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Lições de Budapeste

Meloni não ocupará o lugar de Orbán no movimento conservador internacional porque os dois modelos são fundamentalmente distintos, distinções que devem ser motivo de profunda reflexão à direita.

André Azevedo Alves
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Afinal, a Hungria não era uma ditadura. Depois de 16 anos de Orbán no poder, o Fidesz teve uma derrota eleitoral clara numa votação livre e justa. A transição democrática e pacífica do poder na Hungria deve ser acolhida como uma mudança saudável depois de um longo período de governação por parte de um partido e do seu líder – que naturalmente gera desgaste, cansaço e, claro, vícios. Há aliás paralelismos vários com o que aconteceu em Portugal com o PS e António Costa entre 2015 e 2024 (Costa que, curiosamente, mereceu o apoio de Orbán para Presidente do Conselho Europeu, apoio esse que foi negado por Georgia Meloni).

Os resultados das eleições na Hungria devem motivar muita reflexão, tanto para os críticos mais ferozes do regime húngaro como para a direita “iliberal” orbanita. Relativamente ao primeiro grupo, vale a pena salientar o que resumiu Eric Zemmour: “A derrota de Orbán não é nem uma derrota ideológica, nem uma derrota política. O seu rival vitorioso vem do mesmo partido. Ele não é nem de esquerda, nem centrista. (…) O futuro nos dirá se ele cumpre as suas promessas de campanha e se continuará a ser o defensor da soberania do seu país. Peter Magyar venceu opondo-se ao poder sobre o favoritismo e a corrupção. Mas ele confirma todas as posições de Orbán sobre a defesa da civilização europeia. Orbán certamente salvou o seu país da invasão migratória e dos delírios woke da Comissão Europeia. Após ser tratado como um ditador por todos os meios de comunicação ocidentais, ele deixa o poder após uma derrota nas urnas. Como um democrata.”

De facto, não só Magyar fez toda a sua formação e trajetória política no Fidesz (entre 2002 e 2024), partido de que foi um dos mais destacados quadros até sair em ruptura com Orbán, em 2024, como é razoável afirmar que corporiza a intenção de um retorno aos princípios ideológicos centrais do próprio Fidesz. A revolta dos eleitores húngaros foi motivada principalmente pela percepção de que Orbán traiu os princípios com base nos quais conquistou e manteve o poder – e não contra esses princípios em si mesmos.

A direita iliberal fã (demasiadas vezes acriticamente…) de Orbán tem por isso também fortes razões para reflectir. Como bem sintetizou Gonçalo Nabeiro: “Orbán montou um regime – em democracia, é certo – iliberal (ou pós-liberal). Poderá parecer um oxímoro, mas a Hungria mostrou que é uma fórmula de poder que pode ser viável. Afinal, o Fidesz manteve-se no poder 16 anos através de eleições e, nas últimas legislativas que serviram como teste do algodão, abandonou-o tranquilamente. Com base nisto, é difícil de disputar que a Hungria é uma democracia. Mas é ao mesmo tempo iliberal porque dinamitou pilares sem os quais as democracias liberais colapsam: para além da colonização dos tribunais, colocando em risco o Estado de direito e a separação de poderes, o Fidesz colonizou também, seguindo a lógica gramsciana de hegemonia cultural, os media e a sociedade.”

Orbán não perdeu, no essencial, a batalha das ideias na Hungria – ele perdeu a confiança dos eleitores húngaros pela forma como abusou do poder. Além da questão central da corrupção, as principais diferenças entre Magyar e Orbán situam-se no domínio da política externa. Embora céptico relativamente ao poder centralizado em Bruxelas, Magyar deseja normalizar as relações com a UE e, acima de tudo, quebrar com a percepção de uma subordinação humilhante de Budapeste a Putin.

