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O Fim da OPEP 

Bruxelas e Lisboa ainda discutem  “transição energética justa”; Abu Dhabi e Washington já perceberam a verdade nua: o petróleo não é um problema moral. É uma arma estratégica.

Bruno Fonseca Lobo
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Esqueçam os comunicados oficiais, as caras sérias em Viena e os eufemismos que  cheiram a óleo reciclado. Hoje, 28 de abril de 2026, os Emirados Árabes Unidos  fizeram o impensável: saíram da OPEP e da OPEP+ com efeito imediato a partir de  1 de maio. Não foi um “ajuste tático”. Foi um golpe de misericórdia executado com  a precisão cirúrgica de quem já não aguenta mais fingir que o imperador está  vestido.

Abu Dhabi, o aluno-prodígio que sempre cortou produção com disciplina  prussiana, cansou-se de “bancar o otário” num jogo onde o Irão atira drones como  quem atira confetti e a Arábia Saudita hesita como um jogador de poker com as  mãos trémulas. O Estreito de Ormuz transformou-se num campo de batalha real,  as quotas viraram algemas económicas e os Emirados olharam para o espelho:  “Porquê continuar a sangrar para manter vivo um cartel que já tem data de  validade?”

A resposta foi simples, brutal e deliciosamente moderna: saímos.

Riade acordou esta manhã com a ressaca de quem percebeu, tarde demais, que o  “irmão mais novo” cresceu, comprou a própria mesa de jogo e decidiu que já não  precisa de ceder o banco ao croupier. A OPEP+ já não é um cartel. É um chat de  grupo onde cada membro faz print screen das mensagens dos outros e ninguém  responde aos “bom dia”. O sonho da “família petrolífera” dissolveu-se como gelo no  asfalto de Dubai a 45 graus.

E aqui está o detalhe que ninguém quer dizer em voz alta: este divórcio tem a  assinatura invisível de Donald Trump. Não foi preciso um tweet. Bastou o regresso  da Realpolitik americana ao Golfo para lembrar a todos que, no século XXI,  segurança não se paga com quotas de produção, paga-se com barris baratos e  alianças que valem alguma coisa. Enquanto Bruxelas e Lisboa ainda discutem  “transição energética justa”, Abu Dhabi e Washington já perceberam a verdade nua:  o petróleo não é um problema moral. É uma arma estratégica. E quem a usa com  inteligência ganha.

Para nós, europeus periféricos, o soco vem em duas pancadas.

Primeira: curto prazo. Volatilidade selvagem. Os painéis LED das gasolineiras vão  piscar como casinos de Las Vegas e o Ministério das Finanças português vai voltar  a suar aquela transpiração fria que conhecemos tão bem.

Segunda: médio prazo. E aqui é que a coisa fica interessante.

Porque quando o cartel morre, o mercado renasce. Sem tetos artificiais, sem  disciplina de cartel, sem o teatro vienense de ministros a fingirem que controlam o  planeta. Cinco milhões de barris diários dos Emirados vão entrar no jogo sem pedir licença. O preço do barril vai cair. Não um bocadinho. Vai cair como um castelo de  cartas num dia de vento. E a grande utopia verde europeia, essa construção de  subsídios, proibições e virtude performativa, vai ter de olhar de frente para o seu  maior inimigo: petróleo barato, abundante e produzido por gente que colocou o  interesse nacional acima de qualquer sermão climático.

A OPEP não morreu de velhice. Morreu de irrelevância. Morreu porque o mundo real,  esse teimoso, continua a girar à velocidade da energia barata e da coragem política,  e não à velocidade das resoluções da ONU e dos relatórios da Comissão Europeia.

No final, o barril sempre falou mais alto do que as resoluções da ONU. Os Emirados  acabam de rasgar o contrato social do cartel e de mostrar que o futuro da energia  não se decide em cimeiras climáticas, mas em poços de petróleo e em vontades  políticas que não pedem autorização a ninguém.

O jogo mudou. E desta vez, ninguém pediu licença a Bruxelas.