“Houve necessidade de ultrapassar a barreira do som“. Foi assim que a Força Aérea Portuguesa esclareceu o forte estrondo que se ouviu esta segunda-feira em vários concelhos do país, nomeadamente na Figueira da Foz, no âmbito de uma missão operacional de F-16M.
Vários moradores no concelho, assim como nos municípios vizinhos de Mira e Cantanhede, relataram ter ouvido um estrondo muito forte, descrito por muitos como uma “explosão”. O presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes, afirmou ter escutado um “estoiro enorme” e um “barulho estranhíssimo”, que o deixou assustado, questionando a ausência de explicações imediatas.
A Força Aérea entretanto garantiu em comunicado que este tipo de operações é essencial para “assegurar a prontidão e eficácia dos meios nacionais”, sublinhando que a situação esteve sempre controlada e não representou qualquer perigo para a população.
https://observador.pt/2026/04/28/forte-estrondo-ouvido-na-figueira-da-foz-foi-provocado-por-missao-da-forca-aerea-com-f-16/
A nota explica, ainda, que, devido a condições atmosféricas específicas, como “inversões térmicas ou variações na densidade do ar”, o som pode propagar-se de forma mais intensa, tornando o fenómeno “mais audível e abrangente que o expectável à superfície”, o que explica o raro barulho ouvido esta segunda-feira. Mas o que é a barreira do som? E que influencia tem em quem ouve?
O que é “passar a barreira do som”?
O coronel José do Carmo explica ao Observador que o fenómeno ocorre quando um avião ultrapassa a velocidade do som, cerca de 340 metros por segundo, embora este valor varie com a altitude e a temperatura. “É como se o avião deixasse de empurrar o som à frente dele e, de repente, o ultrapassasse”, descreve, originando uma onda de choque que se traduz no estrondo ouvido no solo.
Já Fernando Lau, professor de Engenharia Aeroespacial do Instituto Superior Técnico, esclarece que à medida que “um avião se aproxima da velocidade a que o som se propaga, o ruído do avião tende a ficar comprimido, aumentando a intensidade até gerar um estampido sónico“, capaz de ser ouvido a grandes distâncias.

Como se prepara para algo assim? A população deveria ser avisada antecipadamente?
A principal forma de proteção tem sido a prevenção, refere Fernando Lau ao Observador, explicando que, “desde há vários anos, que é proibido o voo supersónico de aeronaves civis sobre a Terra. Tal sucedeu durante todo o tempo do Concorde [avião comercial supersónico anglo-francês], onde este só atingia velocidades superior à velocidade do som quando sobrevoava o Oceano”.
Os dois especialistas consideram que a possibilidade de avisar as pessoas antecipadamente é limitada. José do Carmo diz que nem sempre a passagem da barreira do som é planeada e que pode acontecer durante os treinos, quando os pilotos aumentam a velocidade. “Não é algo definido ao ponto de se dizer ‘hoje vamos passar a barreira do som'”, refere.
O professor do Instituto Superior Técnico acrescenta que, no caso de operações militares, como a que esteve na origem do estrondo na Figueira da Foz, “a população nunca poderá ser avisada antecipadamente”, por se tratar de missões no âmbito da defesa nacional.
Há riscos para quem ouve?
Tanto Lau como Carmo afirmam que não existem riscos relevantes para a população. O coronel admite, porém, que o barulho pode causar algum “desconforto momentâneo”, sobretudo pelo susto, mas sublinha que o fenómeno ocorre a grande altitude.
Fernando Lau reforça que, na maioria dos casos, trata-se apenas de “poluição sonora”. Eventuais efeitos dependem da distância a que o fenómeno ocorre, mas não são esperados danos físicos.
Quais os esforços para os pilotos?
De acordo com José do Carmo, os pilotos não chegam sequer a ouvir o estrondo, uma vez que “estão dentro da aeronave”.
Fernando Lau explica que os principais desafios para os pilotos não estão diretamente ligados à passagem da barreira do som, mas sim às condições do voo, nomeadamente às “acelerações” e à necessidade de equipamentos específicos, como “sistemas de oxigénio”. Ainda assim, recorda ao Observador que os passageiros de aviões como o Concorde experienciavam o mesmo fenómeno sem necessidade de proteção adicional.
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