É certo que, no que diz respeito à interferência externa na Hungria, a própria UE também não fica nada bem na fotografia. Perante a (uma vez mais…) lamentável postura de Ursula von der Leyen, é impossível não indagar em que posição ficará a Presidente da Comissão Europeia caso o Rassemblement National conquiste o poder em França. Mas a verdade é que JD Vance, enquanto Vice-Presidente dos EUA, não era certamente o melhor agente para denunciar essa interferência externa – como fez em actos de campanha do Fidesz em Budapeste.

A derrota de Orbán marca também a derrota de um dois principais modelos de conservadorismo na política europeia actual, como bem analisa Juan Ángel Soto. Esses dois modelos partilham vários elementos ideológicos comuns – a crítica ao progressismo e ao wokismo, a defesa de uma abordagem mais restritiva à imigração, a preocupação com temas demográficos, culturais e educacionais – mas divergem na abordagem estratégica e, frequentemente, na política externa.

O primeiro modelo teve inegavelmente em Viktor Orbán o seu principal mentor e protagonista. Curiosamente, partindo de uma posição firmemente liberal clássica, Orbán evoluiu (?) para principal arquitecto de uma direita assumidamente “iliberal” que optou por desafiar radicalmente o consenso ocidental até então dominante. Simultaneamente, Orbán dedicou recursos muito consideráveis à construção de uma vasta e bem financiada rede internacional de promoção da sua agenda identitária e iliberal – com considerável (mas talvez precário) sucesso. No plano externo, este modelo de conservadorismo é acima de tudo pragmático e aposta num novo mundo multipolar – o que justifica a interacção (e por vezes articulação) próxima com actores geopolíticos como a Rússia e a China (em linha com a estratégia desenvolvida pelo influente Balázs Orbán).

O segundo modelo encontra em Giorgia Meloni o seu principal expoente. Igualmente conservador e igualmente crítico de muitos aspectos do consenso dominante, este segundo modelo tem diferenças estratégicas profundas e fundamentais com o primeiro. Mais reformista do que revolucionário – e sem rejeitar as instituições liberais no seu todo – Meloni procura redefinir e reformar o sistema a partir de dentro, através de uma combinação de pressão e negociação. Um bom exemplo disso mesmo é a forma como Meloni está a conseguir liderar a reorientação da política europeia relativamente à imigração. Também na política externa o contraste é evidente: Meloni mantém-se firmemente alinhada com os interesses de longo prazo da aliança transatlântica, sem prejuízo da afirmação de uma autonomia estratégica relativamente a quem ocupa a Casa Branca – como ainda recentemente fez relativamente à guerra contra o Irão ou à polémica entre Trump e o Papa Leão XIV.

Meloni não será candidata a ocupar o lugar de Orbán no movimento conservador internacional precisamente porque os dois modelos são fundamentalmente distintos. Mas essas distinções devem ser elas próprias motivo de profunda reflexão à direita. Em especial para quem se sente tentado a achar que os (bons) fins justificam o recurso aos (maus) meios. Citando novamente a excelente análise de Gonçalo Nabeiro: “E esta é a lição que os conservadores, europeus e americanos, devem retirar do legado de Orbán. O combate contra o Leviatã de Bruxelas e contra o wokismo deve ser visto como um meio para chegar ao objetivo final – um regime de liberdade ordenada – e não um fim em si mesmo. E para que a crítica conservadora à colonização progressista do Estado faça sentido e conduza a um mundo melhor e mais livre, os conservadores não devem transformar-se, quando têm acesso ao poder, num espelho da esquerda. (…) Porque, se assim for, andaremos todos à mercê de quem, em determinado momento, detém o poder; uns gostando mais, outros menos. E, com isso, acabamos por perder todos.”

Que não haja ilusões: são escolhas difíceis, especialmente em contextos nos quais a esquerda continua praticamente hegemónica culturalmente e na ocupação das instituições, mas a defesa sustentada e sustentável da liberdade ordenada não se compadece com atalhos “iliberais”, por mais tentadores que possam ser.