O regresso de Pedro Nuno Santos ao Parlamento abriu o debate sobre as suas reais ambições políticas. Embora o antigo líder socialista assegure que regressa apenas para “ajudar a combater um Governo medíocre”, a sua postura incisiva — uma autêntica entrada a pés juntos sobre alguns socialistas — sugere pouco apetite pelo recato. Num cenário onde o regresso à liderança do PS parece um caminho bloqueado por más memórias ainda tão recentes, há quem lhe aponte a possibilidade de um projeto político próprio. Poderá a criação de um novo partido ser o próximo passo de quem tem especial apreço por este palco? Haverá espaço para isso à esquerda?
É, neste momento, uma ideia sobretudo hipotética, já que o próprio nunca falou dela e, quando foi questionado diretamente sobre isso, recusou-se a responder ao Observador. Quando se retirou do Parlamento, em outubro passado, para se dedicar à vida profissional na empresa da família, Pedro Nuno Santos não tinha nada disso na cabeça e era no PS que se enquadrava como político. Passados seis meses e o regresso ao Parlamento, onde reassumiu o seu lugar de deputado, um elemento próximo garante ao Observador que a ideia de o antigo líder do PS se aventurar com um novo partido “não está em cima da mesa”. A mesma fonte defende o regresso “legítimo” de Pedro Nuno a um lugar para o qual foi eleito há um ano e diz que o socialista regressa “livre” e com vontade de participar no combate à direita, mas no seu partido de sempre.
O próprio disse isto mesmo quando voltou ao Parlamento, mas nem por isso a ideia de uma nova força partidária saída das suas mãos deixou de ser falada. O ex-ministro da Cultura de António Costa, Pedro Adão e Silva escreveu um artigo no jornal Público, “O regresso estrondoso de Pedro Nuno Santos”, onde faz um exercício de antecipação política e diz que o próprio Pedro Nuno vai chegar à conclusão, “se for consequente com o que defende”, que o seu “posicionamento típico do populismo de esquerda”, o coloca perante um beco no PS em que a saída pode ser para outro lado.
“Um posicionamento típico do populismo de esquerda, como defendido por Pedro Nuno Santos e testado com insucesso noutras paragens” é “possível” e “viável” em Portugal, “mas não no espaço do PS, como demonstram os resultados com Pedro Nuno Santos ao leme.” Adão e Silva escreveu que “protagonizar esse espaço é politicamente viável, terá tração social e cultural, mas dificilmente poderá ser feito dentro do PS. Como Pedro Nuno Santos acabará por descobrir, se for consequente com o que defende estrategicamente”.
A ideia de um novo partido à esquerda do PS não tem, no entanto, tração entre antigos líderes e dirigentes da esquerda e especialistas ouvidos pelo Observador. “Julgo que nada disso faz sentido”, considera Eduardo Ferro Rodrigues. “Não tem viabilidade”, vaticina Francisco Louçã que usa a mesma formulação que José António Vieira da Silva na análise sobre a mesma possibilidade: “Não me parece nem que seja viável nem possível que outras forças venham a aparecer”.
“O país não ganhava nada com isso, já que em matérias essenciais seria um partido que estaria ao lado do PS”, considera o politólogo José Adelino Maltez que diz que o esquerdismo socialista teve sempre espaço dentro do próprio partido sem dramas . “O PS sempre teve memória jacobina e é melhor incluí-la no PS do que fazer experimentações, até porque não dá muitos votos”, argumenta em conversa com o Observador.
Ferro fala em “regresso diminuído” e no “tiro no pé” que seria fazer novo partido
O antigo líder socialista, Ferro Rodrigues, faz uma consideração crítica sobre o “regresso francamente diminuído” de Pedro Nuno Santos, considerando que nem isso “faz sentido”, “nem outro tiro no pé que seria tentar montar um novo partido. Para mim o populismo é da extrema direita, nunca de esquerda“, diz quando questionado sobre a existência de espaço para um novo partido à esquerda. Para Ferro, “o que se exige é firmeza nos princípios, causas e combates do PS pela democracia, o Estado de Direito, a desmontagem da aliança estratégica entre AD e Chega”.
