Em pleno conflito do Irão e com a capacidade de exportação do Golfo Pérsico altamente condicionada, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a saída da OPEP, ao fim 59 anos de pertença ao mais famoso cartel do mundo.
O ministro da Energia, Suhail Mohamed-al-Mazrouei, justifica a decisão, efetiva a partir de 1 de maio, com uma reavaliação cuidadosa das estratégias de energia das potências da região. “É uma decisão de política e foi tomada após uma perspetiva cautelosa sobre as políticas atuais e futuras, relacionadas com a produção”, afirmou em declarações à Reuters. E que não foi previamente comunicada à organização cuja sede é em Viena, na Áustria.
Esta decisão traz à superfície divergências antigas entre os membros da OPEP que ganhou força na sequência do bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão que está a estrangular um quinto da oferta mundial de petróleo e gás e a economia dos países da região.
Há quanto tempo os Emirados eram membros da OPEP?
Não sendo membro fundador da organização — que foi criada em 1960 por cinco grandes produtores: Iraque, Irão, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela —, os Emirados Árabes Unidos (EAU) estão entre os mais antigos. Entraram em 1967 e têm estado entre os mais consistentes associados da OPEP.
Qual é o peso dos Emirados Árabes Unidos na OPEP?
Considerando o núcleo duro de 12 países que constitui atualmente a OPEP, os Emirados eram, no final do ano passado, o terceiro principal fornecedor de petróleo da organização, apenas atrás da Arábia Saudita e do Iraque. Em novembro de 2026 produziram 3,58 milhões de barris por dia, o que equivale a cerca de 12%. A sua produção era superior a países com mais reservas, como a Venezuela ou o Irão, mas cujas exportações estavam limitadas por sanções internacionais.
O peso era menor, considerando o grupo países que fazem parte da OPEP+ que inclui outros grandes produtores como Rússia, México, Cazaquistão, Omã e Azerbaijão. Os Emirados também vão abandonar este agrupamento, numa decisão que reflete uma política “alinhada com os fundamentais do mercado a longo prazo”, segundo o comunicado divulgado pela agência de notícas WAM.
O país está entre os dez maiores produtores mundiais, contribuindo com o fornecimento de 3% a 4% da oferta de petróleo.
Porque saem os Emirados?
O movimento de saída acontece depois dos Emirados terem criticado os parceiros árabes da OPEP por não terem feito mais para proteger as infraestruturas energéticas dos ataques do Irão. “Os países do Conselho de Cooperação do Golfo — uma organização política e económica regional — apoiam-se logisticamente. Mas no que toca ao apoio político e militar, a sua posição foi historicamente fraca”, afirmou Anwar Gargash, conselheiro diplomático do Presidente dos Emirados numa conferência esta segunda-feira. Os Emirados foram um alvo preferencial da retaliação do Irão que enviou mais de 2.000 mísseis e drones para a região.
Nas declarações à Reuters, o ministro da Energia sinalizou que o mundo precisa agora de mais energia, deixando no ar a possibilidade da rutura com a OPEP significar que o país está disposto a responder as essas necessidades. O principal objetivo da OPEP é controlar o preço do petróleo mundial, limitando a produção dos seus membros a quotas pré-definidas.
O Financial Times recorda que a frustração dos Emirados com o travão às exportações não é de agora. “Os Emirados não ficaram felizes por ter de restringir a sua produção quando queriam injetar mais petróleo e os sauditas queriam o contrário”, assinalou Firas Maksadm, diretor para o Médio Oriente do Eurasia Group. Saindo da OPEP, quando a produção e exportação normalizarem, os Emirados ficam sem amarras para poderem acelerar os investimentos na produção doméstica de energia.
Além da queda da produção de petróleo e gás, os Emirados têm construído importantes hub financeiros, imobiliários e turísticos (nomeadamente no Dubai), que estão a ser muito prejudicados pelo prolongamento do conflito.
O país é ainda o mais importante aliado dos Estados Unidos na região e a saída da OPEP está a ser vista pelos analistas como uma vitória do Presidente Donald Trump. Ainda no primeiro mandato em 2018, Trump acusou a organização de explorar o resto do mundo ao impor preços altos do petróleo. Mais recentemente tem associado o apoio militar americano aos países do Golfo com a oferta e a evolução dos preços do petróleo.
Qual será o impacto desta saída no mercado?
De acordo com o ministro da Energia, citado pelas agências internacionais, a saída do país da OPEP e da OPEP+ não terá um grande impacto no mercado por causa da situação que se vive no Estreito de Ormuz.
Depois do fecho desta passagem pelo Irão, a partir de março, a produção dos Emirados baixou em 1,3 milhões de barris por dia e as exportações afundaram 1,9 milhões de barris para menos de metade do normal. Ainda assim, os Emirados conseguiram contornar o estrangulamento em Ormuz com rotas alternativas, limitando as perdas. O último relatório da Agência Internacional de Energia sobre o mercado de petrolífero para março indica que o fornecimento de petróleo por parte dos países da OPEP+ afundou 8,1 milhões de barris por dia.
O petróleo estava a subir cerca de 2% no mercados de Londres para 110 dólares por barril, depois de conhecida a decisão.
Como fica a OPEP após esta saída?
Já outros países abandonaram a organização e os próprios Emirados já ameaçaram fazê-lo no passado. Mas a concretização do adeus definitivo que agora, em plena crise energética e da região, está ser encarado como um golpe para a OPEP e para o país que sempre deu as cartas na organização, a Arábia Saudita.
É uma saída que acontece num contexto de grande restrição à oferta petrolífera que vem da região do Golfo e um dos analistas ouvidos pelo Financial Times considera que o cartel vai ficar estruturalmente mais fraco. Em particular porque, sem os Emirados, a Arábia Saudita era o único membro da OPEP com capacidade adicional de produção, afirma Jorge León, analista da Rystand Energy e antigo funcionário da organização.
Por outro lado, outros membros podem seguir os Emirados. “Se há uma boa altura para sair é esta”, defende Robin Mills, presidente da Qamar Energy, uma consultora energética baseada no Dubai. O analista admite à CNN que o Cazaquistão pode sair também porque quer expandir o setor petrolífero, o que choca com a política de quotas da OPEP.
A OPEP controla 36% da produção mundial, mas a sua força nas reservas provadas é mais substancial, atinge os 80%.