O PCP, PS, BE e Livre na Câmara de Lisboa criticaram esta quarta-feira o “Chic-Nic” previsto para domingo, com bilhetes de 150 e 300 euros e um apoio municipal de 75 mil euros, pedindo a Carlos Moedas “sensibilidade social”.
Em causa está a organização de um “pic-nic chic” por uma empresa privada, no próximo domingo, no Parque Eduardo VII, com um apoio de 75 mil euros do município para um concerto aberto ao público, mas em que os participantes no “chic-nic” têm lugar privilegiado, tema que foi levantado na reunião pública da Câmara Municipal de Lisboa (CML) desta quarta-feira, pelo vereador João Ferreira (PCP).
O vereador apontou que o dono da empresa promotora tem uma “ligação pública reconhecida” ao presidente da CML, Carlos Moedas, considerando que a questão “revela falta de transparência e de lisura na gestão da coisa pública”.
“Faça com que este evento não aconteça, [peço-lhe] que tenha a sensibilidade social, que tenha a correção de fazer com que este evento não aconteça, pelo menos não nos termos em que está proposto”, pediu João Ferreira a Moedas.
Também a vereadora Alexandra Leitão (PS) defendeu que Lisboa se tem tornado uma cidade “cada vez mais desigual” e agora “está a tornar-se muito desigual também simbolicamente” com a realização deste evento que também disse esperar que não aconteça.
“O PS apresentou uma proposta [que foi ‘chumbada’] para apoiar associações e famílias face ao aumento dos combustíveis, e depois aparecem iniciativas como esta, com o argumento de que depois há um momento musical a que todos podem assistir”, realçou Alexandra Leitão, abordando também as eventuais ligações do promotor do evento a Carlos Moedas. “Mas eu nem vou por aí, peço-lhe sensibilidade social”, acrescentou.
Pelo BE, a vereadora Carolina Serrão considerou que “não se compreende” como é que um evento privado “com bilhetes estupidamente caros” tem um apoio municipal de 75 mil euros.
“Onde está o interesse público aqui? É que não entendemos”, questionou.
Da parte do Livre, o vereador Carlos Teixeira subscreveu “integralmente” as críticas feitas pelos outros partidos a respeito do evento.
Em resposta, Carlos Moedas negou que a cidade esteja esta quarta-feira mais desigual do que estava quando chegou à liderança do município, altura em que havia 2.000 casas municipais das quais 1.900 foram recuperadas, ou 800 camas para pessoas em situação de sem-abrigo que passaram para mais de 1.200, e garantiu que não faz escolhas relativamente aos eventos a realizar, referindo que “isso foi reconhecido até por muitas pessoas da área da cultura”.
O vereador Diogo Moura (CDS-PP) explicou que o evento tem caráter semipúblico e que o apoio público tem a ver com a componente da programação de entrada livre. O vereador do PCP considerou que “ninguém acredita” que qualquer decisão da CML não seja do conhecimento de Carlos Moedas e desafiou todos os que não concordam com a realização do evento naqueles moldes e fazer um passeio no Parque Eduardo VII no domingo “e que não deixem de manifestar a sua indignação perante um presidente de câmara que deixa que isto aconteça”.
Outro tema levantado no período antes da ordem do dia, pela vereadora do BE, foi o do Quartel da Graça, concessionado ao grupo Sana para a construção de um hotel que já devia estar pronto, mas cujas obras terão começado apenas recentemente.
Carolina Serrão considerou que se está face a uma “espécie de resignação por parte deste executivo perante este incumprimento, que não se compreende” e questionou o que é que a autarquia vai fazer “para defender o património público”.
Carlos Moedas considerou que “essa pergunta tem de ser feita ao Governo, que vendeu o Quartel da Graça”.
“Naquele caso era um Governo do PS, mas eu tenho de defender o Estado, o Estado vendeu aquele imóvel para ser um hotel, ponto final parágrafo”, afirmou o presidente da CML.
Alexandra Leitão lembrou que o imóvel não foi vendido em hasta pública, mas sim concessionado com condições e que, em caso de incumprimento, o acordo pode ser revertido.