As imagens de satélite mostram uma enorme nuvem de fumo negro e compacto, que se estende sobre as margens do Mar Negro. Na origem do fumo está um incêndio que lavra há duas semanas na refinaria de Tuapse, no sul da Rússia. Esta terça-feira, pela terceira vez este mês, a refinaria foi alvo de um novo ataque ucraniano, que prolongou o fogo. Os ataques ucranianos às refinarias russas têm sido uma constante na guerra, mas nas últimas semanas tornaram-se mais intensos e frequentes.
“Somos como um pano vermelho para o nosso inimigo”, afirma um soldado ucraniano à BBC, utilizando uma expressão idiomática inglesa que compara a sua ação provocatória à de um toureiro na praça de touros. “Porque estamos a levar a guerra para o seu território para que eles também sintam isto”, continua. A mudança de estratégia surgiu em resposta à lufada de ar fresco que a guerra no Irão veio trazer à indústria petrolífera de Moscovo, depois de os Estados Unidos terem levantado sanções ao petróleo russo para fazer frente ao aumento do custo dos combustíveis motivado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz.

Mas este não foi o único impacto que a guerra no Médio Oriente teve na guerra na Ucrânia. De uma forma mais direta, o conflito fez com que os Estados Unidos desviassem a atenção da ajuda à Europa, para se concentrarem nos seus próprios esforços militares. Esta mudança do foco de Washington tem sido visível no discurso do Presidente ucraniano ao longo dos últimos dois meses. “É importante que o mundo não se mantenha em silêncio em relação ao que está a acontecer e que esta guerra russa na Europa não seja ofuscada pela guerra no Irão”, afirmou Volodymyr Zelensky no passado dia 25, num apelo que se tornou frequente.
Esta declaração mais recente foi feita depois de um ataque russo ter matado cinco pessoas e feito 40 feridos em Dnipro, um reflexo das dificuldades que a Ucrânia continua a ter no que toca às capacidades defensivas. Porém, o mesmo não se pode dizer das capacidades ofensivas — como provam, aliás, os ataques a Tuapse e a outras refinarias. A aposta na indústria militar ucraniana e os recentemente desbloqueados apoio financeiros da União Europeia (UE) permitiram à Ucrânia consolidar um equilíbrio de forças com a Rússia no campo de batalha. Não quer isto dizer que a Ucrânia tenha começado a “ganhar” a guerra — mas já não está numa clara desvantagem.
“Eles não têm tempo para a Ucrânia.” O passo atrás dos EUA, da ajuda militar à mediação
“Estamos preparados para continuar a ajudar através de iniciativas como o PURL [Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia, um programa da NATO], mas este apoio não deve depender de contribuições significativas dos EUA”. O aviso dos Estados Unidos à Ucrânia foi deixado de forma bem clara com estas palavras, ditas pelo sub-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Elbridge Colby, durante um encontro do Grupo de Contacto de Defesa da Ucrânia, mais conhecido como grupo Ramstein, no passado dia 15.

O passo atrás dos Estados Unidos no apoio militar a Kiev tem vindo a impor-se ao longo dos últimos 15 meses, sob a administração de Donald Trump. Em relação a 2024, a ajuda militar de Washington em 2025 sofreu uma queda de 99%, segundo dados do Kiel Support Tracker, que monitoriza o apoio internacional à Ucrânia. Mas em 2026 os EUA retraíram também a sua intervenção diplomática no conflito, depois de o ano de 2025 ter sido marcado por repetidas reuniões, propostas e reviravoltas.
Na véspera do encontro do Ramstein, Zelensky lamentava precisamente a ausência de negociações com o enviado especial norte-americano, Steve Witkoff, e o genro do Presidente, Jared Kushner. “Eles estão em contacto constante com o Irão e não têm tempo para a Ucrânia”, afirmou o chefe de Estado ucraniano numa entrevista à estação alemã ZDF. Na verdade, o diálogo entre Kiev e Washington continua, mas a um nível mais baixo, sem a intervenção dos líderes das equipas de negociação e com a discussão de propostas como a de batizar uma porção do Donbass como “Donnyland”, em honra de Trump.
“[Zelensky] está numa posição completamente diferente no que toca à sua visão da América” em relação ao ano anterior, argumentou James Sherr ao New York Times. O analista do think tank Chatham House acrescentou que o Presidente ucraniano “perdeu 80% das suas ilusões” sobre a capacidade de mediação dos EUA e acredita agora que o fim da guerra “vai acontecer no campo de batalha, se sequer acontecer”.
Contudo, mesmo olhando exclusivamente para o campo de batalha, a Ucrânia precisa dos Estados Unidos para reforçar as suas capacidades defensivas, em particular os sistemas de defesa anti-aérea Patriot, que estão a ser muito utilizados pelos Estados Unidos no Irão. “Se a guerra [no Médio Oriente] durar mais tempo, vai haver menos armas para a Ucrânia”, alertou Zelensky, na entrevista à ZDF, em que se focou particularmente na falta dos Patriot. “Temos um défice tão grande neste momento, não podia ser pior”, rematou.

