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(A) :: As personalidades

As personalidades

Nós, as personalidades abaixo-assinadas, somos a favor de certas e determinadas coisas e somos contra o resto das coisas de um modo geral.

Vieira Barbosa
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Somos bastantes, somos notáveis e atentos, indefectivelmente progressistas. Sempre que as nossas assinaturas se põem umas em cima das outras, como tijolos de uma casa onde a verdade vive e se reproduz automaticamente, temos a ideia de sermos muitos. Conhecemo-nos uns aos outros mesmo que ninguém nos conheça. Entre nós há professores universitários (Portugal tem uma universidade que é a 230ª melhor do mundo!), há cientistas e cantores – Egas Moniz, prémio Nobel em 1949 que só por acaso não era de Lisboa, aquele jovem de voz fraca mas espírito tonitruante que ganhou a Eurovisão em 2017…, são apenas alguns representantes de uma longa lista de actividades em que os portugueses são especiais. Temos escritores, émulos de Saramago e António Botto, desportistas, actores e cineastas. E um ou outro anónimo que, não podendo por enquanto contar como personalidade, será recebido como um dos nossos tão cedo apareça na televisão.

Sabemos tudo o que há a saber, em grupo e melhor do que ninguém. A verdade existe entre nós, alimentamo-nos dela e é a nossa substância. As nossas ideias são de hoje, ou de sempre, depende, e por elas morreram inúmeros homens e mulheres – apenas alguns eram dos nossos, felizmente – e se inventaram canções. Tudo isso nos foi dito e explicado, e nenhuma dúvida nos ocorre que não seja esclarecida pela leitura dos textos. Deste modo, nós, as personalidades abaixo-assinadas, somos a favor de certas e determinadas coisas e somos contra o resto das coisas de um modo geral.

Somos a favor do 25 de Abril (“Abril sempre, fascismo nunca mais”), desde há muito tempo e segundo nos foi dito que devia ser. O 25 de Abril é também conhecido como o dia inicial inteiro e limpo e foi quando o fascismo acabou. O fascismo que também se pode dizer a longa noite do fascismo foi um tempo em que havia guerra em África, também havia muita pobreza e as pessoas eram perseguidas pelas suas ideias contra Salazar e não havia liberdade. Portugal tinha um crescimento acima dos outros países e até tinha recuperado muito do seu atraso mas tudo isso tinha sido conseguido à custa do trabalho das pessoas. O 25 de Abril permitiu que as pessoas passassem a trabalhar bastante menos – hoje, já só trabalham 35 horas por semana e ainda podem ter muitos dias de férias e de greves – e que pudessem viver dos justos subsídios de outros países onde as pessoas ainda não atingiram o mesmo nível de progresso e têm de trabalhar muito mais. Com o 25 de Abril o país passou a progredir, mesmo sem necessidade de todas as fábricas e indústrias em que os trabalhadores eram obrigados a trabalhar no tempo do fascismo e que foram, com toda a justiça, desmanteladas pelo povo em subsequentes dias sem descanso. E se for verdade, mas não é, que apesar disso Portugal se tem atrasado cada vez mais em relação a outros países da Europa é porque os outros países da Europa mantêm relações de trabalho antiquadas, próprias do capitalismo explorador, e se estão a desenvolver com demasiada pressa. Nós, os abaixo-assinados, somos contra a exploração capitalista (“abaixo a reacção”) e defendemos uma sociedade igualitária onde não haja ricos nem pobres ou, pelo menos, onde não haja ricos. O 25 de Abril trouxe a liberdade a quantos estavam nas prisões e deixou-as vazias – oportunamente, porque puderam acolher todos os que eram ou podiam ser contra a liberdade. Não mais ocorreram prisões de uma maneira discriminatória, quer dizer apenas pelas ideias de cada um ou às ordens de tribunais plenários. Com o 25 de Abril terminou o delito de opinião e foi possível prender todos os tipos de reaccionários independentemente de qualquer opinião. É possível que algumas dezenas de pessoas tivessem sido mortas mas, se isso aconteceu, foi porque eram fascistas – com a duvidosa excepção de um bebé de 4 meses – e porque terá havido um compreensível entusiasmo derivado da liberdade alcançada na tal madrugada inteira e limpa. Na realidade, essas mortes que dizem que aconteceram foram mais um dos crimes do fascismo, denunciamo-lo – se o 25 de Abril não foi uma revolução sem sangue foi porque a reacção quis com aquelas mortes manchar a festa do povo. Com o 25 de Abril acabou a censura. Mais nenhuma palavra, nenhuma frase, foi meticulosamente retirada de um texto progressista para o tornar irreconhecível e ineficaz. Com o 25 de Abril os autores foram atempadamente levados a não se expressarem de modo indevido ou, colocando-se por sua péssima vontade na condição de contra-revolucionários relapsos, removidos de lugares sensíveis – no que foi uma generosa opção preventiva maldosamente apelidada de saneamento e, mais modernamente, renomeada como cancelamento. E nós, as personalidades abaixo-assinadas, reafirmando o interesse de toda a liberdade que o povo possa compreender, defendemos o cancelamento de autores que não tenham opiniões correctas acerca de pessoas racializadas, minorias e famílias étnicas. Pugnamos pelo cancelamento de quem possa ofender por palavras ou expressões faciais portadores de nanismo, overweight (os antigos gordos, é a última vez que usamos essa palavra), homossexuais, jovens activistas e artistas de todos os géneros. E, tendo percebido nós que o seu discurso de ódio não é apenas deste tempo e fez, pela mão de escritores e poetas, um percurso de séculos, somos também contra a divulgação de livros sem a necessária contextualização, sem o comentário de um especialista, de um técnico habilitado à exegese de textos antigos, de um político credenciado ou, nem que seja, de um psicólogo.

