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Diogo Infante é o "capitão" deste "Clube dos Poetas Mortos" no teatro que quer pôr "gerações em diálogo"

Filme celebrizado por Robin Williams ganha adaptação no Teatro Trindade Inatel, em Lisboa. Estreia-se a 30 de abril e quase 30 mil pessoas já compraram bilhete. Falámos com encenador e protagonistas.

Andreia Costa
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“Oh, Capitão, meu Capitão.” O encenador Hélder Gamboa lembra-se perfeitamente do dia em que ouviu esta frase [tirada de um poema de Walt Whitman] pela primeira vez em Clube dos Poetas Mortos. Tinha 17 anos e estava algures em 1989 num dia de escola comum em Rio de Mouro, arredores de Lisboa. Com um furo para ocupar e uma cassete VHS do filme na mochila de um dos colegas, rapidamente decidiram o que fazer. “Fomos buscar aqueles armários de ferro com rodas, que tinham televisões pequenas com leitores VHS, e fomos para a biblioteca ver”, recorda ao Observador. Na altura nem terminou a história — porque tocou para a aula seguinte antes do final —, mas nunca mais a esqueceu e haveria de regressar a ela dezenas de vezes depois disso. “De repente, este filme ficou a habitar na minha alma e nunca mais saiu.”

Há quase três anos que está a preparar a adaptação para teatro em Portugal — o terceiro país, depois de França e EUA — e termina este ensaio corrido, como todos os outros antes, de lágrimas nos olhos. Não é o único. Os motivos podem ser vários: é possível que a peça vá repescar as memórias de adolescência, é certo que fará recordar a interpretação de Robin Williams; mas é também bem provável que provoque arrepios ao perceber como uma narrativa passada ficcionalmente em 1959 tem tantos paralelismos com a atualidade. E nem é preciso ter visto o filme ou conhecer minimamente a história para encontrar nela dilemas universais.

Clube dos Poetas Mortos, escrito para cinema por Tom Schulman e adaptado para teatro pelo próprio, tem como cenário um colégio interno só para rapazes. John Keating, antigo aluno, regressa como professor, usando a poesia e métodos pouco ortodoxos para incentivar os alunos a encontrarem o respetivo caminho e defenderem opiniões e escolhas. Para Hélder Gamboa, a história é “intemporal” e “talvez só não pudesse acontecer hoje por causa dos telemóveis e dos computadores”. “De resto, está lá tudo. Este caminho por onde estamos a ir, não só por cá, mas no mundo; estes jovens que estão a aceitar como verdadeiro e positivo tudo o que lhes é dado porque aparece no ecrã, mesmo que seja a maior patacoada que possa existir. De repente, aparece este Keating que diz: ‘Ponham tudo em causa, sejam livres e criem o vosso verso, o que vão fazer da vossa vida’.”

O encenador tem a convicção de que o tema é transversal a várias gerações e tem tido esse feedback mesmo antes da estreia, marcada para 30 de abril na sala Carmen Dolores. “Já tive avós a virem ter comigo para dizer que vão trazer os netos, há pais que querem que os filhos conheçam uma história que os marcou, etc.”

A peça estará em cena até 20 de dezembro e o que o encenador mais deseja é que estabeleça um diálogo. “Adoro a ideia de os pais trazerem os filhos para depois conversarem sobre isto. Há aqui um pai e um diretor que estão do lado da opressão, o lado cinzentão que não deixa voar. Eu, como pai, quero que o meu filho seja feliz, seja médico, seja ator, seja o que for, mas há muitos pais que ainda não pensam assim, querem que o filho tenha uma carreira, um canudo. Mas o que é que um canudo garante hoje em dia?”

A própria história de Gamboa foi feita com percalços, com o pai a pensar que ele iria seguir a área informática, que teria o futuro assegurado com o tal canudo. “Mas depois apareceu a palavra”, admite, que surgiu em forma de desafio do professor de filosofia — “era Carlos, dava-nos aulas na Escola Leal da Câmara, em Rio de Mouro, mas infelizmente não me lembro do apelido”. “Como éramos informáticos, ele disse: ‘Imaginem que na época dos Descobrimentos havia um informático com GPS. Agora escrevam uma peça a partir daí’.”

