa sim é antidemocrática.

É verdade que vivemos num tempo de vitimização, em que a ofensa se tornou moeda política, e um espaço político onde todos competem por ser o mais oprimido. Quem mais explora a vitimização em Portugal hoje? Quem mais constrói identidade a partir do ressentimento, da perseguição imaginária e do inimigo interno? É precisamente o espaço político que Carlos decide não examinar com a sua lupa.

Um partido pode ser novo e ter ideias antigas e válidas e a isso chamamos tradição intelectual. O liberalismo, tem uma das mais ricas da história do pensamento ocidental. Um partido pode não ter mártires e ter legitimidade pois as ideias fazem o seu caminho e não precisam de sangue para serem verdadeiras. Um partido pode querer marchar no 25 de Abril sem que isso seja oportunismo e seja simplesmente, celebração da democracia e da liberdade.

São escolhas, e essas, dizem sempre mais sobre quem as faz do que sobre quem as analisa.