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(A) :: Isaltino homenageou o herói ou esqueceu o resto da história?

Isaltino homenageou o herói ou esqueceu o resto da história?

Otelo teve um papel central no derrube do Estado Novo. Mas a história não terminou na madrugada de Abril, e é precisamente aí que começa o problema desta homenagem.

Sérgio Guerreiro
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A Câmara Municipal de Oeiras decidiu homenagear Otelo Saraiva de Carvalho atribuindo o seu nome a uma rotunda nas comemorações do 25 de Abril. A decisão era inevitavelmente política.
E, como quase tudo o que envolve Otelo, também inevitavelmente ambígua.

A história portuguesa dificilmente consegue olhar para Otelo sem dividir emoções, memórias e convicções.
Porque há poucas figuras nacionais que carreguem, ao mesmo tempo, um lugar tão importante na conquista da liberdade e uma herança posterior tão polémica.

Otelo teve um papel central no derrube do Estado Novo. Foi um dos principais estrategas militares da operação que levou ao colapso do regime liderado por Marcelo Caetano. Sem ele, provavelmente o 25 de Abril não teria acontecido da forma como aconteceu. Esse lugar na história existe e não pode ser apagado por conveniência ideológica nem por revisões emocionais da memória coletiva.
Mas a história não terminou na madrugada de Abril.
E é precisamente aí que começa o problema desta homenagem.
Os anos que se seguiram à revolução ficaram marcados pelo PREC, pela radicalização política, pela tensão militar e por uma disputa profunda sobre aquilo em que Portugal se deveria tornar. Nesse período, Otelo assumiu posições cada vez mais revolucionárias através do COPCON, defendendo uma visão política que uma parte significativa do país acabaria por rejeitar. As eleições, o 25 de Novembro e a consolidação da democracia parlamentar mostraram precisamente isso: o país queria liberdade, mas não queria uma revolução permanente.
Otelo nunca foi apenas um militar de Abril. Quis ser também o rosto político de uma determinada ideia de país.
E foi aí que a figura do herói começou a transformar-se numa personagem profundamente divisiva.
A ligação às FP-25 de Abril tornou impossível separar totalmente o símbolo revolucionário do homem concreto. A organização esteve associada a atentados, assaltos e mortes durante os anos 80. Otelo foi julgado e condenado judicialmente no âmbito desse processo, vindo mais tarde a beneficiar de amnistia política. E é precisamente essa parte da história que continua a levantar uma questão legítima: pode uma democracia homenagear alguém cuja ação posterior entrou em conflito com os próprios princípios democráticos?
A pergunta não é absurda. Nem sequer é extremista. É uma pergunta democrática.
Porque a dificuldade em discutir Otelo nasce precisamente do facto de coexistirem duas verdades desconfortáveis. A primeira é que sem homens como ele talvez não tivesse existido 25 de Abril. A segunda é que alguns desses mesmos homens, depois da revolução, revelaram uma relação ambígua com os limites da própria democracia que ajudaram a criar.

Talvez por isso a homenagem de Oeiras pareça incompleta. Não por recordar Otelo. Mas por recordar apenas metade da personagem histórica.
Otelo foi herói? Sim. Teve coragem? Sem dúvida. Tem um lugar incontornável na história de Abril? Tem.
Mas há sempre um depois.
E esse depois também faz parte da memória coletiva de um país. Um depois feito de radicalização, violência política e tentativas falhadas de impor ao país um caminho que o próprio país recusou.

A democracia tem o dever de saber homenagear quem a ajudou a nascer mas também tem o dever de não esquecer quando alguns desses protagonistas deixaram de acreditar plenamente nela.