Francisco Louçã, um dos fundadores do Bloco de Esquerda, rejeita o uso do termo “esquerda populista”, considerando a expressão “muito armadilhada”, já que “o único populismo realizado na Europa é o nazismo”. “O termo é armadilhado e é um perigo”, diz ao mesmo tempo que defende que “Pedro Nuno Santos nunca deu uma indicação nesse sentido” — da formação de uma nova força política. Quando confrontado com a ideia que está nas entrelinhas do artigo de opinião já citado, Louçã afirma que “mais parece uma estratégica adversarial em relação a ele [Pedro Nuno] dos seus opositores no PS”. Até porque, argumenta, “as suas declarações não suscitam essa ideia, mas o contrário: a convergência com José Luís Carneiro”.
De qualquer forma, também Louçã aparece pouco convencido sobre um partido nesta área política onde o único “sentimento” que diz verificar, nesta altura, é “para novas formas de convergência e dinâmicas novas” entre os partidos da esquerda que já existem. “Se alguém fundasse um novo partido seria facilmente visto como uma tentativa fútil”, argumenta acrescentando ainda a dimensão de impacto à esquerda: “Seria acrescentar fragmentação às dificuldades, acrescentar poeira” a esta área política.
Mas a ideia nem sequer é de hoje e já também já chegou a ser explorada, de certa maneira, por Daniel Oliveira, num artigo publicado no jornal Expresso em novembro do ano passado. Ainda que não fale num novo partido, o comentador antigo bloquista e fundador do Movimento 3D (que pretendia congregar a esquerda), aconselhou reflexão. “A erosão do PS apenas degradará o ambiente político para resistir. O futuro não é por aí. Nem Livre, nem PCP, nem BE, reduzidos a menos de 9%, estão, por si só, em condições de criar um polo popular que se bata pelo voto atraído pelo Chega”, escreveu o comentador que é próximo de Pedro Nuno Santos.
“Não sei, nem é isso que agora interessa, quem pode construir este polo e o papel de cada um destes partidos. Sei que não é partindo o PS ou unindo pequenas forças que lá chegam. É fazendo o que o Chega fez: ir para lá dessas contas, criando ‘novo’ eleitorado“, acrescentava, deixando no ar a necessidade de uma cartada fresca para salvar o campo da esquerda na sequência das perdas sofridas nos últimos atos eleitorais.
Semelhanças com Mélenchon, mas um choque decisivo com essa esquerda populista
O caso francês de Jean‑Luc Mélenchon, que rompeu com o PS francês em 2008 para fundar primeiro o Partido de Esquerda e mais tarde o movimento França Insubmissa, é por vezes citado como exemplo de uma fuga pela esquerda ao espaço socialista tradicional. E uma solução de refrescamento nesta área política. Mas o contexto francês – de um PS que estava em colapso – está longe da situação portuguesa, em que o PS continua a ser o núcleo da esquerda e, apesar da queda eleitoral estrondosa em 2025, segurou eleitorado nas autárquicas de 2025 e teve um antigo líder do partido eleito Presidente da República entretanto.
“A comparação com França é muito complicada“, avisa Louçã que detalha que Mélenchon “criou um partido radical num país radicalizado e quando havia um vazio do PS”. “Na altura em que a França Insubmissa se tornou a força mais importante da esquerda, o PS francês estava reduzido a 10%, não se compara com a dificuldade do PS em Portugal”, analisa num paralelismo direto entre as duas realidades.

José Adelino Maltez recua às origens para dizer que o “PS português não tem nada a ver com o francês, que quando se fundou implicou uma aliança entre vários socialismos”. “Em Portugal, Mário Soares era à esquerda às segundas, quartas e sextas e social-democrata às terças, quintas e sábados. Ele próprio exercia essa duplicidade, sem ela o PS não é o PS”, diz para sublinhar a importância da coexistência dentro do PS de uma ala mais à esquerda e de uma mais centrista. Além disso, o espaço à esquerda do PS parece já ocupado, em Portugal. “Espaço há sempre, mas essa função tem sido desempenhada pelo Bloco de Esquerda e por Rui Tavares, que também entrou nesta mesma zona”, refere o politólogo. “A natureza do PS sempre foi desta dinâmica interna e sofreu quando essa função começou a ser desempenhada pelo BE. Faz parte do jogo esta dialética no PS mas ninguém se aventura a uma dissidência”, acredita.
