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Pesquisas online, notas poéticas e uma selfie ao espelho: os últimos passos de Cole Allen antes do ataque a Donald Trump

Diários de viagem, a fotografia armado e o e-mail com os "alvos" revelam, segundo a acusação, o plano para o ataque ao Presidente. Promotores pedem a detenção do suspeito que manteve o silêncio.

Mariana Furtado
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Cerca de trinta minutos antes de tentar furar o perímetro de segurança do hotel Washington Hilton — e alegadamente tentar matar o Presidente dos EUA —, Cole Tomas Allen posava para uma selfie ao espelho do seu quarto. A fotografia, tirada às 20h03 de sábado (01h03 de domingo em Lisboa) , é um dos principais elementos do memorando revelado esta quarta-feira pelos promotores federais encarregues do caso, que visam manter o arguido de 31 anos detido até ao julgamento.

Segundo a acusação, divulgada pela imprensa internacional, a fotografia documenta o arsenal que Allen transportava junto ao corpo: um coldre de ombro, uma faca à cintura e uma bolsa de couro que a promotoria identifica como o local onde guardava as munições que seriam mais tarde apreendidas. O Departamento de Justiça (DOJ) aponta ainda que a imagem revela outras ferramentas — alicates e cortadores de arame — que os investigadores dizem coincidir com os objetos recuperados após a detenção de Allen. Para a acusação, estes registos visuais reforçam a teoria de que o arguido já estava totalmente equipado antes de iniciar o ataque.

“As ações do réu foram premeditadas, violentas e calculadas para causar a morte”, lê-se no memorando. “Considerando os fatores legais pertinentes, não há condição ou conjunto de condições que garanta razoavelmente a segurança de outras pessoas ou da comunidade caso o réu seja libertado. O tribunal deve manter o réu detido até o julgamento”, pedem os promotores.

As desculpas ao ex-patrão, o manifesto com apartes irónicos e as “regras de combate”: todos seriam “alvos”, menos o “Sr. Patel”

A cronologia reconstruída pela acusação revela ainda uma preparação metódica nas vésperas do jantar anual da Associação dos Correspondentes da Casa Branca. Enquanto viajava da Califórnia até à capital de comboio, Allen registava notas no telemóvel sobre a paisagem, onde discorre sobre o “deserto do sudoeste americano”, vendo nas turbinas eólicas “montanhas nevadas no horizonte”, ao mesmo tempo que se deixa deslumbrar com os “reinos encantados” das florestas da Pensilvânia, “repletos de pequenos riachos murmurantes na primavera”. O périplo encerra com uma reflexão sobre Chicago, cidade que define como “fixe” por parecer uma localidade do Iowa transposta para a escala de Los Angeles. A contemplação da paisagem cedeu, no entanto, à maior seriedade do alegado plano em curso conforme o destino final se aproximava.

De acordo com o DOJ, Allen terá revelado as suas intenções através de e-mails enviados a familiares, amigos e até ao antigo patrão. Num desses registos, confessa: “Gostaria de ter dito alguma coisa mais cedo, mas se o tivesse feito, nada disto teria sido possível. Peço sinceras desculpas por todo o transtorno que causei. (envio programado) – Cole”. Já numa mensagem ao antigo empregador, lamenta a “falta de profissionalismo” e apresenta a sua “demissão com efeito imediato”.

Em anexo, um ficheiro com o nome “Desculpa e Explicação” detalhava o seu estado de espírito: “Olá a todos! Bem, parece que hoje causei uma surpresa a muita gente. Deixem-me começar por pedir desculpa a todos aqueles cuja confiança abusei”. No texto, pede perdão aos pais, colegas e alunos por ter alegado uma falsa “emergência pessoal”, ironizando: “Quando alguém ler isto, provavelmente já vou mesmo precisar de ir às urgências, mas dificilmente posso dizer que não foi uma situação autoinfligida”. O documento encerra com pedidos de desculpa a companheiros de viagem, funcionários do hotel e, finalmente, “a todos aqueles que sofreram antes de eu ter conseguido tentar isto, a todos aqueles que ainda possam vir a sofrer depois”.

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Na sua “explicação”, o arguido começa por se afirmar como “um cidadão dos Estados Unidos da América”, justificando o ato como um imperativo moral: “O que os meus representantes fazem reflete-se em mim. E já não estou disposto a permitir que um pedófilo, violador e traidor manche as minhas mãos com os seus crimes”. Acrescenta ainda que este sentimento já era antigo, mas que só agora surgira a “primeira oportunidade real” de agir.

Allen detalhou também o que denominou como as suas “regras de combate”, estabelecendo uma hierarquia para o ataque. Segundo o plano, os funcionários da administração seriam “alvos, priorizados do mais alto ao mais baixo escalão”, com a exceção explícita do “Sr. Patel”. Já em relação às forças de segurança — incluindo o Serviço Secreto, a Polícia do Capitólio e a Guarda Nacional —, a instrução era de apenas os neutralizar “se necessário”, preferencialmente de forma não letal. O suspeito sublinhou que funcionários e hóspedes do hotel não eram alvos e que, para minimizar baixas colaterais, utilizaria “chumbo grosso em vez de balas”.

“Ainda assim”, ressalva no documento de acordo com as autoridades, “atravessaria quase toda a gente aqui para chegar aos alvos se fosse absolutamente necessário”. Allen justifica esta potencial violência com a ideia de que quem escolheu assistir ao discurso seria, por definição, “cúmplice”, concluindo, porém, com a esperança de que não fosse preciso chegar “a esse ponto”.

O suspeito antecipou ainda possíveis críticas ao plano de assassinato através de um diálogo hipotético. A uma das objeções — “Não os apanhaste a todos” —, o arguido respondeu de forma lacónica: “Temos de começar por algum lado”.

Naquela noite, segundo as autoridades, após consultar obsessivamente a cobertura ao vivo do evento e confirmar a presença de Donald Trump, Allen desceu em direção ao salão de baile. Com uma espingarda em punho e em posição de tiro, o arguido invadiu o posto de controlo no terraço, ignorando os detetores de metal. O seu avanço foi travado quando agentes do serviço secreto o imobilizaram antes que pudesse alcançar as escadas de acesso ao evento, onde se encontravam o Presidente, o vice-presidente JD Vance e a outros elementos da cúpula do Governo.

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Os promotores do gabinete de Jeanine Pirro são categóricos sobre a gravidade do incidente. No documento apresentado ao tribunal, sublinham que, não fosse a intervenção das autoridades, o país teria enfrentado “um dos dias mais sombrios da história americana”.

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]