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(A) :: Rui e a equipa sem pára-quedas que descobriu uma estranha atração pelo abismo (a crónica do Sporting-Tondela)

Rui e a equipa sem pára-quedas que descobriu uma estranha atração pelo abismo (a crónica do Sporting-Tondela)

O jogo paradigmático para explicar o momento de um clube: Sporting esteve a ganhar ao Tondela, sofreu dois golos nos descontos e voltou a empatar, ficando a dois pontos do Benfica e da Champions (2-2)

Mariana Fernandes
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Foi uma semana terrível que só piorou um mês que já estava a ser mau. Depois da eliminação na Liga dos Campeões, depois da derrota em Alvalade com o Benfica, depois das inúmeras lesões que enfraqueceram um plantel já carente de soluções, o Sporting tornou-se uma caricatura de si mesmo e empatou na Vila das Aves com o já despromovido AVS. Ou seja, não só entregou definitivamente o Campeonato como complicou até o segundo lugar.

Era neste contexto, neste complexo contexto, que os leões acertavam o calendário contra o Tondela. Esta quarta-feira, em Alvalade, a equipa de Rui Borges recebia os beirões num jogo dizia respeito à 26.ª jornada e procurava voltar às vitórias depois de quatro jogos sem ganhar, igualar o Benfica no segundo lugar e recuperar algum fôlego para a reta final da temporada. A violência dos factos, porém, era evidente: o Sporting até podia vencer, mas já sabia que nem sequer depende de si mesmo para ficar no segundo lugar do Campeonato e garantir a Liga dos Campeões da próxima época.

Ficha de jogo

Sporting-Tondela, 2-2

26.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Fábio Veríssimo (AF Leiria)

Sporting: Rui Silva, Vagiannidis (Salvador Blopa, 57′), Debast, Eduardo Quaresma, Maxi Araújo, Daniel Bragança (Kochorashvili, 86′), Morita, Geny Catamo (Nuno Santos, 86′), Pedro Gonçalves (Luis Guilherme, 75′), Geovany Quenda (Trincão, 57′), Luis Suárez

Suplentes não utilizados: João Virgínia, Diomande, Rafael Nel, Ricardo Mangas

Treinador: Rui Borges

Tondela: Bernardo Fontes, Christian Marques, Pedro Maranhão (Makan Aiko, 65′), Hélder Tavares (Joe Hodge, 65′), Yaya Sithole (Cícero, 75′), Rony Lopes (Hugo Félix, 75′), Rodrigo Conceição, Juan Rodríguez, João Silva, Tiago Manso, Moudjatovic (Arjen van der Heide, 57′)

Suplentes não utilizados: Gabriel Souza, Bebeto, João Afonso, Benjamin Kimpioka

Treinador: Gonçalo Feio

Golos: Luis Suárez (62′), João Silva (ag, 79′), Salvador Blopa (ag, 90+2′), Cícero (90+4′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Pedro Maranhão (16′), a Rony Lopes (19′), a Tiago Manso (43′), a Eduardo Quaresma (45+1′), a Salvador Blopa (78′)

Na antevisão, o treinador leonino desvalorizou as críticas pela enorme rotação que apresentou na Vila das Aves no fim de semana. “Eu gosto de falar sobre tudo o que é o jogo. Hoje o adepto diz para meter o Manel, eu meto o Manel e o adepto diz que devia ter posto o António. O adepto é o adepto. Em casa, com uma cervejinha e uma sandes mista, está tudo bem… O que posso dizer é que era impossível ter outras opções. Houve jogadores que não estavam capazes de dar o seu contributo por mais de 60 ou 70 minutos, as opções tinham de ser essas. Mas não foi por isso que não ganhámos o jogo, não ganhámos porque não fizemos golos. A equipa está muito desgastada e já não conseguia dar mais”, explicou Rui Borges, que vai mesmo renovar contrato e assinar o novo vínculo esta sexta-feira.

Assim e ainda sem Gonçalo Inácio, Iván Fresneda, João Simões, Hjulmand e Ioannidis, o treinador dos leões recuperava a titularidade de Maxi Araújo, Geny Catamo e Luis Suárez, juntando Daniel Bragança a Morita no meio-campo e deixando Trincão no banco, onde também já estava Nuno Santos. Do outro lado, num Tondela que ainda sonha com a permanência na Primeira Liga, Gonçalo Feio apostava em Pedro Maranhão, Rony Lopes e Moudjatovic no ataque.

