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Diogo Costa, o capitão que viu tudo e decidiu ficar para voltar a ser feliz

Há anos que tem a saída em cima da mesa em todos os verões, mas há anos que vai ficando até se ter tornado o capitão que tudo viu para quase tudo reconquistar. Agora, volta a ter o futuro em aberto.

Mariana Fernandes
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“Este era o meu principal sonho. O sonho que me deixaria muito feliz, como um jovem realizado. E agora estou como capitão, o que ainda imaginava menos. Mas estou simplesmente muito grato pela história que fiz até aqui. E estou ansioso pelo futuro.”

Em dezembro, quando renovou contrato com o FC Porto até 2030, Diogo Costa disse o que qualquer adepto quer ouvir. Confirmou que ainda estava a cumprir sonhos, lembrou o passado, garantiu um futuro. A meio de uma temporada em que os dragões procuravam recuperar o ADN algures perdido, uma das últimas réstias desse ADN no plantel mostrava-se de pedra e cal e mantinha a camisola vestida. Algo que, entre verões e invernos, nem sempre esteve garantido.

Sete anos depois de se ter estreado na equipa principal do FC Porto, o guarda-redes português sagrou-se campeão nacional pela terceira vez – a segunda enquanto dono absoluto da baliza, depois de 2021/22, já que em 2019/20 era ainda o suplente de Agustín Marchesín. É a primeira vez, porém, que é campeão nacional com a braçadeira de capitão no braço esquerdo. Um dado que não esqueceu na tal renovação de contrato e que, depois das saídas de Pepe, Marcano e até Otávio, o tornaram o verdadeiro símbolo de um capítulo que terminou, mas que teve uma sequela na época que está prestes a terminar.

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Até porque, pela longevidade na baliza do FC Porto, Diogo Costa assistiu a tudo. Estava lá no Campeonato de 2019/20, com a pandemia e o confinamento pelo meio. Estava lá no Campeonato de 2021/22, o último de Sérgio Conceição, com uma equipa que tinha Vitinha, Fábio Vieira e Luis Díaz. Estava lá nas eleições que derrotaram Jorge Nuno Pinto da Costa e elegeram André Villas-Boas, na atribulada saída de Conceição e na travessia do deserto com Vítor Bruno e Martín Anselmí. Na chegada do inesperado Francesco Farioli, no adeus a Pinto da Costa, na traumática despedida de Jorge Costa. Diogo viu tudo e com vista privilegiada, a partir de uma baliza onde observa todo o campo do jogo e da vida, e manteve-se o que sempre foi para os adeptos: uma muralha.

Ainda assim, sofreu. A temporada passada, difícil para todo o FC Porto, também foi difícil para o guarda-redes português. As fragilidades defensivas da equipa que primeiro foi de Vítor Bruno para depois ser de Martín Anselmí deixavam a baliza mais desprotegida, mais suscetível a ataques do adversário e também mais visível. Diogo Costa sofreu mais golos do que o normal, cometeu mais erros do que o normal e mostrou-se mais inseguro do que o normal. Não chegou a ser colocado em causa no Dragão, mas a época pouco conseguida nos dragões abriu a porta a questões na Seleção Nacional. Roberto Martínez, porém, nunca deixou de confiar nele.

A chegada de Francesco Farioli, porém, tudo mudou – assim como a chegada de Jan Bednarek e Jakub Kiwior no verão e Thiago Silva no inverno. A defesa passou a ser o cartão de visita do FC Porto, com uma organização acima da média que faz com que os dragões tenham apenas 15 golos sofridos em 31 jornadas, menos cinco do que Benfica e Sporting. Mais protegido, com menos necessidade de ser o último guardião de uma equipa em apuros, Diogo Costa voltou aos índices competitivos e exibicionais de outros tempos e tem vindo a realizar uma temporada positiva e com vários jogos em que se tornou decisivo para as ambições do FC Porto.

O fantasma da saída, contudo, manteve-se presente. Fábio Vieira, Vitinha, Luis Díaz, Galeno, Nico González, Otávio, Francisco Conceição, Taremi e tantos outros foram saindo e o guarda-redes ficou sempre – até porque a cláusula de rescisão de 75 milhões de euros que carregava afastava eventuais interessados. Esteve na rota do Manchester United quando Ruben Amorim afastou André Onana, esteve na rota do Real Madrid quando Thibaut Courtois se lesionou, esteve na rota do Manchester City quando Ederson saiu e esteve na rota do Bayern Munique quando Manuel Neuer esteve afastado durante meses. Mas ficou sempre. E ficou ao ponto de renovar em dezembro.

A meio da temporada, Diogo Costa assinou um novo vínculo que o liga ao FC Porto até 2030. Mas o novo contrato é mais do que uma renovação: é uma recompensa que é também uma porta entreaberta. Com as novas condições, o guarda-redes português passou a ser o mais bem pago do balneário dos dragões, auferindo cerca de 2,5 milhões de euros limpos por ano, mas também viu a cláusula de rescisão descer dos 75 para os 60 milhões de euros. Ou seja, é agora mais barato levar Diogo Costa do Dragão.

Em fevereiro, numa longa entrevista ao The Athletic, o jogador de 26 anos abordou precisamente a possibilidade de uma saída já no próximo verão e depois do Campeonato do Mundo – e conseguiu manter o discurso habitual. “Não é nada mais do que um contrato. É apenas aquilo em que concordámos. Se ficar aqui até ao fim da minha carreira serei extremamente feliz todos os dias. Sei que todos os anos existem dúvidas sobre se fico ou vou, mas isso é parte da vida como jogador profissional de futebol”, começou por dizer.

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“Todos sabemos que a Premier League é uma das melhores ligas do mundo, se não a melhor. Se perguntarmos a qualquer jogador do mundo se gostaria de jogar na Premier League acho que nenhum diz que não. Sabemos que esta vida é muito frágil. Até certo ponto, ser um jogador de futebol hoje em dia é estar preparado para não passar a vida num único clube. Claro que pode acontecer, como no meu caso, mais é mais comum vermos os jogadores a sair. Claro que gostava de que o Vitinha ainda estivesse no FC Porto e podia dar inúmeros outros exemplos, mas não conseguimos segurar os melhores jogadores por razões financeiras. Mas venho de uma família de portistas e este ainda é um sonho tornado realidade”, acrescentou o guarda-redes, que nos últimos dias tem sido associado ao Liverpool no cenário da saída de Alisson.

Na sétima temporada completa no FC Porto, Diogo Costa é campeão nacional pela terceira vez e como o guarda-redes menos batido da Primeira Liga, preparando-se para levar toda a confiança de uma boa época para o Campeonato do Mundo, onde será um dos dados adquiridos do onze inicial da Seleção Nacional de Roberto Martínez. Depois disso, só o destino dirá o que acontece. Por agora, Diogo Costa ficou para recuperar o que já tinha conquistado.