O Sudão moderno foi construído sob domínio colonial britânico, juntando populações muito diversas num mesmo Estado. O poder ficou concentrado nas elites árabes e muçulmanas de Cartum e do vale do Nilo no norte, enquanto periferias como Darfur, Kordofan e o Sul, maioritariamente animistas, cristãs e religiosamente mais plurais ficaram marginalizadas.
Desde a independência, em 1956, o Sudão tem sido marcado por ciclos repetidos de guerra, golpes militares e instabilidade continuada. Pouco depois da saída britânica rebentou o conflito entre norte e sul. Em 1972 foi alcançado um acordo de paz provisório, mas os combates regressaram e, entre 1983 e 2005, o país mergulhou numa segunda guerra civil particularmente devastadora. Em 2011, consumou-se a independência do Sudão do Sul, sem que as raízes estruturais da crise sudanesa tivessem sido verdadeiramente enfrentadas. No essencial, o problema do Sudão reside numa combinação persistente de má governação, exclusão política, apropriação de recursos por elites rentistas e militarização do Estado.
Após a queda de Omar al-Bashir, em 2019, militares e civis tentaram uma transição democrática. Essa esperança colapsou quando dois antigos aliados militares entraram em confronto direto: o general Abdel Fattah al-Burhan, líder das Forças Armadas Sudanesas (SAF), e Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, chefe das Rapid Support Forces (RSF). Desde abril de 2023, o país mergulhou numa guerra total.
O conflito sudanês deixou há muito de ser apenas interno. O Egito tende a apoiar as SAF, procurando preservar estabilidade na sua retaguarda estratégica e manter influência sobre o vale do Nilo. Os Emirados Árabes Unidos são frequentemente acusados de proximidade às RSF, motivados por interesses ligados ao ouro, às rotas comerciais e à projeção regional. A Arábia Saudita privilegia a estabilidade no Mar Vermelho e tenta impedir que o caos sudanês contamine uma zona vital para o comércio global. A Etiópia observa o conflito através da lente da rivalidade fronteiriça e da disputa hídrica do Nilo, procurando ganhos estratégicos. A Eritreia, por sua vez, inclina-se para o apoio às SAF como forma de conter a Etiópia e limitar a expansão de redes paramilitares hostis. Já a União Africana, a ONU e várias potências ocidentais tentam promover mediação, corredores humanitários e cessar-fogo, embora até agora com resultados muito limitados.
O Sudão tornou-se símbolo da maior tragédia humanitária contemporânea. Enquanto o mundo discute conflitos de elevada carga mediática e causas politicamente rentáveis para os hits das redes sociais, o Sudão vive uma devastação quase ignorada pelos órgãos de comunicação social internacionais. A guerra civil entra no seu quarto ano sem qualquer perspetiva séria de paz.
Um ano depois de o exército ter reocupado Cartum, grande parte do oeste sudanês continua sob controlo das RSF, sobretudo em Darfur, onde missões internacionais já identificaram indícios de genocídio contra comunidades não árabes, repito, indícios de genocídio contra comunidades não árabes.
Os esforços diplomáticos permanecem bloqueados, enquanto as acima referidas potências regionais continuam a ser acusadas de alimentar o conflito. O Sudão transformou-se assim num campo de batalha prolongado, sustentado também por interesses externos.
O custo humano é absurdo. As estimativas de mortos variam entre 61 mil e várias centenas de milhares. Esta incerteza é resultado do colapso do Estado e da dificuldade em recolher dados fiáveis. Cerca de 13,6 milhões de pessoas foram deslocadas à força, incluindo quase 9 milhões internamente e mais de 4 milhões de refugiados no Chade, Egito, Etiópia, Uganda e Sudão do Sul. Esta é frequentemente descrita como a pior crise migratória do mundo.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta o que a ONU classificou como a maior crise de fome do mundo. Cerca de 33,7 milhões de pessoas, cerca de dois terços da população, necessitam de assistência humanitária, enquanto 21 milhões vivem em insegurança alimentar aguda. Em Darfur e noutras regiões, comunidades inteiras estão em risco de inanição. Centenas de milhares de crianças sofrem de desnutrição severa e o acesso à ajuda continua bloqueado por combates, pilhagens e barreiras burocráticas.
O sistema de saúde está perto do colapso total. Mais de um terço das unidades médicas estão inoperacionais e a maioria dos hospitais foram destruídos ou saqueados. Nos campos de refugiados sobrelotados multiplicam-se surtos de cólera, dengue, malária e sarampo. O Estado deixou de funcionar em vastas zonas do território sudanês, onde as milícias substituem a autoridade e a lei desapareceu.
E, no entanto, não há flotilhas para o Sudão. Não há campanhas permanentes, nem mobilização global, nem indignação trendy nas redes sociais. Porque o Sudão não rende likes nem encaixa numa narrativa simples de “bons contra maus”. No Sudão acumulam-se fome, massacres e a maior catástrofe de refugiados do nosso tempo, mas reina o silêncio entre muitos dos indignados profissionais. Restam algumas organizações humanitárias, igrejas e ONG independentes a manter a atenção sobre a tragédia e a fazerem o possível para atenuar o sofrimento e a miséria.
Não há flotilhas para o Sudão e essa ausência expõe bem a seletividade daqueles que do alto da sua superioridade moral dominam o debate internacional das causas. Vocês sabem quem eles são.