Nós, os abaixo-assinados, somos a favor da constituição. É um texto um pouco longo mas assegura ao povo tudo o que há de bom e do melhor. Somos contra mais desvirtuamentos da constituição. Chega, ou melhor, basta, ter sido ofendida por sete vezes. Sabemos que os deputados são hoje menos progressistas e percebemos que os trabalhadores da construção civil não podem estar sempre em greve e a cercar o parlamento. Essa, que foi uma vigorosa mostra da vontade popular (“o povo é quem mais ordena”) e de são convívio, não arrefeceu nos nossos corações, de acordo com alguns de nós que têm mais jeito para a poesia, e sonhamos com novas lutas na rua onde o povo vive e canta, mais uma vez segundo os nossos camaradas poetas. Desses memoráveis dias de há 50 anos ainda resta muita coisa – o preâmbulo, que se mantém a abrir caminho para uma sociedade socialista, e a garantia, para todos os portugueses, de várias coisas que o capitalismo apenas prevê para aqueles que escraviza pelo trabalho. Nós, que temos constitucionalistas nas nossas fileiras, defendemos sempre a constituição. Não foram sete revisões que nos abalaram, ao princípio custou mas habituámo-nos – mesmo os nossos constitucionalistas – e lutaremos contra as próximas sete.

Somos a favor dos povos irmãos de África, agora a viverem em liberdade e sem a exploração do homem branco (“morte ao homem branco”). Defendemos que a descolonização foi exemplar, só quem nunca fez uma descolonização em 8 dias podia exigir mais e melhor. O vírus do neo-colonialismo, presente na sociedade portuguesa desde que o colonialismo terminou no 25 de Abril, refere que são países com muita corrupção, sem liberdade e com guerras que matam muito mais do que matou o Spínola ou o Marcelino da Mata. Isso não está provado e nenhum de nós, abaixo-assinados, estudou essa questão em profundidade. Na hipótese de ser verdade, defendemos que só pode ser pela nefasta herança colonial ainda presente na memória de todos os octogenários e filhos da guerra – uma herança devastadora que todos os dias os nossos irmãos africanos são obrigados a lembrar nos edifícios, estradas, caminhos de ferro, barragens, escolas, universidades e mais uma enormidade de tralha que o colono branco lá deixou. Somos, por isso, a favor de uma justa indemnização. Os cinco séculos de opressão e escravatura que Portugal exerceu sobre povos de África estão a revelar-se difíceis de superar, defendemos assim que milhões de euros sejam acrescentados aos diamantes, ao petróleo e, no caso da Guiné, aos proventos do comércio de substâncias que, em rigor, desconhecemos quais sejam elas mas que, acreditamos, não serão estranhas ao espírito da CPLP. Será uma operação morosa, mais do que foi a descolonização, mas necessária. As dificuldades em que vivem as populações daqueles países exigem que uma quantia avultada seja entregue nas mãos de João Lourenço e de Daniel Chapo (o caso particular da Guiné, onde o colono branco deixou semeada a discórdia e não tem definido o presidente em exercício esta semana, será mais demorado) acompanhada por uma nota de eterna culpa e o espírito aberto para a restituição de todos os artefactos africanos em Portugal.

