I. DO AMOR À VERDADE AO HORROR À VERDADE
«Que é a verdade?» — Pôncio Pilatos
Durante grande parte da história intelectual do Ocidente, a verdade foi considerada um bem — condição de liberdade e de ordem. Na filosofia grega, de Platão a Aristóteles, a verdade é entendida como realidade objectiva — as Formas em Platão, a inteligibilidade do real em Aristóteles — à qual o intelecto (logos) deve adequar-se para alcançar o conhecimento verdadeiro e a sua plena realização. Para o pensamento clássico, o conhecimento da verdade constitui o horizonte último do intelecto e identifica-se com o bem supremo, estando intimamente ligado à ideia de felicidade (eudaimonia).
A tradição cristã aprofundou esta concepção, conferindo-lhe uma dimensão existencial e pessoal. No Evangelho de João (18, 37-38), perante Pilatos, Jesus declara: «…Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.» E à pergunta céptica da epígrafe, do prefeito romano, Jesus responde apenas com o silêncio da sua própria presença. O conceito de verdade deixa, assim, de se apresentar apenas como categoria metafísica, para surgir como realidade viva, visível na forma humana de Deus encarnado, que interpela e reclama adesão.
Nessa senda, encontramos depois, em Agostinho de Hipona, uma verdade que ilumina e julga a interioridade, como possibilidade de unificação da alma: luz que revela a dispersão interior e chama ao regresso à unidade. Já em Tomás de Aquino, a verdade é definida como adequação do intelecto à realidade (adaequatio intellectus et rei), precedendo a vontade e orientando a acção moral. O erro desorganiza; a verdade, mesmo exigente, ordena.
Durante séculos, esta concepção de verdade não permaneceu circunscrita à esfera individual, sendo reconhecida, ao menos ao nível dos princípios, pela política, pela justiça e pela educação como critério normativo. Mesmo quando traída, a verdade conservava autoridade suficiente para ter de ser simulada: a hipocrisia era ainda uma forma indirecta de homenagem — à mulher de César não basta ser, é preciso parecer — e a consciência da mentira de alguma forma preservava, ainda que negativamente, o primado da verdade.
Mas essa autoridade, durante séculos apenas dissimulada, começaria, na modernidade, a ser progressivamente questionada — e, por fim, erodida.
II. DA RUPTURA MODERNA DA VERDADE À SUA EROSÃO CONTEMPORÂNEA
«Nein, gerade Tatsachen gibt es nicht, nur Interpretationen. » — Friedrich Nietzsche
(Não, não existem factos, apenas interpretações.)
A modernidade introduz uma inflexão decisiva: a verdade deixa progressivamente de ser entendida na acepção clássica de correspondência entre intelecto e realidade, passando a ser interrogada à luz das condicionantes históricas, sociais e políticas que a envolvem.
Com Friedrich Nietzsche, a ruptura assume uma dimensão genealógica: as verdades deixam de ser descobertas intemporais para se revelarem como cristalizações de interpretações que triunfaram — um conjunto de metáforas esquecidas como tal, sob cuja pretensão de universalidade se oculta uma vontade de poder.
Martin Heidegger radicaliza esta deslocação, interrogando a história da metafísica ocidental, que teria reduzido a verdade à mera adequação à realidade.
Michel Foucault, por seu turno, propõe uma leitura histórico-crítica através da noção de “regimes de verdade”: práticas institucionais e relações de poder que, através de mecanismos, instituições (escola, a universidade, a prisão) e discursos, em cada época, definem o que é considerado verdadeiro ou falso.
Se o período moderno problematizou conceptualmente a verdade, as sociedades ocidentais contemporâneas tendem, não tanto a negá-la frontalmente, mas a relativizar a sua centralidade.
Essa deslocação manifesta-se em múltiplos planos — psicológico, social, político e cultural — que, embora distintos, convergem numa progressiva desvalorização da verdade enquanto critério orientador da vida colectiva:
1. Vieses e dissonância cognitiva – Verdade versus identidade
«Mundus vult decipi, ergo decipiatur.»
(O mundo quer ser enganado; seja, pois, enganado.)
Aproveitando a tendência natural do ser humano para procurar informação que confirme crenças prévias (confirmation bias) e — como a psicologia cognitiva tem vindo a demonstrar — com o aparente fim de rejeitar dados geradores de dissonância, as sociedades contemporâneas parecem fragmentar-se em grupos relativamente estanques, que militam, não raramente com cego fervor, em torno de posições previamente assumidas.
