A aviação civil atravessa hoje um dos períodos mais exigentes da sua história. Trata-se de um dos setores mais regulados e exigentes, onde a qualidade e a segurança condicionam todas as decisões. Uma atividade que atraiu os melhores, que formou quadros altamente especializados, e que sempre valorizou a experiência e o conhecimento.
Na aviação a confiança não se decreta, constrói-se todos os dias, na manutenção das pistas, aerogares, na preparação dos Socorros, na necessária formação inicial e continua dos profissionais, na robustez dos procedimentos e na estabilidade das equipas que asseguram a operação e toda a gestão aeroportuária nacional.
Hoje, essa exigência é ainda maior. À pressão permanente da segurança operacional juntam-se ameaças híbridas, riscos sobre infraestruturas críticas, desafios de cibersegurança, guerra na Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente, com potenciais impactos nas rotas, na energia, nas cadeias logísticas e na confiança internacional. Num momento em que a Europa é chamada a reforçar a proteção das suas infraestruturas críticas e em que Portugal avança, finalmente, com uma decisão estratégica sobre o novo aeroporto de Lisboa, a gestão do setor aeroportuário não pode ser tratada com improviso, nem como uma atividade comum.
Sem desvalorizar a importância de uma obra ou de um hotel, nesses setores é possível compensar com maior rapidez a saída de profissionais experientes e corrigir falhas sem pôr em risco toda a economia de um país. Num aeroporto, não. A redução de meios, a perda de quadros experientes e a insuficiência de formação muito especializada e exigente, não são apenas problemas laborais, são fatores que podem afetar a segurança da operação e a confiança dos passageiros, das companhias aéreas e das empresas.
O recente e inédito aviso da ANAC que limitou a operação no Aeroporto da Horta, impedindo a aterragem de aviões, recorda-nos que é importante cumprir normas, procedimentos e legislação obrigatória, quer seja administrativamente ou no terreno porque, num aeroporto não tem as mesmas consequências que num hotel, ou numa estrada. Na aviação, a confiança e a segurança dependem de requisitos técnicos rigorosos, de infraestruturas bem mantidas e de equipas capazes de responder com competência. Um aeroporto seguro exige pistas em bom estado, infraestruturas e equipamentos operacionais, bombeiros preparados, equipas suficientes e profissionais que conheçam os procedimentos e que os saibam implementar em momentos de pressão, na difícil tarefa e exigente da gestão aeroportuária.
Quando estes profissionais saem, não se perde apenas mão de obra, perde-se conhecimento crítico, capacidade de resposta e possibilidade de transmissão
do saber com muito valor acrescentado. Desvalorizar a gestão aeroportuária é pôr em causa a forma como Portugal protege uma infraestrutura essencial para o seu desenvolvimento, é pôr em causa a sua segurança e é degradar a imagem externa do país. O setor aeroportuário é demasiado importante para ser tratado com ligeireza.