Não só escreveram a peça, como nasceu ali um grupo de teatro que continua a existir, a companhia TapaFuros. Por esta altura, já Gamboa sabia todos os diálogos de Clube dos Poetas Mortos de cor e desejava intensamente cruzar-se com um Keating. Por sorte ou superstição, aconteceu. “Chamava-se Luísa Sepico, professora de português na mesma escola. Estava a estudar informática e gestão, antes de haver Windows sequer, mas tinha o sonho de ser um contador de histórias. Foi graças a ela que avancei.”

O elenco é composto por Diogo Infante (o professor John Keating), Virgílio Castelo (o diretor) e Diogo Mesquita (senhor Perry, pai de um aluno). À experiência destes três nomes juntam-se Dany Duarte, Diogo Fernandes, Jaime Pinto Gamboa, João Maria Cardoso, João Sá Nogueira, Nuno Represas, Rafael Leitão e Rui Pedro Silva, todos na casa dos 20 e poucos anos. São eles o grupo de alunos que, em Clube dos Poetas Mortos, encontram numa gruta a privacidade e o conforto para desabrocharem e explorarem as respetivas ânsias artísticas.

Também esse detalhe fez com que este projeto fosse tão pessoal para Hélder Gamboa. “No meu grupo não tínhamos uma gruta, mas tínhamos a praia de Carcavelos, para onde íamos à noite com violas. Havia certamente poesia e muitas histórias e anedotas, além de música. Sentíamo-nos deuses à beira mar naquele infinito negro da praia”, recorda ao Observador.

Oh, Capitão, Diogo Infante

Diogo Infante é o capitão deste barco, mais precisamente John Keating, o professor de Literatura acabado de chegar ao colégio Welton, onde imperam rigidez e tradições bafientas sustentadas por quatro pilares: tradição, honra, disciplina e excelência. É verdade que não é possível não associar a personagem à avassaladora interpretação de Robin Williams no filme, é verdade que entramos na sala a pensar nisso, mas não é menos verdade que, passados dois minutos de termos Diogo Infante em cena, deixa de haver comparações. Este Keating é só dele, não por demérito de Williams, mas porque o ator português consegue criar uma personagem carismática e empática por direito próprio, com um charme discreto e uma energia para a qual todos gravitam, como se ele fosse um íman.

“O filme marcou-me quando o vi com 20 e tal anos, mas o truque aqui foi ir beber ao texto as pistas que ele dá deste Keating. Tal como deu ao Robin Williams, também me deu as características de humanismo e sensibilidade que o definem”, explica o ator ao Observador.

Porém, foi necessária muita reflexão até aceitar este papel. “Não foi uma coisa que procurei”, revela. Então, foi encurralado? “Mais ou menos. O Hélder e a equipa da Tenda Produções apresentaram-me o projeto tendo como condição que eu fizesse o papel.”

Hesitou, exatamente porque pensar em Keating era pensar em Robin Williams, mas como não é impulsivo, foi pensar. Quando percebeu que a peça estava em cena em Paris, França, meteu-se num avião e foi ver. “Vi de imediato que a adaptação funcionava e, por outro lado, senti muitas emoções ao ver o espetáculo”, admite.

Por essa altura já sabia que havia mais do que motivos para produzir uma versão portuguesa, mas ainda protestou relativamente ao seu envolvimento. “Eu até disse: ‘Acho que já não tenho idade para o papel’. Mas li o texto e voltei a encantar-me pela mensagem.”

Aceitou, o projeto avançou e deu-se um fenómeno que nenhum dos envolvidos antecipou. “Há sensivelmente um ano, quando anunciei a temporada, anunciei o espetáculo que estaria em cena durante três meses, três meses e meio, até 2 de junho. Era o que estava previsto. Imediatamente, a partir desse momento, as vendas começaram.”

Os bilhetes voaram de tal forma que Diogo Infante — que é o diretor artístico do Teatro da Trindade Inatel — teve de equacionar prolongar o período de Clube dos Poetas Mortos em cena. Foi o que acabou por acontecer e o calendário vai agora até 20 de dezembro, sendo que quase 30 mil bilhetes foram vendidos ainda antes da estreia. “Já fiz espetáculos de grandes temporadas, mas nunca esgotados com esta antecedência. Há pessoas nas redes sociais que me dizem que já compraram bilhetes para setembro e eu até tenho medo que me dê uma coisinha má [bate três vezes nas costas de madeira de uma das cadeiras da plateia]. É um voto de confiança, mas também é um cheque em branco. As pessoas podem conhecer a história, mas não sabem bem o que vêm ver, é uma grande responsabilidade.”