São disso exemplo a forma como, em debates altamente parecem — como os que emergiram durante a pandemia de COVID-19 ou em torno de questões ideológicas ou identitárias — muitos indivíduos seleccionam informação recorrendo apenas a fontes susceptíveis de confirmar a posição adoptada, ignorando consensos científicos, recensões jornalísticas ou estudos académicos mais amplos.
Admitamos que os media contemporâneos, arvorados à condição de modernos lanistas, têm contribuído para a simplificação do debate público. Em vez da sua densificação, privilegiam frequentemente modelos de confronto, convocando para as suas arenas intervenientes de intransigente militância na defesa de posições previamente definidas.
Neste contexto, a disposição para o juízo crítico ou para a moderação tende a ceder lugar à afirmação categórica, tornando o espaço público menos propício ao contraditório e mais permeável à irredutibilidade.
A informação passa, assim, a ser procurada e filtrada pela crença, e não o contrário. Não se trata apenas de ignorância factual, mas de autopreservação identitária: a admissão do erro — e, com ela, a aceitação da verdade — implicaria uma revisão profunda da própria narrativa pessoal.
2. Necessidade de validação grupal – Verdade versus lealdade
«Überzeugungen sind gefährlichere Feinde der Wahrheit als Lügen. » — Friedrich Nietzsche
(As crenças são mais perigosas inimigas da verdade do que as mentiras.)
Desde há muito que a pertença a grupos — políticos, religiosos, culturais ou, mais recentemente, digitais — constitui um elemento central da identidade individual. Nas sociedades contemporâneas, porém, a pressão para alinhar com o grupo e sustentar o seu ideário tende a sobrepor-se, e frequentemente a prevalecer, sobre a evidência factual.
Disso encontramos crescentes exemplos em contextos polarizados, como os políticos ou religiosos, onde membros de um partido, facção ou movimento defendem afirmações manifestamente imprecisas ou factualmente incorrectas, ainda que contrariadas por dados públicos evidentes, apenas por se tratarem de crenças de natureza nuclear para o grupo ou terem sido proferidas por figuras de referência do seu campo.
O custo social da dissidência interna afigura-se, assim, frequentemente superior ao da distorção factual e perante tal conflito, observamos que o indivíduo tende a preservar a pertença em detrimento da verdade. A lealdade ao grupo sobrepõe-se à fidelidade ao real.
3. Recusa de limites – Verdade versus conforto psicológico
«Facts do not cease to exist because they are ignored. » — Aldous Huxley
(Os factos não deixam de existir só por serem ignorados.)
Há verdades que confrontam o indivíduo com limites materiais: económicos, como no caso da evidente escassez de recursos finitos; ambientais, como sucede em tantas situações — infelizmente crescentes — de degradação ecológica; demográficos, como aqueles que se prendem com o envelhecimento populacional ou com fenómenos de migração em larga escala; ou biológicos, atinentes às próprias condições intrínsecas da natureza humana.
Observa-se, por isso, em diversos debates públicos, à resistência emocional por parte de actores relevantes em aceitar dados que contrariem expectativas optimistas ou narrativas de natureza ideológica ou identitária. E tal recusa não se limita ao plano argumentativo, antes traduzindo-se, frequentemente, no adiamento de decisões e reformas estruturais cuja urgência é evidente, precisamente porque o reconhecimento do problema implicaria um custo imediato — material, político ou, pior, simbólico.
A verdade surge, neste contexto, não como uma realidade a interpretar e integrar, mas como uma ameaça ao conforto psicológico, perante a qual, ao invés de se aceitar, se opta pela recusa — ainda que à custa de um agravamento futuro das consequências daí decorrentes.
4. Apelo emocional no discurso político e mediático – Verdade versus emoção
«Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point. » — Blaise Pascal
(O coração tem razões que a própria razão desconhece.)
As campanhas políticas contemporâneas recorrem frequentemente a slogans simplificadores e a narrativas mobilizadoras, substituindo o debate programático detalhado por mensagens identitárias de forte carga emocional.
Sem necessidade de recorrer ao panorama nacional — onde exemplos não faltariam —, basta recordar o referendo do Brexit no Reino Unido, em 2016. Nesse contexto, análises económicas complexas competiam com slogans de elevada eficácia simbólica, como “Take Back Control”, cuja força mobilizadora se revelou incomparavelmente superior à densidade técnica dos dados. Dinâmicas semelhantes – algumas de clamorosa actualidade – são observáveis noutras realidades políticas, designadamente nos Estados Unidos, com palavras de ordem de análogas natureza e eficiência.
