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"O Diabo Veste Prada 2": uma continuação que é melhor do que o filme original

Vinte anos após o primeiro filme, "O Diabo Veste Prada 2" inclui na história a crise dos media tradicionais e do jornalismo, sem descuidar a moda e o "glamour". Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Eurico de Barros
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A certa altura de O Diabo Veste Prada 2, de David Frankel, a continuação do filme de 2006 também realizado por este, um multimilionário com muito mais dinheiro do que massa cinzenta e que se prepara para comprar o grupo que inclui a revista de moda Runway dirigida por Miranda Priestly (Meryl Streep), diz-lhe que um dia, no futuro, os locais físicos das publicações em papel, as suas redações, os seus jornalistas, já não serão necessários. E irão ser substituídos pela Inteligência Artificial (IA), que passará a fazer tudo.

Haverá quem se pergunte o que estão a IA e o futuro dos media tradicionais a fazer na continuação de uma comédia sobre a indústria da moda. Mas a verdade é que o combustível do motor narrativo desta parte 2 de O Diabo Veste Prada, de novo escrita por Aline Brosh McKenna, com base na continuação do livro original de Lauren Weisberger editado em 2013 é, precisamente, a crise que se abateu sobre a chamada “legacy media”, e o jornalismo e os jornalistas, na era digital. Vendas, tiragens, audiências e receitas publicitárias em queda, despedimentos coletivos e sucessivos que esvaziam as redações,  cortes profundos nos orçamentos, reestruturações radicais, caça desesperada aos cliques, diminuição drástica da qualidade jornalística e desleixo da exigência editorial.

[Veja o “trailer” de “O Diabo Veste Prada 2”:]

https://www.youtube.com/watch?v=2MRMJUTZkbE

Nem a sofisticada e influente Runway da lendária Miranda Priestly (a revista é inspirada pela Vogue e Priestly pela sua histórica diretora, Anna Wintour, que deixou o cargo o ano passado) escapou à dramática alteração do paradigma mediático. E quando rebenta um escândalo relacionado com um artigo desleixado e as redes sociais são inundadas por críticas e paródias ao título e a Miranda, o proprietário contrata Andy Sachs (Anne Hathaway), a antiga assistente dela e agora uma jornalista premiada — que acaba de ser despedida, com parte dos seus camaradas de redação – como editora de reportagens, para minimizar os estragos, enriquecer a revista e reforçar a sua credibilidade com artigos mais “sérios”.

[Veja uma entrevista com o quarteto de intérpretes:]

https://www.youtube.com/watch?v=4OVKHS87AsU

É curioso que seja um filme de entretenimento escapista como O Diabo Veste Prada 2 a trazer para a tela o tema do declínio da imprensa e da sua brutal reformulação, através da crise que também afetou a Runway, e que ao longo da intriga vai adquirir proporções aflitivas. O argumento fica pela rama sobre as razões dessa crise – não apenas o advento da Net e das redes sociais, mais também o facto de grande parte dos jornais e revistas de referência, incluindo títulos especializados, terem deixado de ser um contrapoder e passado a estar do lado dos vários poderes e interesses, políticos, financeiros ou mundialistas, e abraçado acriticamente as agendas woke e activistas —, mas isso seria pedir demais a uma fita com as características e os objetivos desta.

A inclusão de um assunto da actualidade no enredo de O Diabo Veste Prada 2, que afeta até o comportamento de Miranda e a forma como ela passa a olhar para o seu trabalho, para as mudanças no seu mundo profissional, e no mundo à sua volta, é feita à custa de algum sacrifício da componente de comédia satírica do filme original. Mas sobram mesmo assim inside jokes, pormenores, momentos e tiradas saborosas (no caso de Miranda, tem agora que ser ela a pendurar o casaco e já não o pode atirar para cima de uma assistente, a sua secretária pessoal zela para que não diga nada politicamente incorreto nas reuniões, e descobre, para seu grande espanto, que a revista tem uma cantina).

[Veja o realizador David Frankel falar sobre o filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=cowywuoBwAs

Além de Streep, que retoma, com uma perna às costas, a personagem da intimidante e imperturbável Miranda, e de Hathaway, a espalhar simpatia aos litros na firmemente “boazinha” e ética Andy, Stanley Tucci também regressa no papel do discreto e leal Nigel, tal como a divertidíssima Emily Blunt na pespineta e viperina Emily, agora uma diretora da Dior, que namora um ricaço e continua ressentida até à última potência com Miranda e Andy. E O Diabo Veste Prada 2 não descuida quem gosta de glamour, de moda e roupas, das marcas célebres e da indústria do luxo, e de ver os seus bastidores e nomes mais ilustres. Que voltam a aparecer no filme, e agora ainda em maior número do que no original, e aos quais se junta Lady Gaga a respigar com Miranda e cantar num sumptuoso evento da Runway em Milão.

[Veja uma sequência do filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=CGye7yQ3pok

Os responsáveis por O Diabo Veste Prada 2 podiam ter-se limitado a fazer uma Parte 2 preguiçosa, cautelosa ou mais ou menos reiterativa do primeiro filme. Ao centrar a história, mesmo que com a inevitável leveza, numa realidade do momento com ressonância social e global, conseguiram uma coisa muito rara: uma continuação que é melhor do que o original.