Não há a tentativa de transportá-la para 2026, mas também não é preciso. O que torna a peça atual são os sonhos, as conquistas, as batalhas e as perdas, que continuam a ser os mesmos. Pode ter mudado a forma de vestir ou de falar, mas as questões que atormentam os jovens a descobrirem a vida e os adultos confrontados com as próprias escolhas são exatamente iguais.

A cena de abertura tem um palco despido, apenas com a insígnia do colégio pendurada e um púlpito, ocupado pelo diretor que se lança num discurso de boas vindas que marca o início do ano letivo. Os alunos sobem ao palco, vindos do fundo da sala do teatro, e dois deles tocam gaitas de foles, que aprenderam precisamente para a peça. Quando a cortina sobe na cena seguinte, estamos perante uma biblioteca cujos painéis que simulam estantes com livros se mantêm praticamente inalterados durante os 90 minutos de espetáculo. No centro do palco há secretárias individuais que vão sendo reposicionadas consoante a necessidade, a mesa do professor e um quadro. Os outros cenários que a ação pede (como a gruta ou a casa de Neil) são recriados de forma inteligente, à frente do pano, eliminando o ruído visual de uma biblioteca imponente.

“Se como ator for igual ao outro, não tenho interesse nenhum”

Virgílio Castelo, o diretor austero e pouco dado à criativa e liberdade de expressão, demorou algum tempo a decidir como interpretar uma cena em que espanca um aluno, uma prática que era mais do que comum naquela época. “Esses comportamentos já não existem, pelo menos aqui na Europa, mas quis interpretá-la com mais violência do que propriamente isto teria na altura para fazer um statement. No fundo, para mostrar que estas pessoas que defendem a autoridade fazem-no sempre de uma maneira radical”, explica ao Observador.

Para ele, trabalhar com jovens a dar os primeiros passos na representação não teve qualquer entrave, pelo contrário. “No teatro, a transmissão do conhecimento é feita da mesma maneira desde há 500 anos. A aprendizagem é feita por observação e feita no convívio.”

Quando lhe pedem conselhos ou sobretudo uma aprovação do que estão a fazer, o ator revela ter alguma dificuldade em ser específico. “Não gosto de dizer a alguém como deve fazer. E o que eu procuro sempre é levar os atores mais jovens a perceberem uma coisa que às vezes é difícil em Portugal, que é: um ator, antes de tudo, é uma especificidade. Se eu, como ator, for igual a outro ator, não tenho interesse nenhum. Portanto, mesmo que admirem muito um ator, digo-lhes sempre para procurarem quem eles são.”

Quando o professor Keating começa a dar aulas a estes alunos, deixa uma marca, ainda que diferente, em todos eles. É um encontro que determina muitos percursos e essa é uma ideia que Virgílio Castelo consegue transportar perfeitamente para a vida real. “Tive um professor em Estrasburgo que dizia exatamente isso: a aprendizagem é feita de encontros. Há pessoas com quem nos encontramos e com quem aprendemos. Seja pela positiva, seja pela negativa. Mas determinam, de alguma forma, o percurso, a experiência. Eu aprendi com colegas que me trataram pessimamente. Isso, para mim, foi útil. Portanto, o que eu tento transmitir aos mais jovens é essa capacidade de irem bebendo tudo o que se está a passar.”

Do lado do elenco que interpreta os alunos ninguém tinha nascido ainda no ano de estreia do filme, 1989. Para escolher os atores, a procura fez-se praticamente de boca em boca. “Fizemos perguntas no meio sobre quem seriam os melhores atores desta geração. No casting participaram 30, não queríamos mais, se não ainda estávamos nessa parte”, diz Hélder Gamboa.

Rui Pedro Silva — que interpreta Neil Perry, uma das personagens mais vocais na sua rebelião contra o sistema e o que lhe está destinado — tinha visto o filme há seis ou sete anos na escola de teatro e escolheu não voltar a ele. “Queria criar uma identidade nova para o Neil e novas relações com as outras personagens”, diz.