A emoção não simplifica, apenas; também mobiliza, enquanto a verdade factual, pelo contrário, exige tempo, contexto e disposição para a complexidade — recursos escassos num espaço público orientado para o impacto imediato.
O padrão repete-se: a emoção galvaniza; a estatística raramente entusiasma.
5. Sobrecarga informativa e exaustão cognitiva – Verdade versus saturação
«I have become comfortably numb. » — Pink Floyd
(Tornei-me confortavelmente dormente.)
O volume de informação disponível excede largamente a capacidade individual de processamento e verificação. Em momentos de crise ou de grande impacto — atentados, crises sanitárias, processos eleitorais — circulam, em poucas horas, milhares de mensagens com conteúdos frequentemente contraditórios.
Acresce que, na economia digital, as plataformas digitais de uso massivo operam segundo a lógica fundamental da maximização do tempo de permanência e da interacção dos utilizadores, pelo que conteúdos que geram indignação, choque ou medo tendem a difundir-se mais rapidamente do que análises equilibradas ou informação rigorosa e devidamente fundamentada.
A arquitectura algorítmica favorece, assim, o sensacional e o polarizador, não por uma intenção ideológica intrínseca, mas por imperativos de eficiência económica e a verdade tende a ser preterida em favor do que melhor capta e retém a atenção.
O fenómeno das fake news (contradictio in adjecto?) não radica apenas na mentira deliberada, mas também na saturação informativa – fala-se já em “infobesidade” – que inunda o espaço público. O excesso gera ruído, e este dificulta a distinção entre o verdadeiro e o falso.
Perante este cenário, muitos indivíduos adoptam um cepticismo generalizado — “nada é fiável” — ou, alternativamente, aderem, com crescente indiferença perante a verdade, às fontes que confirmam predisposições prévias. A saturação não conduz necessariamente a maior esclarecimento, mas – e será esta a ultima ratio do fenómeno – antes a uma forma subtil de desistência cognitiva.
Não se trata, já, de rejeitar a verdade, mas de desistir de a procurar. E se, até aqui, a sua erosão parecia resultar sobretudo de limitações humanas e dinâmicas sociais, o desenvolvimento tecnológico recente introduz um factor qualitativamente distinto.
6. Simulação tecnológica e manipulação do real – Verdade versus hiper-realidade
«Nous vivons dans un monde où il y a de plus en plus d’information et de moins en moins de sens.» — Jean Baudrillard
(Vivemos num mundo onde há cada vez mais informação e cada vez menos significado.)
O desenvolvimento recente de tecnologias de manipulação digital, designadamente os chamados deepfakes (perfeita hipérbole para uma verosimilhança perversa) introduz uma nova dimensão no problema contemporâneo da verdade: a possibilidade de fabricar evidência aparentemente irrefutável.
Muitos de nós temos vindo a ser confrontados com imagens, vídeos ou registos sonoros, tradicionalmente percepcionados como suportes privilegiados de verificação factual — e até como meios idóneos de prova — artificialmente construídos com um grau de realismo que desafia, se não inviabiliza, a distinção entre o autêntico e o fabricado.
Não se trata apenas de mais um instrumento de desinformação, mas de uma alteração qualitativa do próprio estatuto da prova: aquilo que se vê ou se ouve deixa de constituir garantia de verdade.
Neste contexto, a questão já não é apenas saber o que é verdadeiro ou falso mas saber a que critérios fiáveis podemos recorrer para os distinguir. As sociedades contemporâneas colocaram-se perante um problema de natureza meta-analítica: deixou de estar em causa a sua capacidade de contestar a verdade, mas a própria possibilidade de a distinguir. Quando o verdadeiro pode ser tecnicamente replicado com perfeita verosimilhança, a verdade, tornando-se estruturalmente vulnerável à sua própria simulação, perde relevância – e, com ela, valor.
7. Publicidade e normalização da distorção – Verdade versus persuasão
«In a world that really is topsy-turvy, the true is a moment of the false. » — Guy Debord
(Num mundo que está mesmo de pernas para o ar, o verdadeiro é um momento do falso.)
A publicidade contemporânea constitui um dos exemplos mais evidentes da banalização da distorção factual. Como observava David Ogilvy, “The consumer isn’t a moron; she is your wife” (O consumidor não é um idiota; é a tua mulher) — irónica advertência que, longe de eliminar a distorção, parece antes evidenciar a sua crescente sofisticação.
Longe de se limitar à valorização legítima de produtos ou serviços, a publicidade transformou-se, em muitos casos, num dispositivo sistemático de produção de mensagens cuja correspondência com a realidade parece ser, no mínimo, questionável.
