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As vítimas da democracia

A inépcia do Comité Organizador da marcha, que todos os anos permite à IL exibir marcas de vítima, pode resultar em alguns ganhos imediatos. Mas é filha de uma cultura em que não queremos viver

Carlos Maria Bobone
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Durante muito tempo, o Partido Comunista viveu dentro da democracia com um capital (os comunistas que me perdoem a má escolha da palavra) muito próprio. Vivia, não do que era, mas do que tinha sido. Toda a gente o sabe. O Partido Socialista, depois do confronto intenso, e com a bonomia do vencedor, tinha sempre o cuidado de frisar o respeito pelos combatentes anti-fascistas, e a história clandestina do Partido permitia que, enquanto por todo o mundo se associava o comunismo à repressão, a foice em Portugal pudesse ainda talhar um capítulo na História da liberdade.

O PCP aproveitou; o estatuto de vítima foi o escudo mais potente contra a pressão que, por toda a Europa, levou os partidos comunistas a aguarem o discurso, até se dissolverem definitivamente no meio da espuma social-democrata. Enquanto em Itália se ia do eurocomunismo à quase extinção, em Inglaterra o Partido Trabalhista abolia a Cláusula IV (que defendia a nacionalização dos meios de produção), Portugal tinha uma bóia de salvação, que permitia que o PCP se mantivesse comunista sem escândalo: quem clamava contra o capital não era um implacável soviético, era uma vítima.

Esta circunstância serviu alguns dos propósitos do Partido, permitiu que ele beneficiasse de uma indulgência excepcional, manteve-o vivo, para inveja de todos os comatosos convivas (mais uma vez, má escolha) da Internacional, mas também gerou efeitos inesperados. O Partido foi percebendo, com resignação, que não era mais forte do que a sua própria história. Pouco interessava o que dizia, Portugal ouvia-lhe sempre na voz os gritos de um torturado. Estava vivo, sim, mas insonorizado pelas vitrines de um museu. Queria ser um Partido ideológico, falar de colectivização, de propriedade, da opressão do lucro, mas ninguém o ouvia, porque nada disso entra nas possibilidades que um Partido tem para sobreviver na vida moderna.

O modo que os Partidos têm de mostrar que existem, num tempo em que os campos estão ocupados por casas de férias e as pessoas vivem em subúrbios, empoleiradas umas em cima das outras como galinhas de aviário, não vem de um contacto directo com gente que não tem comunidades; fazem-se ouvir por interposta pessoa, mediados pela televisão, pela internet, e nos meios de comunicação o que permite criar uma notícia é a novidade. A história é importante para que as pessoas continuem a ouvir falar dos partidos – é sempre possível acrescentar um ponto ao bordado, agora é o candidato bonitão no partido operário, depois o secretário-geral com ordenado de afinador de máquinas, e as idiossincrasias podem ir alimentando a história de abnegação, sacrifício, anacronismo, e outras canduras do mesmo jaez. A ideologia, porém, é sempre a mesma. Não se consegue criar notícia, nem fazer a máquina apitar para dar um sinalzinho de existência, com a informação de que o PCP tem reservas quanto à ideia de propriedade privada. Ser vítima tornou-se, assim, essencial para o Partido: foi a sua história, não a sua ideologia, que o manteve vivo muito para lá da esperança média de vida dos seus congéneres.

Esta ideia, de que a história acaba por ser o meio mais importante na relação dos partidos com os votantes, tornou-se mais complexa quando, na última década, começaram a surgir no espaço político português partidos que não a têm. Dentro destes, o caso da IL, que quando surgiu parecia um alfobre de publicitário cocainados, tal era o frenesim criativo, é especialmente curioso. A IL percebeu rapidamente que a mensagem que trouxe ao princípio, baseada na ideia simples de que se deviam pagar menos impostos, permitia umas quantas variações, mas não podia ser reciclada para sempre. Um Partido precisa de história, e a IL tentou desesperadamente criá-la, com o problema de nascer num tempo sem vítimas. A pergunta que todos os partidos fazem ganha mais interesse nestes partidos que só têm história neste tempo: como é que se pode ser vítima no tempo da democracia?

A IL tentou resolver o assunto. Primeiro inventou uns pais à força, com a história do Jaime Neves, quis reanimar umas datas mas, entre o deve e o haver destas lutas, percebeu, num dia específico, que só há uma história que praticamente não tem custos na opinião pública – e essa é a história da vítima, de qualquer vítima, vítima de qualquer coisa.

No primeiro ano, caiu-lhe a sorte grande nos pés, quando a inépcia do comité organizador permitiu transformar o desejo inócuo do Partido, de descer a Avenida no dia 25 de Abril, num episódio de resistência. A partir daí, tem feito render o peixe; às vezes com umas frases de ordem provocadoras a ver se algum destemperado se excede, outras vezes com umas indignações que, ao fim de uns quantos anos, já não soam muito verdadeiras, e todos os anos tem garantida a repetição da sua medalhinha de vítima.

Há que dizer, no entanto, que este pequeno frisson que se repete ano após ano pode acabar como acabou para o PCP. A IL – e não é só a IL, todos os Partidos se pelam por uma ocasião em que possam ampliar as suas marcas de sofredor, a IL apenas teve a sorte de garantir que todos os anos pode ir recolhê-las, com hora marcada – teve a dita de nascer num tempo especialmente propício para estes números. No afã de encontrar opressores e oprimidos, a esquerda conseguiu fazer da ofensa uma categoria omnipresente e com uma importância política absolutamente extraordinária. Na verdade, a IL não foi bem proibida de nada e marchou como queria marchar; mas o mundo que nos quis convencer de que as categorias mais fortes de opressão não são as que a lei materializa, de que há uma equivalência opressiva no acto e no discurso, é o mundo que permite criar estas quase vítimas que exploram os efeitos de palavras alacres como se de verdadeiros actos de censura se tratasse.

Talvez a IL ganhe com isso, como ganham todos os Partidos quando encontram uma oportunidade para gritarem contra a agressão e a ofensa. Talvez até haja ofensas verdadeiras. No entanto, o resultado deste mundo em que todos esperam ansiosamente pela oportunidade para se sentirem ofendidos, deitados na lama à espera que alguém passe e lhes dê um pontapé, será sempre um mundo mais triste, em que as graças se tornam ofensas, as perguntas se tornam ofensas, e talvez alguém ganhe com elas, mas o mais provável é que aconteça como com a inflação: se há excesso de moeda, a certo ponto ela não valerá nada.