O depoimento de Elon Musk em tribunal, no processo que move contra a OpenAI e o seu CEO, Sam Altman, marcou o arranque de um julgamento que poderá ter impacto na forma como a inteligência artificial é desenvolvida, financiada e regulada. Numa sessão acompanhada por dezenas de jornalistas em Oakland, na Califórnia, o empresário acusou o rival de “traição” e de colocar a Humanidade em risco através de fraude corporativa.
“Fundamentalmente, penso que vão tentar fazer com que este processo pareça complicado, mas acho que é muito simples: não é correto roubar uma instituição de beneficência“, afirmou Musk perante o tribunal federal nesta terça-feira, sintetizando a tese da acusação, datada de 2024, de que Sam Altman e Greg Brockman abandonaram a natureza sem fins lucrativos da organização, utilizando indevidamente os cerca de 38 milhões de dólares que Musk diz ter investido. Em causa estão agora apenas duas das 26 acusações iniciais: violação de dever fiduciário numa instituição de beneficência e enriquecimento injusto.
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O julgamento, que deverá prolongar-se por cerca de um mês, começou com as alegações iniciais das duas partes. De acordo com a CNBC, o advogado de Musk, Steven Molo, pediu ao júri que deixasse de lado opiniões prévias sobre o empresário, descrevendo-o como uma “lenda no mundo da tecnologia” e defendendo que o caso é sobre “o benefício da humanidade como um todo”. Segundo Molo, sem Musk “não haveria OpenAI”, sublinhando o seu papel no financiamento inicial, no recrutamento de talentos e na definição da visão da organização.
Do lado da defesa, o advogado William Savitt rejeitou as acusações, classificando o processo como uma “campanha de assédio sem fundamento“. Perante o júri, o advogado da OpenAI argumentou que Musk nunca exigiu que a empresa continuasse exclusivamente sem fins lucrativos e que, na verdade, apoiou a criação de uma estrutura com fins comerciais, desde que mantivesse controlo sobre a mesma. “Estamos aqui porque Musk não conseguiu o que queria. Os meus clientes tiveram a coragem de seguir em frente e ter sucesso sem ele“, disse Savitt, acrescentando que o dono da Tesla abandonou o projeto quando percebeu que não teria esse controlo.
Após as alegações iniciais, Musk foi chamado como primeira testemunha, tendo dedicado grande parte do depoimento a traçar o seu percurso e a enfatizar o seu papel na criação da OpenAI. “Eu tive a ideia, o nome, recrutei as pessoas-chave, ensinei-lhes tudo o que sei, forneci o financiamento inicial”, afirmou, citado pela The Verge, numa declaração que provocou algumas reações na sala. Insistiu, ainda, que poderia ter criado a organização como empresa com fins lucrativos, mas optou por um modelo sem fins lucrativos “para benefício de toda a Humanidade”.
Musk sublinhou que abandonou o projeto depois de Sam Altman e Greg Brockman proporem a transformação da empresa numa entidade com fins lucrativos controlada pelos fundadores. “Achei que isso parecia injusto e inadequado“, disse.
O dono da Tesla e do X explicou também que a criação da OpenAI surgiu também como resposta à crescente influência da Google no desenvolvimento da inteligência artificial, relatando uma discussão com Larry Page, cofundador do Google, sobre os riscos da tecnologia. Segundo Musk, a conversa reforçou a necessidade de uma alternativa centrada na segurança e no interesse público, sem fins lucrativos.
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Durante o depoimento, Musk abordou, ainda, os riscos e potencialidades da inteligência artificial, afirmando que a IA pode “tornar-nos mais prósperos, mas também matar-nos a todos“. O magnata comparou o desenvolvimento da tecnologia à educação de uma criança e disse que os sistemas de IA poderão atingir níveis de inteligência equivalentes aos humanos já no próximo ano. “É como se tivéssemos um filho muito inteligente. Quando cresce, não podemos realmente controlá-lo, mas podemos tentar incutir-lhe os valores certos: honestidade, integridade, preocupação com o próximo. Ser bom, essencialmente”, explicou.
Fora do tribunal, no exterior, formou-se um pequeno grupo de manifestantes que usaram t-shirts com a frase “Stop AI”. Ao longo das próximas semanas, são esperados depoimentos de várias figuras de topo do setor tecnológico, incluindo o próprio Altman, Brockman e o CEO da Microsoft, Satya Nadella.