Desde a apresentação de produtos alimentares como saudáveis, apesar de evidência em sentido contrário, passando pela artificial caracterização de bens de consumo ou até dos seus não comprovados benefícios a comunicação publicitária opera frequentemente numa zona intermédia entre a omissão, o exagero e a reconfiguração do real.
O aspecto mais relevante, porém, não reside apenas na existência dessa distorção, mas na sua aceitação generalizada. Longe vai o nosso sorriso complacente perante o dolus bonus da varina que apregoava “sardinha viva”. Hoje, consumidores e produtores participam, de forma tácita, numa espécie de ficção partilhada, na qual a veracidade cede lugar à valorização de uma enaltecida eficácia persuasiva.
A distorção deixa, assim, de ser percebida como desvio e passa a integrar a própria lógica do sistema. A verdade não é recusada — apenas se torna irrelevante. E, nesse contexto, a comunicação deixa de ser um meio de esclarecimento para se afirmar, claramente, como instrumento de influência.
8. Primado da ideologia sobre o dado empírico – Verdade versus ideologia
«The Party told you to reject the evidence of your eyes and ears. It was their final, most essential command.» — George Orwell
(O Partido mandou-te rejeitar a evidência dos teus olhos e ouvidos. Era a sua ordem final, a mais essencial.)
Em certos sectores da academia contemporânea, bem como no espaço público que com ela interage, observa-se uma tendência crescente para subordinar o dado empírico a construções de natureza ideológica, particularmente em matérias relacionadas com identidade, género, pertença cultural ou nacionalidade.
Sem pôr em causa a legitimidade do debate filosófico ou normativo — que importa preservar — a questão assume contornos mais exigentes quando categorias analíticas fundadas em disciplinas como a biologia, a demografia ou a geografia são reconfiguradas exclusivamente à luz de pressupostos ideológicos prévios.
O debate em torno de questões aparentemente elementares — designadamente as atinentes à definição de categorias fundamentais da experiência humana — ilustra bem este fenómeno: a dificuldade em alcançar consensos mínimos não decorre da ausência de conhecimento, mas da resistência em reconhecer a primazia de critérios verificáveis sempre que estes colidem com determinadas construções identitárias.
Nestes casos, não assistimos a uma mera refutação da verdade; antes, à sua reinterpretação ou deslocação para um plano em que a coerência interna da narrativa prevalece sobre a sua correspondência com a realidade empírica.
9. Tolerância à inverdade no discurso político – Verdade versus indiferença
«As compared with last year there was more of everything… except disease, crime and insanity.» — George Orwell, 1984
(Por comparação com o ano passado, havia mais de tudo (…) excepto doença, crime e insanidade.)
Um dos traços mais inquietantes das sociedades contemporâneas reside na crescente tolerância — quando não indiferença — perante a falta de verdade no discurso político.
Depois da generalizada aceitação do incumprimento de promessas eleitorais, fenómeno há muito conhecido e, em certa medida, estrutural à prática política, passámos a também a consentir na banalização de afirmações factualmente incorrectas, proferidas com uma segurança que roça o cinismo, e que raramente encontram consequências proporcionais no plano político ou eleitoral.
A reacção pública a tais desvios revela uma progressiva dessensibilização: a exposição repetida à inverdade gera habituação, e a habituação conduz à indiferença. A mentira deixa de escandalizar para passar a integrar o ruído de fundo do discurso público.
Mais grave ainda, essa indiferença não é neutra. Ao não penalizar a distorção factual, o espaço público passa a recompensar, directa ou indirectamente, a sua utilização como instrumento retórico. A verdade perde, assim, não apenas centralidade normativa, mas também relevância funcional no próprio exercício da actividade política.
10. Construção de modelos simbólicos e cultura da aparência – Verdade versus representação
«Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.»
— Álvaro de Campos
As sociedades contemporâneas revelam uma particular propensão para eleger como referências figuras cuja visibilidade não assenta necessariamente em mérito substantivo, mas na capacidade de captação de atenção e projecção mediática. Celebridades, influenciadores digitais, figuras do entretenimento têm vindo a afirmar-se como modelos aspiracionais, em particular junto das gerações mais jovens, assomando-lhes diaria e repetidamente à janela virtual.
Não está em causa a legitimidade do reconhecimento público do talento ou do sucesso. O que se observa, porém, é a progressiva valorização de representações cuidadosamente construídas, muitas vezes dissociadas da realidade pessoal ou das competências efectivas dos próprios. A identidade pública tende a transformar-se numa narrativa performativa, por vezes hiperbólica, ajustada às voláteis expectativas do público e aos mecanismos de visibilidade das plataformas.
