Ao ver, em Divina Comédia, de Ali Asgari, o realizador Bahran (Bahran Ark) atravessar as ruas de Teerão numa Vespa conduzida pela sua produtora, Sadaf (Sadaf Asgari), poderíamos pensar que se trata de uma piscadela de olhos a Nanni Moretti e a Querido Diário, dado que este filme, tal como Divina Comédia, é claramente autobiográfico. A alusão é possível. Só que, ao contrário de Moretti, que passeia despreocupadamente pelas ruas e avenidas de Roma, Bahran, que interpreta uma versão de si próprio, tal como Sadaf, sua sobrinha na vida real, não está nada despreocupado. Ele e Sadaf andam de Herodes para Pilatos na Vespa lilás dela, a tentar conseguir a necessária licença oficial para exibir o seu novo filme.
Barhan faz filmes de “autor” falados em turco, e os burocratas e censores do Ministério da Cultura só autorizam fitas em farsi, e se forem de entretenimento, melhor. O realizador bem pode expor todos os seus argumentos ao funcionário com quem vai falar. Este não se deixa demover e dá-lhe o exemplo do seu irmão gémeo Bahman (interpretado pelo gémeo do realizador, com o mesmo nome), cujas fitas são em farsi, e em vez de “intelectuais”, são comédias popularíssimas, politicamente inofensivas e dão muito dinheiro (como podemos ver pela casa de Bahman, quando o irmão o vai visitar – ironicamente, Bahman, que só filma pelo seguro, tem uma enorme fotografia de Godard numa parede).
[Veja o “trailer” de “Divina Comédia”:]
https://www.youtube.com/watch?v=4_lT1f079uM
Vendo que não conseguem nada com as instâncias oficiais, Barham e Sadaf vão então tentar exibir o filme sem autorização. Mas têm que encontrar um sítio, e pessoas de confiança que corram esse risco. Vão então falar com um ator que não pára de inalar cocaína, e com o dono de um cinema que não se cansa de gabar a qualidade da sala e do equipamento (logo depois apreendido pela polícia), acabando na luxuosa casa de uma senhora abastada que adora cães, e lhes cede um salão porque há um cãozinho no filme. No meio disto tudo, Barham é chamado a um bar da moda onde um homem misterioso e bem falante lhe faz várias ofertas de fitas com bons orçamentos e todas as facilidades de produção e rodagem, desde que ele desista de tentar exibir a sua nova obra.
[Veja uma entrevista com o realizador Ali Asgari:]
https://www.youtube.com/watch?v=l3juIA0HU60
Divina Comédia é uma sátira sarcástica, corajosa e estriada de nonsense aos constrangimentos, às coações, aos empecilhos e aos absurdos a que Ali Asgari, Bahran Ark, o seu irmão Bahman e os cineastas iranianos em geral – sobretudo os que não andam alinhados com o regime – estão sujeitos no seu país, e que abrangem também os atores. Sadaf Asgari, que costuma aparecer nos filmes do tio (este é o quinto assinado por Asgari) está proibida de trabalhar pelo governo iraniano desde 2022. Uma proibição que, como se vê por Divina Comédia, a atriz, de apenas 28 anos, desafia.
Esta fita jovialmente mordaz está pontuada de referências, sugestões e menções a filmes e nomes como Matrix (uma obsessão de Bahran quando era novo e que proporciona uma hilariante conversa entre os dois gémeos), Rocky, Bergman, Kiarostami ou até Woody Allen (há algo de allenesco na forma de Bahran se mexer, falar e se lamentar). Por vezes, Asgari prolonga demais os planos fixos e o ritmo é irregular, mas não é grave. E o clímax caótico deixa a conclusão de Divina Comédia “pendurada” entre o cómico e o ameaçador. O que, no caso deste filme que usa um tom leve e trocista para falar de coisas sérias como a censura de Estado, a pressão governamental sobre os artistas e a sua perseguição, intimidação e nulificação, faz sentido.