O apoio financeiro da “Europa incansável”, que se prepara para uma guerra prolongada
Ainda não passou um mês desde que Viktor Orbán perdeu as eleições legislativas na Hungria, mas Bruxelas — e Kiev — já puderam respirar de alívio. Na semana passada, sem o bloqueio que Budapeste tinha vindo a impor nas últimas votações, a UE conseguiu finalmente aprovar um apoio financeiro à Ucrânia no valor de 90 mil milhões de dólares. O valor permite à Ucrânia sustentar o esforço de guerra até ao final do ano, focando-se nas evoluções militares e não diplomáticas, destacou Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center, ao New York Times.
A esse valor somam-se ainda os 100 mil milhões alocados pela UE para a Ucrânia no orçamento do bloco para o período entre 2028 e 2034. “Isto vai dar resposta às necessidades financeiras ucranianas durante, pelo menos, os próximos quatro anos. A UE atirou a bola para o campo de Moscovo com a questão: pode a Rússia manter a guerra por mais quatro anos?”, escreveu Hlib Vyshlinsky, diretor do Centro de Estratégia Económica, em Kiev.
O apoio de Bruxelas está enquadrado numa mudança de posição mais abrangente e que está em sintonia com os Estados Unidos (algo cada vez mais raro, dada a fricção entre Washington e os aliados europeus): a Europa tem de assumir sozinha a sua própria segurança e da Ucrânia, sem depender dos aliados do outro lado do Atlântico. David Ignatius, antigo correspondente do Washington Post, descreve que o enraizamento desta nova posição estimulou um clima “animador” na Ucrânia. “Este é um sítio onde os tipos bons estão a ganhar — ou pelo menos a aguentar-se. E estão a sobreviver com a ajuda de uma Europa incansável em vez de uns Estados Unidos em retirada”, escreveu o jornalista e autor numa coluna de opinião.

A análise dos especialistas vai ao encontro dos relatos que diplomatas europeus fizeram, sob anonimato, à imprensa internacional, em que avançam que a Europa está agora a apostar numa guerra de atrito muito prolongada, cuja prioridade é manter a Ucrânia à tona e vencer a Rússia pelo cansaço — até que Vladimir Putin desista de tentar obter mais território para lá de uma linha da frente praticamente congelada.
Nesse sentido, a Europa parece ter desistido dos esforços de pôr fim à guerra pela via da negociação. No mês passado, Paris ainda tentou entrar em contacto com Moscovo, que recusou a intervenção francesa por “não trazer nenhum sinal positivo”, segundo Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin. O argumento francês terá sido que, na qualidade de aliado de Kiev, os europeus tinham direito a um lugar à mesa. “A resposta dos russos foi basicamente ‘Desculpem, na verdade não têm, vão-se lixar'”, relatou por sua vez um diplomata europeu com conhecimento do diálogo ao Financial Times.
O momento terá recentrado os esforços europeus. “A verdade é que a Rússia nunca levou [as negociações] a sério”, afirmou o ministro da Defesa alemão durante o encontro do Ramstein. “Por isso é que é ainda mais importante apoiar a Ucrânia”, rematou Boris Pistorius.
Com financiamento europeu e acordos com o Golfo, a indústria de drones de Kiev continua a crescer
A guerra tinha começado há já dois anos, a Alemanha ainda era governada por uma coligação de centro-esquerda e os Estados Unidos liderados por Joe Biden. Foi neste contexto que a imprensa norte-americana, citando responsáveis anónimos e relatórios internos ucranianos, começou a dar conta de um problema na frente de batalha: Kiev parara de utilizar armamento guiado por satélite fabricado no Ocidente, por ser demasiado suscetível à interferência russa.
Quase dois anos depois, o problema mantém-se, mas a Ucrânia encontrou forma de o contornar: apostou na sua indústria de defesa interna e tornou-se uma potência à escala global na produção de drones, capazes de fazer frente aos sistemas russos. “Muitas das soluções mais relevantes — incluindo intercetores, capacidades de longo alcance, vários tipos de drones e sistemas de guerra eletrónica — estão disponíveis apenas na Ucrânia ou com custos mais vantajosos para os produtores ucranianos e para as empresas estrangeiras que operam na Ucrânia”, aponta Nataliia Shapoval, responsável do Instituto da Escola de Economia de Kiev, ao New York Times.
Este contexto ajuda a perceber porque motivo a UE tem apostado na entrega de recursos financeiros, mais do que na entrega de armamento à Ucrânia: o dinheiro pode ser utilizado para construir mais drones ucranianos que podem, efetivamente, atacar a Rússia, enquanto armas europeias não conseguiriam alcançar os alvos. Mas o sucesso da indústria ucraniana foi tal que ultrapassou as fronteiras do continente europeu.

