Vivemos sob o império da velocidade, do imediatismo, do aceleracionismo. Qualquer conceito que escolhamos remete para a mesma realidade: um mundo governado pela velocidade da informação, da reação, da opinião. A politóloga Asma Mhalla alerta para o modo como as tecnologias da hipervelocidade contribuem para amplificar esse fenómeno e operam como uma “centrifugadora” que fragmenta narrativas, polariza posições, brutaliza o debate público e torna cada vez mais improvável qualquer forma de consenso. O que está em causa não é apenas uma mutação tecnológica, é uma transformação profunda da própria possibilidade de vida democrática.
A democracia, na sua essência, exige tempo. Tempo para escutar, para deliberar, para hesitar, para duvidar. Exige espaços de mediação onde o conflito possa ser simbolicamente trabalhado e não imediatamente convertido em antagonismo, onde a demagogia seja criticamente desvelada em vez de amplificada. Ora, o algoritmo, esse dispositivo invisível que organiza a nossa experiência digital, funciona precisamente no sentido oposto. Ele acelera, hierarquiza, seleciona, amplifica e simplifica mas também privilegia conteúdos que suscitam reações emocionais intensas e imediatas.
As emoções não são exclusivamente experiências individuais, são forças sociais estruturantes que moldam a forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros. E o que o algoritmo faz é explorar, amplificar e instrumentalizar emoções como a raiva, o medo ou o nojo: emoções de alta intensidade, altamente contagiosas e, sobretudo, profundamente corrosivas do ponto de vista democrático.
Num ecossistema digital orientado pela lógica da atenção, aquilo que mais circula não é o que mais esclarece, mas o que mais provoca uma emoção; não é o mais verdadeiro ou real, é o que garante mais viralidade e engajamento. A indignação, o medo e a repulsa são as emoções que mais mobilizam cliques, capturam a nossa atenção e reorganizam a forma como percebemos a realidade e como nos relacionamos.
A metáfora da centrifugadora torna-se, assim, ainda mais pertinente: tudo o que exige tempo, nuance e ambivalência é expelido. No centro, permanecem conteúdos simplificados, emocionalmente carregados e frequentemente polarizadores. O algoritmo não se limita a distribuir informação, ele estrutura e legitima o campo emocional do espaço público.
E esse campo emocional tem consequências políticas. Quando o debate público é dominado pela raiva, o outro transforma-se em adversário. Quando o medo prevalece, o outro torna-se ameaça. Quando a repulsa se instala, a distância simbólica converte-se em exclusão. A linguagem degrada-se, o reconhecimento mútuo desaparece, o diálogo converte-se num ataque pessoal e o espaço democrático, que depende da possibilidade de coexistência no desacordo, começa a erodir.
Mas talvez o efeito mais insidioso seja a naturalização desta dinâmica. Passamos a considerar normal que o debate seja agressivo, que a opinião seja imediata, que a emoção substitua a argumentação racional, que a crença substitua o facto, que a experiência subjetiva se imponha como derradeiro critério de verdade e que o diálogo se fragmente em monólogos paralelos, impermeáveis à escuta.
É aqui que a advertência de Paulo Finuras ganha particular acuidade: o autoritarismo tende a ser uma inclinação mais espontânea das sociedades humanas, ao passo que a democracia é uma construção cultural exigente, frágil e sempre inacabada. Não emerge naturalmente, é necessário saber sustentá-la e, por isso, requer cultivo, aprendizagem e, sobretudo, vigilância permanente. Ora, num ambiente saturado por estímulos emocionais e acelerado por lógicas algorítmicas, essa vigilância torna-se mais difícil e, paradoxalmente, mais necessária. Ao privilegiar emoções corrosivas, o algoritmo fragiliza as bases afetivas da democracia, que assentam não apenas em regras e instituições, mas também em disposições cognitivas e emocionais como a empatia, a confiança e a abertura ao outro.
Importa, por isso, recusar a ideia de neutralidade tecnológica e a redução do ciberespaço a meras redes sociais de exposição, reconhecendo-o antes como um ecossistema estruturado por interesses, lógicas de poder e arquiteturas simbólicas que moldam ativamente a nossa perceção do mundo, as nossas relações e a qualidade da vida democrática. O algoritmo é uma arquitetura de escolhas que organiza tanto a circulação da informação como a economia das emoções. E é nesse duplo nível, cognitivo e afetivo, que ele deve ser problematizado. A resposta, contudo, não pode ser apenas técnica ou regulatória. Ela tem de ser também cultural e educativa. Precisamos de reaprender a lentidão, mas também de reaprender a sentir: sair da ilha para finalmente a poder ver, rompendo com as narrativas ultraindividualistas que nos confinam à ilusão de isolamento e atomização. Cultivar emoções que sustentem a vida democrática: a curiosidade em vez da suspeita, a empatia em vez da aversão, a prudência reflexiva em vez da indignação automática. No fundo, trata-se de um exercício coletivo de re-humanização do espaço público que recupere aquilo que o estudo de Edward O. Wilson sublinha como decisivo na trajetória humana e fonte da nossa supremacia: a extraordinária capacidade de cooperação, empatia, altruísmo e vida social complexa.