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Como Adão perante a Máquina 

A inteligência artificial não nos torna deuses. Devolve-nos à condição mais antiga, a de  quem se senta diante do mundo e tem de saber pedir. 

Tiago Almeida Pinto
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Diz o segundo capítulo do Génesis: “Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos  os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os a Adão, para ver que nome  lhes daria; e o nome que ele desse a todos os seres vivos, esse seria o nome deles.” O  gesto sugere mais do que a frase deixa adivinhar, porque o Criador omnipotente delega  no homem o ato de nomear, ou seja, o ato de imaginar categorias, distinções, relações, o  ato de transformar o indiferenciado em mundo. Deus pode tudo, mas o mundo tal como  o conhecemos só existe porque alguém teve de o pronunciar em palavras. A dignidade  humana, nessa leitura antiga que atravessa Santo Agostinho, Tomás de Aquino e chega  intacta a pensadores contemporâneos como George Steiner, reside precisamente nesse  poder de nomeação, que é simultaneamente o limite e a glória da condição humana.

Esta passagem do Génesis lê-se de outra maneira hoje sempre que um profissional se  senta diante de um Agente de Inteligência Artificial, ou seja, um sistema autónomo que  executa tarefas complexas em nome do utilizador, e se descobre paralisado perante a  caixa de texto que pisca à espera de instruções. A dificuldade não é técnica, não é de  capacidade computacional, não é sequer de confiança na ferramenta, é uma dificuldade  anterior a tudo isso. Na prática, pode pedir-se quase tudo a um Agente moderno: que leia  trezentos relatórios e devolva uma síntese hierarquizada, que monitorize o  comportamento operacional de uma rede de estações ao longo de um trimestre e sinalize  anomalias, que redija uma primeira versão de um plano estratégico a cinco anos, que  negoceie por correio eletrónico com um fornecedor em nome da empresa, que construa  um painel de indicadores adaptado à forma como cada supervisor pensa o seu dia, etc. A  lista prolonga-se até onde a imaginação do utilizador alcança, e o problema é mesmo  esse, a imaginação. A fronteira deixou de estar na máquina e passou a estar no homem  que a comanda.

Quando George Steiner afirma que toda a criação é linguisticamente fundamental e que a  gramática que usamos determina o que conseguimos trazer à existência, está a apontar  para o problema adâmico, ou seja, relativo a Adão, que agora nos cerca em forma de  interface digital. A tentação contemporânea, amplificada por uma certa retórica entusiasmada do Silicon Valley, é dizer que a inteligência artificial nos torna deuses. A  frase é sedutora e vende bem em conferências, mas é precisamente o contrário do que  está a acontecer. A inteligência artificial não nos torna deuses, expõe-nos como Adão no  jardim, em pé diante de criaturas que só ganham existência útil se soubermos nomeá-las.  O utilizador paralisado perante a caixa de texto de um agente não está a ser confrontado  com os limites da tecnologia, está a ser confrontado com os limites da sua própria  linguagem, da sua própria representação do que é possível, da sua própria capacidade de  articular um desejo com a precisão suficiente para que ele se torne acionável.

Há aqui uma inversão educativa e cultural de enorme alcance, que ainda não penetrou nos  discursos oficiais sobre requalificação. Durante duas ou três décadas, fomos persuadidos  de que o futuro pertenceria aos que dominassem o código, os dados, a matemática aplicada, e organizámos em torno dessa premissa currículos, investimentos e políticas  públicas. A emergência dos Agentes está silenciosamente a desmentir parte desse  consenso. O que se torna escasso não é a capacidade técnica, que a máquina fornece em  abundância quase gratuita, torna-se escassa a capacidade de pensar clara e  ambiciosamente em palavras, de construir pedidos que sejam simultaneamente exatos e  imaginativos, de nomear problemas que ainda ninguém nomeou. As humanidades,  tratadas nos últimos trinta anos com uma condescendência de fim de festa, regressam  pela porta da frente como infraestrutura cognitiva da economia digital. Quem lê bem,  quem escreve bem, quem pensa devagar (e se isso ajudar a pensar melhor), quem  suporta a ambiguidade produtiva do pensamento articulado, dispõe hoje de uma vantagem  competitiva que não tinha há cinco anos.

A pergunta que se impõe deixou de ser o que consegue a inteligência artificial fazer por  nós e passou a ser uma versão moderna da pergunta que Deus colocou implicitamente a  Adão no segundo capítulo do Génesis: o que somos nós capazes de nomear? Que  problemas reconhecemos como problemas? Que possibilidades conseguimos formular  em palavras suficientemente precisas para as convocar à existência? Num mundo em que  a resposta é praticamente ilimitada, a pergunta passa a ser o recurso escasso, e a  qualidade da pergunta depende inteiramente daquilo que o ser humano conseguir pensar  antes de escrever. Os Agentes não resolvem a nossa pobreza imaginativa, mas tornam na visível com uma clareza brutal, porque a fronteira do que somos capazes de obter deles  coincide exatamente com a fronteira do que somos capazes de pedir.

O risco, nesta nova condição, não é o da substituição, como tantas vezes se escreve. O  risco é o de descobrirmos que, perante um poder quase ilimitado, continuamos a pedir a  mesma coisa que sempre pedimos, apenas por não termos aprendido a imaginar mais  longe.

Adão deu nome a todos os animais, e foi esse ato que o constituiu plenamente como  homem. A nossa geração tem diante de si uma oportunidade equivalente, a de aprender  a nomear o que ainda ninguém nomeou, num diálogo inédito com criaturas que  respondem ao que dizemos com uma literalidade que só a linguagem antiga dos mitos  conseguia prefigurar. Se a recusarmos, por preguiça ou por comodidade, a máquina não  terá falhado. Teremos falhado nós, pela razão mais velha que existe, por não termos sabido  nomear.