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Seguro crítico da Administração Trump marca posição com 10 de junho a poucos quilómetros das Lajes

Presidente tem tido posições mais distantes do que o Governo em relação ao aliado EUA. Dia de Portugal perto das Lajes pretende marcar posição. Seguro já defendeu revisão de acordo de cooperação.

Rui Pedro Antunes
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António José Seguro tem defendido que o mundo precisa de paz em várias ocasiões, o que já lhe valeu, junto de adversários políticos, a alcunha de “miss mundo”. Mas, nas entrelinhas das palavras do Presidente, está uma demarcação da política seguida pela Administração Trump, numa posição que, de forma intencional, pretende ser mais crítica e distante do que a seguida pelo Governo de Montenegro. A escolha da Ilha Terceira para as comemorações do 10 de Junho não tem apenas como motivação assinalar os 50 anos das autonomias regionais, mas também ser uma afirmação da posição portuguesa, e da sua soberania, na ilha onde está localizada a Base das Lajes.

A base norte-americana motivou, aliás, o primeiro arrufo entre Seguro e o Governo em matéria de Política Externa. Ainda como candidato, no Debate da Rádio, o atual Presidente defendeu que o Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos devia ser “revisto à luz da nova geopolítica atual e das relações transatlânticas que mantemos e devemos manter com os EUA”. O agora chefe de Estado dizia ainda: “É preciso distinguir a nossa cooperação com os EUA da nossa relação conjuntural com o atual Presidente dos EUA, Donald Trump. São coisas distintas.”

Já depois da tomada de posse de Seguro e do início da Guerra do Irão, o ministro dos Negócios Estrangeiros afastava a revisão do acordo, mas desvalorizava, na Rádio Renascença, a dessintonia entre Belém em São Bento: “Sempre houve posições do Presidente da República diferentes da posição do Governo.” Paulo Rangel deixava, porém, um aviso ao Presidente: “São muito claras as esferas de competência de cada um. E a definição da política externa, obviamente, que é uma competência do Governo”. Ficava o aviso do Governo.

Quanto à Guerra no Irão, Luís Montenegro disse sempre, desde a primeira hora, que Portugal “não acompanhou, não subscreveu e não esteve envolvido nessa ação militar”. Mas o Executivo — quer pelo primeiro-ministro, quer pelo ministro dos Negócios Estrangeiros — evitou sempre expressões (como atropelos ou violação das regras do Direito Internacional) que pudessem ser lidas em Washington como uma crítica direta.

António José Seguro tem sido mais vocal nessa crítica aos EUA. Logo no discurso de tomada de posse advertia que se tinham desmoronado “pilares da nossa organização internacional” e que “a força da lei foi substituída pela poder dos mais fortes“. Acrescentava ainda que era necessário não desistir do “multilateralismo e da resolução pacífica dos conflitos internacionais.”

Quando foi anunciado o cessar-fogo no Irão, já em plena Presidência Aberta, Seguro deixava nova crítica velada aos EUA, ao dizer que uma coisa tinha ficado “muito evidente: que as guerras não são solução. Não resolvem os conflitos. Agravam-nos. E é precisamente a diplomacia e o diálogo que encontram soluções para que as pessoas possam viver me paz.”

Também no Dia do Combatente, na Batalha, Seguro voltou a reforçar que as tropas portuguesas têm a tradição de integrar missões “não para glorificar o conflito, mas para contribuir para a sua resolução. A presença de Portugal nessas missões é a presença de um país que acredita que a paz se defende (…) e que nenhuma nação pode ficar indiferente ao sofrimento humano.” Fica um aviso futuro de que, tal como Jorge Sampaio fez com o Iraque, Seguro estará particularmente atento à forma como Portugal irá intervir em conflitos onde estão envolvidos aliados como os EUA.

Dias depois, na sessão dos 50 anos da Constituição, o Presidente insistiu que o ADN de “nação livre” tem “uma vocação universalista e respeitadora do direito internacional.” Já na primeira visita ao estrangeiro, a Madrid, António José Seguro fez questão de se reunir com Pedro Sánchez, que é o grande crítico da atuação dos EUA, e, quando questionado sobre o que tinha conversado com o presidente do Governo espanhol, o Presidente português limitou-se a dizer que quis “compreender melhor o que são as dinâmicas na União Europeia e em termos globais, designadamente no âmbito também da NATO”.

Mas não ficou por aqui. No dia seguinte, quando Lula da Silva foi muito crítico de Donald Trump na residência oficial do primeiro-ministro, em São Bento, Luís Montenegro manteve a pose e nem sequer concedeu um sorriso ao presidente brasileiro quando este ironizou sobre dar o Prémio Nobel da Paz a Donald Trump para o presidente dos EUA iniciar mais guerras. Apesar de o encontro com Lula ser à porta fechada Seguro escreveria numa nota no final a dar conta que estava alinhado (“convergência” foi a palavra) com o presidente do Brasil na “defesa da paz, do desenvolvimento sustentável, do respeito pelo Direito Internacional, incluindo pelos direitos humanos e por uma ordem internacional baseada em regras.”

Quando Trump foi alvo de uma tentativa de ataque no jantar de correspondentes, António José Seguro manifestou a sua “solidariedade” com o “homólogo norte-americano” e defendeu que a “violência não tem lugar em democracia. Qualquer ataque contra as instituições democráticas ou a liberdade de imprensa merece forte condenação”. Esse apontameento de solidariedade nada tem a ver com o distanciamento, que é evidente, entre António José Seguro e Donald Trump.

Um 10 de Junho a cinco quilómetros das Lajes

A Ilha Terceira como palco (nacional) do 10 de Junho foi uma escolha pessoal de António José Seguro. Para celebrar os 50 anos das autonomias regionais, o Presidente podia fazê-lo em qualquer uma das nove ilhas, não precisava de escolher aquela onde há uma base dos EUA. Daí o simbolismo da escolha.

Uma fonte diplomática ouvida pelo Observador admite que pode “não fazer muito sentido” a escolha, tendo em conta que, se houver uma reativação da guerra, a cerimónia vai decorrer com movimentações militares muito próximas. A mesma fonte admite, no entanto, que “há uma perspetiva em que poderia fazer sentido, caso isso estivesse em causa, que era a afirmação da soberania no território“.

O Observador sabe que, o facto de decorrer perto da Base das Lajes, vai limitar a cerimónia militar, que deverá ser mais curta do que em anos anteriores. O grau de limitação também estará relacionado com a atividade que a base tiver na altura (que, por sua vez, depende da continuidade do cessar fogo). A atividade está bem presente. Ainda esta terça-feira soube-se que os EUA pediram autorização, válida pelo menos até junho, para passarem pelas Lajes quatro “drones assassinos” MQ-9 Reaper.

António José Seguro decidiu manter a tradição de fazer o 10 de Junho em dois tempos: uma parte em território nacional; outra no estrangeiro, junto da diáspora. Além da ida aos Açores (irá pouco depois, fora destas comemorações, à Madeira celebrar as autonomias), o Presidente da República estará também junto da comunidade portuguesa no Luxemburgo, onde esteve durante a campanha, em novembro. Para presidir às comemorações, o Presidente da República escolheu o Miguel Monjardino, que é professor de Geopolítica e Geoestratégia no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e analista politico-militar.