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Numa primeira parte que terminou sem golos, não foi preciso esperar muito para perceber que o Sporting iria continuar desinspirado, lento e sem grande criatividade. Os leões tinham o ascendente do jogo, mas só mesmo de forma genérica, acumulando uma posse de bola completamente inconsequente que não beliscava a organização defensiva do Tondela. No meio de tudo isso, nas raras vezes em que a bola chegava à baliza, Bernardo Fontes recordava o porquê de ser um dos melhores guarda-redes do Campeonato.

Geny Catamo assinou o primeiro momento de maior perigo, com um remate já na área que saiu por cima (6′), e foi preciso aguardar mais de um quarto de hora para voltar a ver uma oportunidade de golo, com Maxi Araújo a obrigar Bernardo Fontes à primeira intervenção mais atenta com um pontapé forte junto ao poste (21′). Luis Suárez teve duas ocasiões para abrir o marcador, com um remate cruzado que o guarda-redes também defendeu (32′) e outro que passou ao lado (34′), e a melhor fase dos leões no jogo esfumou-se pouco depois da meia-hora.

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A primeira parte somou paragens devido a dificuldades físicas de jogadores de ambas as equipas, interrupções por faltas mais duras ou perda de tempo pura e foi difícil encontrar minutos consecutivos em que a bola esteve a rolar. Os beirões conquistaram confiança à medida que o tempo foi passando, até porque o adversário permitia, e mesmo sem criar uma verdadeira oportunidade de golo ainda conseguiram aproximar-se da área leonina e tirar cruzamentos que obrigaram Rui Silva a uma atenção redobrada.

Ao intervalo, Sporting e Tondela estavam empatados sem golos em Alvalade e a equipa de Rui Borges parecia anestesiada, sem capacidade para espantar o marasmo que parece ter-se apoderado do balneário nas últimas semanas. Pedro Gonçalves esteve pouco em jogo, Geny Catamo fazia o que podia, Geovany Quenda parecia muito agarrado à bola e Luis Suárez, mais uma vez, era uma sombra do que já foi. E nas bancadas, já mais do que despidas do que o normal, a ansiedade ia aparecendo.

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Nenhum dos treinadores mexeu no início da segunda parte e as primeiras situações de perigo depois do recomeço até pertenceram ao Tondela, com Rony Lopes e Tiago Manso a rematarem ambos ao lado de fora de área (47′ e 50′). Pedro Maranhão também atirou por cima na sequência de uma transição rápida conduzida por Rony Lopes (54′) e o Sporting parecia ter ficado no túnel de acesso ao relvado, parecendo até inferior ao adversário nos minutos iniciais do segundo tempo.

Rui Borges percebeu e reagiu, lançando Trincão e Salvador Blopa ainda antes da hora de jogo e já depois de Bernardo Fontes negar o golo a Pedro Gonçalves com uma defesa em voo (56′), com o mesmo Pedro Gonçalves a rumar à esquerda para abrir o corredor central para o outro internacional português. Os leões aceleraram na sequência das substituições e assentaram por completo no meio-campo contrário, esvaziando a boa entrada dos beirões e aproximando-se da baliza adversária de forma mais frequente, com Geny Catamo a desperdiçar de forma escandalosa ao atirar por cima praticamente em cima da linha de golo (59′).

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Entretanto, o que já parecia inevitável acabou mesmo por acontecer. Salvador Blopa cruzou na direita e Luis Suárez, com uma antecipação brutal a Christian Marques, desviou de primeira para abrir o marcador e voltar a marcar seis jogos depois (62′). Rui Borges lançou Luis Guilherme já dentro do último quarto de hora e os leões acabaram mesmo por aumentar a vantagem através de um autogolo de João Silva, que desviou um remate de Geny Catamo para a própria baliza (79′).

Os descontos, porém, trouxeram um golpe de teatro que nem os mais pessimistas poderiam imaginar. Kochorashvili, que entretanto tinha entrado, fez falta sobre Hugo Félix na área leonina e Rui Silva, com uma enorme defesa, até parou a grande penalidade de Makan Aiko (90+2′). O que se passou a seguir foi digno de filme: Salvador Blopa fez autogolo na sequência de um canto na esquerda (90+2′) e Cícero, na sequência de um canto do outro lado, cabeceou sozinho ao primeiro poste para garantir o empate (90+4′).

O Sporting empatou com o Tondela em Alvalade, somou o quinto jogo sem ganhar e conseguiu não vencer nem o último nem o penúltimo classificado em jornadas consecutivas, ficando a dois pontos do Benfica e a 10 do FC Porto, complicando ainda mais o apuramento para a Liga dos Campeões da próxima temporada. Numa partida paradigmática que espelha o momento global do clube, a equipa de Rui Borges voltou a não ter pára-quedas para travar uma estranha atração pelo abismo.

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