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Fed dos EUA mantém juros. Jay Powell despede-se sem dar a Trump o corte de taxas que o Presidente exigiu

Reserva Federal decidiu manter as taxas de juro inalteradas, como era antecipado pelos analistas, naquela que será, muito provavelmente, a última reunião liderada por Jay Powell.

Edgar Caetano
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A Reserva Federal norte-americana decidiu nesta quarta-feira manter as taxas de juro inalteradas, pela terceira reunião consecutiva, como era antecipado pelos analistas. Esta foi, muito provavelmente, a última reunião liderada por Jay Powell, que até à saída do banco central resistiu à forte pressão de Donald Trump para que baixasse as taxas – e está a ser a guerra no Médio Oriente, lançada por Trump, que está a aumentar as pressões inflacionistas e a tornar ainda mais difícil pensar em baixar os juros.

O banco central mais poderoso do mundo manteve, assim, a taxa de juro de referência no intervalo entre 3,5 e 3,75%, numa fase em que, sobretudo devido ao impacto da guerra no Médio Oriente, a inflação tem tido um comportamento errático, sem dar sinais de estar controlada. Por essa razão, a generalidade dos membros do comité da Reserva Federal que decide sobre política monetária considerou que não estão reunidas as condições para uma redução dos juros.

Ainda assim, oito responsáveis votaram pela manutenção dos juros, a decisão que venceu, mas houve quatro dissidentes, um número invulgarmente elevado, que queria uma decisão diferente. Tal como tem sido habitual, Stephen Miran, recentemente nomeado por Trump, queria um corte da taxa de juro, ao passo que outros três governadores, receosos perante as pressões inflacionistas, não concordaram que a Fed deva continuar a indicar aos mercados que, a fazer alguma mudança nos juros, ela deva ser no sentido de baixar as taxas.

Embora o índice de preços no consumidor tenha abrandado face aos picos anteriores, componentes como energia e serviços continuam a demonstrar rigidez. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho continua relativamente sólido: embora existam níveis de criação de novos empregos relativamente lentos, a taxa de desemprego continua baixa e os salários ainda estão a crescer acima do ritmo considerado consistente com a meta de 2% de inflação. Jay Powell afirmou, nesta quarta-feira, que as pressões inflacionistas continuam “elevadas”.

Apesar disso, o Presidente dos EUA está há meses a pressionar a Reserva Federal e o seu líder, pessoalmente, para que baixasse as taxas de juro – algo que conduziria, teoricamente, a um maior impulso na economia e no emprego. “Imbecil”, “Sr. Atrasado” e “Cabeça oca” foram alguns dos insultos públicos feitos por Trump a Powell, que o Presidente dos EUA, apesar de o ter nomeado para o cargo, já tinha criticado por ter, aos seus olhos, as taxas de juro demasiado baixas quando os democratas estavam no poder.

“Estamos agora no limite superior do que se pode considerar uma taxa de juro neutral, ou ligeiramente restritiva” da atividade económica, confirmou Jay Powell, acrescentando que “este é exatamente o ponto ideal, permitindo-nos esperar e observar como as coisas se desenrolam antes de agir”.

O impacto dos preços do petróleo nos EUA é menor do que na Europa e na Ásia, mas se a situação atual se prolongar, o efeito tornar-se-á muito mais pronunciado. Estou bem consciente de que as pessoas estão a sentir o impacto do aumento dos preços dos combustíveis”, afirmou Jay Powell.

O mandato de Jay Powell termina a 15 de maio, pelo que esta foi a última reunião de política monetária liderada por si. Ainda se admitiu que pudesse ficar mais tempo no cargo, por estar a correr ainda um processo judicial que o Departamento de Justiça lhe moveu, mas esse processo caiu no final da última semana. Por outro lado, o sucessor de Powell, Kevin Warsh, deu nesta quarta-feira mais um passo para a sua aprovação no Congresso dos EUA, o que deverá fazer com que assuma o cargo no momento previsto.

Depois de dar os parabéns a Warsh pela aprovação num painel do Senado, esta quarta-feira, Powell indicou que irá ficar na Fed mais “algum tempo” após deixar de ser presidente, tendo em conta que o mandato como membro do conselho só termina em 2028. “Quando achar que deve” fazê-lo, irá sair da Fed, afirmou Jay Powell, garantindo que irá ter um “perfil discreto” no organismo.

https://observador.pt/2026/04/24/justica-dos-eua-deixa-cair-investigacao-criminal-a-powell-presidente-da-fed/

“Já afirmei que não deixarei o conselho até que esta investigação esteja completamente concluída, com transparência e de forma definitiva, e mantenho a minha palavra”, indicou o líder da Fed, manifestando-se “otimista com os recentes desenvolvimentos” mas continua “a acompanhar atentamente as restantes etapas deste processo”. Mais uma vez, Powell salientou que “a independência da Fed está em risco” devido à pressão aplicada pela Casa Branca.

O responsável acrescentou que as suas “decisões sobre estes assuntos continuarão a ser orientadas inteiramente pelo que acredit[a] ser o melhor para a instituição e para as pessoas que servimos, mesmo após o término do mandato como presidente, a 15 de maio, e continuar[á] a exercer funções como membro do conselho por um período que será determinado”.

No final da conferência de imprensa, vários jornalistas aplaudiram Jay Powell, ao que o líder da Fed respondeu, com humor, que “não vos vejo para a próxima”.