Já João Sá Nogueira, que é o introvertido Todd Anderson, viu o filme há pouco tempo e uma única vez, mas garante não ter ficado condicionado. “Acho o texto tão pertinente e atual e, no que toca à minha personagem, acho que tem um arco tão bonito. Começa por ser uma pessoa sem autoestima para, no final, iniciar esta rebelião contra a instituição, o patriarcado e tudo o que está a reprimi-lo. E isso também me emociona, porque é um rapaz que está a contestar tudo.”

A admiração por Diogo Infante e Virgílio Castelo continua a brilhar-lhe nos olhos, mas garante que o que o surpreendeu mais foi a confiança que os dois veteranos lhes passaram. “Eles são estes vultos, mas confiam no nosso processo e deixam-nos explorar.”

Depois dos ensaios, os atores costumam ficar à conversa, têm criado um grupo fora do trabalho sem que isso tenha sido forçado. “Era suposto termos passado uns dias fechados no Convento de Cristo, em Tomar, sem telemóveis, sem rede, só a criar laços. Acabou por não acontecer devido ao temporal, mas eles têm-no feito de forma natural”, conta o encenador.

Passarem tantas horas juntos a ensaiar tem ajudado a criar um grupo coeso, mas garante João Sá Nogueira, nem sempre isso é um dado adquirido. “Por acaso deu certo, gostamos realmente uns dos outros e, acima de tudo, divertimo-nos nos bastidores. Isso ajuda a equilibrar a história, que é bastante pesada.”

Diogo Infante afirma que adora trabalhar com atores mais novos. “Aprendo muito com a espontaneidade deles”, diz. “O que é fantástico é que, quando estamos ali [em palco] não há idade, somos todos atores, colaboramos todos, mandamos bitaites. É evidente que olham para mim de uma forma específica porque tenho mais experiência, também me aconteceu a mim quando trabalhei com a Eunice [Muñoz] e o Ruy de Carvalho. Eles abraçaram-me e deram-me espaço para eu crescer, gosto de fazer o mesmo com estes miúdos.”

Há ideias novas e interpretações diferentes, mas o final de Clube dos Poetas Mortos, por mais que até saibamos exatamente qual é, continua a ser tão arrepiante e emotivo como no cinema. Muito porque, como deixa claro Diogo Infante, o texto é trágico. “No meio do final dramático, há qualquer coisa que podemos levar e aplicar nas nossas vidas. É uma conversa, uma discussão, que certamente pode juntar várias gerações, para as pôr em diálogo.”

O compromisso com este espetáculo está a ser bem maior para Diogo Infante do que estava previsto inicialmente, mas todos os dias o ator faz o exercício de se lembrar do propósito. “A verdade é que posso estar cansado, mas venho para aqui todos os dias e vejo coisas inspiradoras e bonitas. Sentir que isso pode tocar outras gerações de público, deixa-me feliz. Além disso, é uma mensagem muito importante por tudo o que se está a viver hoje em dia com uma série de retrocessos de conquistas, de valores, de direitos e de liberdades.”

Não é preciso ser mestre de adivinhações ou futurologia para conseguirmos prever sem grande margem de erro que, depois da estreia, a venda de bilhetes vai disparar novamente. “Começo a pensar o que é que faço se chegar a setembro e já tiver a temporada toda esgotada. Mas isso é um problema para depois. Um problema bom, obviamente.”

Para já, todo o elenco e equipa técnica têm um só objetivo em mente: não desiludir o público. “Mobilizamo-nos com energia e trabalhamos no rigor para todos os dias vivermos esta história como se fosse a primeira vez, porque cada pessoa que pagou o seu bilhete é isso que merece.”

“Clube dos Poetas Mortos”, com texto de Tom Schulman e encenação de Hélder Gamboa, está em cena até 2 de agosto de 2026, tendo uma extensão de temporada de 9 de setembro a 20 de dezembro de 2026. As sessões acontecem de quarta-feira a sábado, às 21h, e aos domingos, às 16h. Os bilhetes podem ser comprados online ou no Teatro Trindade Inatel. Custam entre 10 e 22€.