O Governo confirma que o corpo de Jerónimo Guerreiro, soldado português da Legião Internacional da Ucrânia que morreu em combate na guerra há praticamente um ano, ainda está por “identificar e recuperar”. À Rádio Observador, o Ministério dos Negócios Estrangeiros garante, ainda assim, que continua a acompanhar o caso e afirma que está a prestar todo o apoio à família do jovem de 23 anos. Já a mãe de Jerónimo Guerreiro, Cristina Jesus, desmente e queixa-se de falta de apoio das autoridades portuguesas: “Nem um telefonema, nada”.
O processo jurídico é complexo e pode levar 20 anos até ser resolvido. Em causa está a certidão de óbito: só pode ser emitida quando o corpo for identificado. Caso contrário, a família terá de esperar duas décadas para poder pedir a declaração de morte presumida, como explica o advogado Miguel Matias à Rádio Observador. Por outras palavras, do ponto de vista legal, Jerónimo Guerreiro continua vivo.
Miguel Matias adianta que esta declaração judicial “tem de ser requerida para o efeito” e explica o porquê do tempo de espera de 20 anos:
Para haver uma declaração de morte tem de haver uma certeza. E é este tempo longo que permite presumir a morte e declará-la como tal, para a produção dos efeitos jurídicos: de natureza civil, patrimonial, relacional”, explica o advogado.
Nestes casos, se a pessoa desaparecida estiver casada, o cônjuge continua casado, e não viúvo, durante estes 20 anos. Se tiver filhos, a lógica é a mesma: só depois desta declaração é que se tornam órfãos.
Jerónimo Guerreiro pertencia à Legião Internacional da Ucrânia, uma unidade militar de voluntários estrangeiros criada pelo presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky para lutar em defesa da Ucrânia. Antes de ir para o país, em 2024, o jovem português tinha sido militar paraquedista no Exército português e bombeiro voluntário na zona de Lisboa.
https://observador.pt/2025/06/01/soldado-portugues-morre-em-combate-na-guerra-da-ucrania-estado-assume-dificuldades-em-recuperar-o-corpo/
Morreu em combate, na zona de Kupiansk, no dia 29 de maio de 2025. Quase um ano depois, o Gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas revela que o corpo continua desaparecido.
O corpo do combatente português declarado como desaparecido em combate na Ucrânia ainda não foi identificado nem recuperado. O Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Embaixada em Kiev têm acompanhado o caso e mantido contacto ativo e permanente com as autoridades ucranianas”, lê-se na resposta enviada à Rádio Observador.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros garante ainda que a Embaixada de Portugal em Kiev “tem assegurado todo o apoio possível à família”, incluindo apoio psicológico. Foi mesmo sugerido o contacto com uma fundação norte-americana especializada no apoio jurídico a familiares de pessoas desaparecidas em combate. De acordo com a resposta enviada à Rádio Observador, esta fundação “apoia as famílias na recolha de provas documentais (relatos de outros combatentes, elementos descritivos ou videográficos) e/ou genéticas, bem como na abertura do respetivo processo legal junto dos tribunais locais, tendo em vista a obtenção de uma declaração legal que permita certificar o óbito”.
Família de Jerónimo Guerreiro desmente versão do Governo e queixa-se de falta de apoio e respostas
A mãe do soldado português que morreu na Ucrânia fala em “mentiras”, quando confrontada com a resposta do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Cristina Jesus garante que “há nove meses” que não é contactada pelo Governo ou pela Embaixada de Portugal em Kiev.
Afirma também que “passa a vida” a tentar contactar a Legião Internacional: “Ao início disseram que iam ver e que depois me diziam alguma coisa, mas nada. Nem uma mensagem ou telefonema”. À Rádio Observador, a mãe de Jerónimo Guerreiro revela também que pediu ajuda à Presidência Portuguesa, mas, uma vez mais, afirma que não obteve qualquer resposta.
A notícia de que um soldado português morreu em combate na Ucrânia foi confirmada por José Cesário, na altura secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. No dia 1 de junho de 2025, o governante adiantou que Jerónimo Jesus Alcaria Guerreiro morreu no dia 29 de maio do mesmo ano, enquanto combatia em Kupiansk, uma zona controlada pelos russos.
A informação chegou por vias não oficiais. A questão da recuperação do corpo torna-se neste momento muito difícil, mas contactei a mãe do jovem, a quem dei os sentimentos”, referiu na altura o governante à Rádio Observador.
Quase um ano depois, o corpo de Jerónimo Guerreiro continua desaparecido. O ministério de Paulo Rangel garante que vai continuar “a acompanhar a situação, mantendo o contacto com todas as partes envolvidas e desenvolvendo todos os esforços ao alcance” do Executivo.
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