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(A) :: A "maldição" continua e pode chegar ao Shakhtar: Mudryk é suspenso por quatro anos e pode só voltar no final de 2028

A "maldição" continua e pode chegar ao Shakhtar: Mudryk é suspenso por quatro anos e pode só voltar no final de 2028

Está há mais de dois anos sem jogar futebol oficialmente, poderá ter de esperar mais dois. Mykhailo Mudryk era comparado a Vinícius Jr. e Mbappé. Agora, continua a treinar sozinho num clube amador.

Manuel Conceição Carvalho
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Em campo, era um mistério para os defesas. Nunca se sabia se ia para esquerda ou para a direita e, mesmo que se adivinhasse, era difícil travá-lo. Mykhailo Mudryk continua a ser um mistério, mas agora fora dos relvados. Chegou ao Chelsea por 70 milhões de euros mais bónus por rendimento desportivo e trazia consigo muitas promessas, bem como talento. Como o próprio tatuou no pescoço, “não é suficiente”. O sucesso ou insucesso também têm a ver com sorte. A velocidade, agilidade e imprevisibilidade estavam lá. Ficaram, contudo, em suspenso: em dezembro de 2024, um teste de antidoping ao jogador ucraniano deu positivo a uma substância proibida. Agora, Mudryk pode ter de esperar até 2028 para voltar a jogar futebol, depois de ser conhecida uma suspensão de quatro anos aplicada pela Federação de Futebol Inglesa (FA).

Antes de chegar a Londres, onde houve “leilão” entre os blues e o Arsenal, Mykhailo Mudryk já tinha andamento de campeão. Ganhou o título pelo Shakhtar Donetsk, de onde chegou, por três vezes: em 2018/2019, em 2019/2020 e em 2022/2023. Durante o período em que esteve na Ucrânia, Mudryk foi eleito jogador do ano do Shakhtar em 2021 e em 2022, ano em que foi também distinguido como futebolista do ano da Ucrânia. Ainda com Mudryk em Donetsk, Darijo Srna, histórico do Shakhtar e na altura diretor de futebol do clube, citado pelo The Athletic, já dizia que “Myhkhailo era o melhor extremo do mundo, depois apenas de Vinícius Júnior e de Kylian Mbappé”. De Zerbi, que em 2021/2022 orientava o clube ucraniano, considerou que o avançado era “um dos melhores jovens jogadores de futebol” do mundo. “Se eu não o levar a um nível alto, será uma derrota pessoal”, rematou.

Antes de chegar às mãos de De Zerbi, Mudryk, entre 2018 e o final da época de 2020/2021, não tinha qualquer contribuição para golo, tanto pelo Shakhtar como pelo Arsenal de Kiev ou pelo Desna, clubes a quem foi entretanto emprestado. Foi com a chegada do técnico italiano que o avançado despontou. Dois golos e seis assistências, em 19 jogos, foram os números da época em que Mudryk se estreou a marcar e a assistir numa equipa sénior. “Toda a gente conhece o nível dele e toda a gente estava apenas à espera de quando ele ia explodir. A questão era quando”, afirmou Sergei Palkin, CEO do Shakhtar.

O ímpeto foi entretanto travado pela investida militar russa em território ucraniano. Durante a pausa de inverno no futebol ucraniano, a guerra na Ucrânia instalou-se e o futebol ficou em suspenso. Só voltou na época seguinte. O ímpeto de Mudryk também. Foram dez golos e oito assistências em 18 jogos, até janeiro. O mercado de inverno abriu as portas de Londres e levou o extremo para o Stamford Bridge.

Um “agente do caos” nas defesas contrárias – era assim que a imprensa apresentava Mudryk aos adeptos londrinos. O preço, a história recente e as declarações dos homens fortes do Shakhtar faziam água na boca dos adeptos do Chelsea, entusiasmados com o que aí vinha.

O jovem extremo nunca chegou, no entanto, a replicar o que havia feito no seu país, marcando dez golos em 73 jogos desde a sua chegada a Inglaterra. Mesmo na que prometia ser a sua melhor temporada – a sua última, em 2024/2025 –, os três golos e quatro assistências que Mudryk conseguiu em 15 jogos foram todos a contar para competições que não a Premier League: uma assistência na Taça da Liga Inglesa e as restantes contribuições para golo na Liga Conferência, que o Chelsea viria a conquistar mais tarde, nessa temporada.

Era nesse bom ritmo estatístico que Mudryk desejava começar a ganhar preponderância nos blues. A espera por esse cenário durou até aos dias de hoje: uma análise de urina de rotina ao jogador acusou a presença meldonium – uma substância considerada proibida pela FA – pouco depois do seu último jogo pelo Chelsea, frente ao Heidenheim, a 28 de novembro de 2024, em que apontou um golo na vitória sobre o conjunto alemão (2-0). No seu perfil na rede social Instagram, Mudryk, à data da suspensão provisória, garantiu não ter feito “nada de errado” e disse que continuava com esperança de que iria voltar “em breve aos relvados”.

Mais de dois anos depois de uma suspensão preventiva foi conhecido o parecer da FA: quatro anos de suspensão, com efeitos retroativos. Por isso, a data estimada de regresso do atleta ucraniano aos relvados poderá surgir apenas em dezembro de 2028. O atleta, ainda assim, já apresentou recurso junto do Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), na Suíça, com o objetivo de contestar a suspensão de quatro anos.

Mudryk baseia a sua defesa na afirmação de que nunca utilizou substâncias proibidas de forma consciente, tendo reagido com “total choque” quando a suspensão provisória foi comunicada. Mykhailo Mudryk contratou a Morgan Sports Law para o representar no seu recurso. Esta é a mesma empresa que representou Paul Pogba durante o seu caso de doping. A escolha deste escritório de advogados deve-se ao sucesso obtido no caso de Pogba, cuja suspensão original de quatro anos foi reduzida para 18 meses em outubro de 2024.

https://observador.pt/2024/10/04/tas-reduz-suspensao-de-pogba-por-doping-de-quatro-anos-para-18-meses/

O mesmo Sergei Palkin, o CEO do Shakhtar que nunca teve dúvidas do potencial de Mudryk, disse que não é só o Chelsea ou o jogador que saem prejudicados com o caso. Também o Shakhtar Donetsk terá muitos milhões de euros a perder, se o jogador não cumprir certos objetivos com a camisola dos blues. Para cumpri-los, terá de voltar a vesti-la. “Temos 30 milhões de euros em bónus no contrato dele. Se ele não jogar, ou se o Chelsea não obtiver bons resultados, perdemos 30 milhões de euros. Isso representa um grande impacto financeiro para nós”, afirmou Palkin ao TalkSport. Os valores da transferência ficaram nos 70 milhões de euros mais 30 milhões em objetivos. Dos ainda possíveis 100 milhões de euros, 25 milhões foram doados ao exército ucraniano.

https://observador.pt/2023/01/16/mudryk-ja-custou-70-milhoes-ao-chelsea-e-pode-chegar-aos-100-e-o-shakhtar-vai-dar-parte-do-valor-aos-soldados-ucranianos/

De acordo com a revista FourFourTwo, Mudryk tem treinado sozinho nas instalações do Uxbridge FC, de um escalão amador, para manter a forma física.