Quanto a eventuais semelhanças de perfil entre Pedro Nuno e Mélenchon, elas existem, mas também chocam e em pontos importantes, desde logo no posicionamento face à União Europeia. Os dois têm um estilo de intervenção direto e polarizador muito semelhante, ambos contestam uma esquerda morna e mais centrista e os dois protagonizaram (em escalas diferentes) frentes de esquerda: no caso de Pedro Nuno foi o pivot da “geringonça” de António Costa e Mélenchon enfrentou Macron, em 2022 e em 2024, com alianças que contribuíram para o sucesso da reafirmação da esquerda em França, através da Nova União Popular Ecológica e Social (que juntou a França Insubmissa, o PS, os comunistas e os verdes) — cujo porta-voz, na altura, até disse ter sido inspirada na “geringonça”.
Se há coisa que Pedro Nuno Santos reafirmou neste regresso — e agora que está solto de amarras eleitorais e da necessidade de passar um perfil mais controlado — é o posicionamento crítico face a um PS instalado no centrão. Mas mostrou-se conformado com essa diferença face ao líder que está em funções, quando sublinhou o que os separa e se afirmou “um social-democrata de esquerda, que defende um Estado forte. Não sou adepto, e nunca serei adepto, de nenhuma estratégia centrista”. E, ao mesmo tempo, revelou-se também confortável dentro do PS, partido em que milita desde a juventude (e no qual já ocupou praticamente todos os cargos) e onde sempre manteve um forte entrosamento com o aparelho. Logo aqui bem distante da ideia anti-sistema que Mélenchon cultivou para cortar com os socialistas, em 2008. Um mais rebelde, mas dentro das instituições, o outro contra as mesmas instituições.
Mas a distância maior está nos conteúdos em relação à União Europeia e mesmo à NATO. Mélenchon já defendeu a saída da França da NATO e é um crítico feroz da União Europeia. O líder da esquerda radical francesa é contra uma Europa “neoliberal” e os tratados orçamentais que impõem regras as estados-membros, defendendo até a desobediência. Já Pedro Nuno é um crítico de políticas concretas, mas parte de uma adesão estrutural ao projeto europeu — já lá vai o tempo em que, entre 2011 e 2012, assumia posições mais duras no PS contra as regras e as condições impostas pela troika e pelos credores europeus.
E a questão europeia não é de somenos em Portugal, “país fortemente crente nas virtudes da União Europeia”, como descreve Vieira da Silva que aponta este como um dos fatores que dificultam o aparecimento de uma frente de esquerda populista no país. “É um facto reconhecido que existe uma crise na metade da esquerda na generalidade dos países europeus e há sempre a possibilidade e outro tipo de alinhamento”, reconhece o socialista. “Mas em Portugal, pela importância do projeto europeu e do enraizamento local, não me parece que seja viável nem possível que outras forças venham a aparecer”, acrescenta.
A questão do “enraizamento local”, referido por Vieira da Silva, é a força autárquica do PS, um capital importante e a preservar. “A base territorial é um sustentáculo muito forte” para um partido, assinala o socialista. “Dá uma capacidade de atração muito difícil de contrariar”, diz. Esse poder implantado no terreno, a rede de lealdades e recursos, torna menos apelativa qualquer aventura de rutura. Até porque essa malha de autarcas e estruturas de base ajuda a fixar eleitores e quadros e dificulta o aparecimento de uma nova força, pelo menos, com escala nacional. José Adelino Maltez também aponta o mesmo factor de “representação no terreno” como dissuasor de uma rutura no PS. “Não me parece que em Portugal exista espaço” para a esquerda populista. Mas também avisa para a condição que pode abrir esse espaço: “Só se o PS falhar.”
[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]