Neste contexto, a aparência sobrepõe-se à substância. A imagem — artificialmente construída e frequentemente filtrada, editada ou encenada — adquire uma esmagadora primazia sobre a experiência vivida, e os sinais exteriores passam a valer mais do que os processos que os sustentariam. O resultado é a difusão de modelos que, não sendo necessariamente falsos em sentido estrito, assentam numa forma de representação que indelevelmente dilui a fronteira entre autenticidade e construção.
A cultura da visibilidade tende, assim, a privilegiar o que é exibível sobre o que é verdadeiro e, nesse processo, abandona-se a verdade como critério de referência, perante a crescente eficácia da mera imagem e a lógica crua da adesão.
Se, considerados isoladamente, estes fenómenos poderiam ainda ser entendidos como disfunções próprias de sociedades complexas, na sua convergência parecem indiciar algo de mais profundo e preocupante: não apenas a erosão da verdade, mas a transformação do seu próprio estatuto no espaço público.
III. DA EROSÃO DA VERDADE À ERA DA PÓS-VERDADE
“Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
Qualquer alma farão segura e forte;
Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,
Têm do confuso mundo o regimento.”
— Luís de Camões
Neste contexto multifactorial, emerge aquilo que foi designado como “pós-verdade”, termo amplamente difundido a partir de 2016 e associado a fenómenos como a eleição de Donald Trump ou o referendo do Brexit.
A pós-verdade não significa ausência de factos, mas a perda da sua centralidade normativa. A verdade parece ter deixado de ser horizonte comum para se tornar recurso estratégico, em que emoções, pertenças identitárias e eficácia comunicacional se afirmam como critérios decisivos.
Não nos encontramos perante um mero acidente moral, mas perante um fenómeno estrutural, alimentado por disposições psicológicas, incentivos tecnológicos e dinâmicas políticas. O “horror à verdade” não se manifesta apenas na mentira deliberada, mas na construção de ambientes onde a verdade se torna incómoda, secundária ou desvantajosa.
Se, para o pensamento clássico, a verdade ordenava o intelecto e a vida moral, e se a tradição cristã lhe conferiu densidade existencial e humana, a modernidade deslocou progressivamente esse centro, subtraindo-lhe a dimensão de fundamento estável para se tornar problema, interpretação ou construção. Tal deslocação trouxe ganhos — maior vigilância crítica e acrescida consciência histórica – mas, importa reconhecê-lo, também contribuiu para fragilizar o solo comum que sustentava a ideia de verdade como realidade partilhada.
A cultura contemporânea vive, assim, numa tensão paradoxal: reivindica a verdade — transparência, dados, provas — e, simultaneamente, resiste à sua autoridade quando esta impõe limites. O resultado não é apenas a normalização da mentira; é a erosão do estatuto normativo da verdade, que deixa de ser medida para se tornar instrumento.
A literatura, porém, pressentiu desde cedo este desconforto. Em Os Lusíadas, Luís de Camões celebra o heroísmo lusitano, mas não prescinde da denúncia incómoda, através do extraordinário Velho do Restelo, de uma certa embriaguez colectiva. A verdade assume ali a condição de limite — e, por isso mesmo, a dimensão de algo que poucos desejam ouvir.
Séculos depois, Fernando Pessoa escreve: «O mito é o nada que é tudo». A fragmentação do sujeito moderno traduz a dificuldade em habitar uma verdade una: multiplicam-se máscaras e perspectivas, e o drama deixa de ser apenas o erro de interpretação da realidade, para se tornar escolha entre uma multiplicidade dispersa de conteúdos.
A alienação contemporânea já não é apenas psicológica, mas também de natureza epistemológica. Deixou de estar em causa contestar a verdade, mas sim perder a capacidade de a escutar ou, até, de a compreender. A procura e o confronto cederam à anestesia e à dormência. O “horror à verdade” assume, assim, uma forma mais subtil: a indiferença.
Talvez, então, a questão decisiva não seja saber se pretendemos regressar a uma verdade primordial, una e íntegra, mas se estamos ainda dispostos a suportar o incómodo da sua exigente presença, que nos corrige e limita.
Importa questionar, particularmente face à complexidade geopolítica actual, se uma civilização, podendo sobreviver à ignorância e até à mentira, conseguirá sobreviver à indiferença perante a própria possibilidade de verdade. Talvez esta inquietação nos ajude a compreender por que razão, há dois milénios, alguém ensinava que o seu reino, o da Verdade, não pertence a este mundo.