Nas últimas semanas, Zelensky anunciou a assinatura de contratos com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar, que contemplam o envio de drones, a sua produção no país e a partilha de formação e de tecnologia para os operar. Uma vez que o Irão conta com o apoio da Rússia no seu esforço de guerra, o conhecimento ucraniano pode ser facilmente aplicado no Médio Oriente. O Presidente ucraniano sugeriu também aplicar a sua experiência com o bloqueio russo do Mar Negro ao bloqueio no Estreito de Ormuz. “Mas a América ainda não nos pediu ajuda”, notou na entrevista à ZDF.
Os acordos são financeiramente benéficos para a Ucrânia, que pode continuar a apostar na sua indústria interna e a alimentar a sua máquina de guerra sem depender da disponibilidade europeia. “Mas também é uma questão de imagem”, ressalva Orysia Lutsevych à New Yorker. “A Ucrânia quer mostrar que ‘Estamos na linha da frente da revolução tecnológica militar e somos o ponto de partida. Se tiverem acordos de segurança e parcerias de defesa connosco, vão estar mais seguros'”, elabora a responsável do fórum da Ucrânia no think tank Chatham House.
“Isso dá à Ucrânia uma vantagem enorme a nível global”, remata a especialista. Ao envolver-se diretamente na guerra no Médio Oriente, a Ucrânia consegue evitar ser “ofuscada” por esse mesmo conflito — tal com Zelensky temia que acontecesse.
A guerra de longo alcance: atacar refinarias, impor baixas e baixar o moral
O facto de os Estados Unidos terem deixado de olhar para a Ucrânia não significa que a ajuda — já de si reduzida — tenha parado. Pelo menos foi isso que garantiu Volodymyr Zelensky na semana passada, em declarações aos jornalistas. Contudo, os sucessos militares da Ucrânia estão principalmente ligados à estratégia que Kiev implementou no campo de batalha.

“Estamos a atingir o que é doloroso para a Rússia e está a ser muito doloroso”, acrescentou Zelensky, elencando os ataques às refinarias russas e a depósitos de armas como exemplo. A questão que importa explicar é que estes são ataques de longo alcance que, nos primeiros anos da guerra, a Ucrânia não conseguia fazer, tendo sido necessário desenvolver armas capazes de contornar os sistemas de defesa russos (que as armas ocidentais não conseguiam) a uma longa distância (que as armas ucranianas não conseguiam).
O balanço mais recente do Ministério da Defesa reflete o sucesso desta estratégia. Segundo os números de Kiev, no início da guerra a Ucrânia era capaz de atingir alvos a 630 quilómetros de distância, enquanto agora podem chegar aos 1,750 quilómetros. “Os 1.500 a 2 mil quilómetros dentro do território russo [depois da fronteira] já não são a ‘retaguarda pacífica’. O ‘pássaro’ ucraniano amante da liberdade voa aí quando e onde quer”, afirmou Robert Brovdi, responsável pelos sistemas de drones — os “pássaros” — do Exército ucraniano, à BBC.
Esta evolução na guerra permite alcançar três objetivos. Primeiro, atingir os alvos “dolorosos” para a Rússia, aumentando o custo do esforço de guerra. Por outro lado, impor o máximo de baixas possível ao Exército russo. “Se não os matarmos, eles matam-nos a nós. Isso é claro”, argumentou Brovdi, que diz, ao controlo dos drones, estar a executar “o maior massacre de inimigos da história da humanidade” e recusa ser “consumido pela pena” dos soldados russos.
Por último, os ataques de longo alcance permitem à Ucrânia atingir zonas russas e, como relatava o soldado ucraniano, obrigar a Rússia a enfrentar as consequências da guerra dentro das suas próprias fronteiras, baixando o moral nacional. Relatos de russos de Tuapse publicados nas redes sociais e partilhados pela imprensa ucraniana procuram ilustrar que a estratégia está a resultar. “Sr. Presidente [Putin], votámos em si, acreditámos em si. E, por um momento, estávamos realmente protegidos, tudo estava bem. Mas, a certa altura, tudo colapsou”, diz uma mulher num vídeo noticiado pelo Kyiv Independent.