Karim Bouamrane, presidente socialista da Câmara Municipal de Saint-Ouen-sur-Seine, um subúrbio de Paris, foi acusado de racismo e classismo após ter liderado uma campanha contra a cadeia de fast-food de frango “halal”, que segue os requisitos da lei islâmica no abate e processamento da carne, Master Poulet. Poucos dias depois da abertura do restaurante, a 11 de abril, a autarquia instalou blocos de betão para bloquear o acesso à entrada e justificou a medida com a alegação de que a cadeia não teria obtido as autorizações necessárias para operar na comuna.
“Em Saint-Ouen, recusamos permitir que uma empresa degrade as condições de vida dos residentes locais: entregas atrasadas, por vezes até às 2h da manhã, poluição sonora constante e odores que afetam quem vive nos andares de cima. A responsabilidade do presidente da Câmara é proteger a qualidade de vida dos moradores”, justificou o autarca numa publicação na rede social X.
https://twitter.com/karim_bouamrane/status/2048035164144521424
O autarca do subúrbio parisiense afirmou, na mesma publicação, que pretendia que todos tivessem acesso a “alimentos de alta qualidade desde muito novos” e que defendia o melhor para a sua comunidade. Na mesma mensagem, criticou os seus opositores, acusando-os de promoverem uma visão que confina os bairros da classe trabalhadora a um “colete-de-forças político, intelectual e social”.
Desde a abertura do restaurante, a autarquia não só bloqueou o acesso ao estabelecimento como também ordenou mais de uma dezena de inspeções ao local, relata o Le Figaro. No dia 14, foram colocados blocos de betão em frente do restaurante para impedir o acesso, antes de estes serem removidos por ordem judicial. Posteriormente, a Câmara Municipal voltou a agir, substituindo-os por vasos de flores de grande dimensão colocados à entrada.

Segundo Karim Bouamrane, o Master Poulet terá recorrido aos tribunais para obter autorização para a remoção dos vasos de flores instalados pela Câmara Municipal “no espaço público”. Contudo, uma decisão datada de 25 de abril de 2026, do juiz de processo sumário do Tribunal Administrativo de Montreuil, rejeitou o pedido apresentado pela cadeia para a retirada dessas estruturas. O tribunal considerou que a Câmara Municipal tinha legitimidade para proceder a estas “intervenções de embelezamento urbano”, confirmando o seu direito de atuar no interesse público.
“Na verdade, através de uma primeira sentença datada de 18 de abril de 2026, o Tribunal Administrativo já tinha reconhecido a ilegalidade do terraço com varanda instalado pelo estabelecimento. Na sequência desta decisão, a Câmara Municipal iniciou um processo sumário junto do Tribunal Administrativo, com audiência marcada para o dia 7 de maio, a fim de exigir a demolição desta instalação ilegal“, escreveu o autarca numa outra publicação na rede social X.
https://twitter.com/karim_bouamrane/status/2049110219230155129
“Para o ajudar a mudar de ideias, convidamo-lo a vir provar o melhor frango grelhado”
Entretanto, a cadeia de fast-food halal Master Poulet, com 50 filiais em França, afirmou que tentou contactar a autarquia de Saint-Ouen-sur-Seine, mas que não obteve qualquer resposta, segundo o Le Figaro. Em reação às declarações de Karim Bouamrane, o estabelecimento exibiu faixas nas quais acusa o gabinete do presidente da câmara de corrupção. “Karim, o dinheiro público não é para alimentar o teu ego”, refere uma das faixas, enquanto outra questiona: “Quanto estás disposto a gastar a brincar aos xerifes?”
A “batalha” entre o autarca e o restaurante de frango halal acabou também por se estender às redes sociais. A Master Poulet publicou na sua conta de Instagram um vídeo satírico, tratando-se de uma montagem gerada por inteligência artificial. Na encenação, o novo presidente surge ao comando de uma sala de crise, onde carrega num botão vermelho e desencadeia o envio urgente de caças para Saint-Ouen, que acabam por destruir o restaurante.
“Caro Karim, gostaríamos de o convencer a não ir tão longe. Para o ajudar a mudar de ideias, convidamo-lo a vir provar o melhor frango grelhado“, brinca a Master Poulet.
“Os ataques implacáveis contra a Master Poulet são totalmente ridículos, impregnados de racismo e desprezo de classe”
Após o autarca socialista ter feito da cadeia de fast-food um símbolo daquilo que pretende combater, defendendo a necessidade de “erradicar” este tipo de oferta nas ruas de Saint-Ouen, surgiram críticas políticas, com deputados e vereadores a acusarem-no de classicismo e racismo por bloquear o restaurante que vende frango halal, permitido para consumo por muçulmanos, com vasos de flores.
“Os ataques implacáveis contra a Master Poulet são totalmente ridículos, impregnados de racismo e desprezo de classe”, escreveu Nadège Abomangoli, deputada pelo departamento de Seine-Saint-Denis, do qual Saint-Ouen faz parte, citada pelo The Telegraph. “Recordemos que Karim Bouamrane não é presidente da Câmara da Reunião Nacional [de direita], mas sim do Partido Socialista”, acrescentou.
Também Eric Coquerel, outro vereador de Seine-Saint-Denis, acusou o autarca de tentar gentrificar a comunidade “com a ideia de favorecer lojas que oferecem preços inacessíveis para todos”, segundo o mesmo jornal. Escreveu uma carta a pedir às autoridades locais que interviessem e pusessem fim ao “assédio” do autarca ao empresário, classificando a ação como “abuso de poder”.