Somos a favor de todas as comunidades que existem, em particular a comunidade LGBTQ+. Defendemos a existência dos 52 géneros já identificados, cada um deles com os seus direitos e a sua casa de banho se tal se revelar necessária ao livre exercício da diferença. Ressalvamos a possibilidade, que alguns de nós acarinham, de menorizar um género que é estranho pelas suas características discrepantes. É admissível que o cisgénero, sendo antigo e generalizado, possa sofrer de uma ancestralidade que se alheou do progresso da civilização. O cisgénero, tal como as relações baseadas na existência de anatomias, orifícios e almas complementares, seriam um reliquat de soluções aparecidas na natureza há milhões de anos, quando ainda não existia aquecimento global e os mamíferos, que andavam despidos, sofriam tentações e se reproduziam limitados a dois géneros. Quanto aos mais o consenso é total e apenas disputado quando um jovem deseja transformar-se por meios cirúrgicos. Ainda assim, predomina entre nós a absoluta convicção de que faz sentido mudar de sexo antes de se ter idade para votar, uma conveniência para as empresas de sondagem que fazem a distribuição por sexos nas suas estatísticas – de resto, uma metodologia redutora e que, esperam alguns de nós, seja em breve substituída pela distribuição por géneros.

Apesar dos progressos obtidos na desanimalização do homem primitivo temos, nós as personalidades, a consciência de que sem querer poderá resultar uma criança de qualquer relação convencional entre os antigos sexos. Poderá ser assim durante muito tempo, enquanto as relações entre géneros estéreis não limitarem o convívio humano ao usufruto da felicidade descomprometida. Por isso, somos a favor do aborto. Consideramos inaceitável e um exemplo de estagnação civilizacional que seja mais fácil fazer uma criança do que desfazê-la. E não nos atemorizamos com crendices sobre o mistério da vida. Acreditamos na vida quando olhamos para ela. Não a reconhecemos dentro de uma barriga sob a forma imperfeita de um agregado de carne que não respira, metida em água e a disputar um lugar no meio dos intestinos e dos epiplons.

Nós, as personalidades abaixo-assinadas, somos a favor de uma Palestina livre, do rio até ao mar, ampla e não privada daquele pedaço que Israel roubou ao deserto e aos palestinianos. Recusamos a alegação de que a Palestina era a terra dos judeus 1200 anos antes de Cristo, mas aceitamos que a tenham conquistado então aos cananeus – não é contraditório, embora pareça, e demonstra o apetite histórico dos hebreus pela terra dos outros. Não acreditamos que lhes tenha sido entregue pela comunidade internacional aquela preciosa nesga de terra – não havia qualquer pressa após dois mil anos de exílio – e não em outro lugar onde não afrontassem a comunidade islâmica. Recusamos, a propósito, a ideia de que o islão só tivesse tocado o Monte Moriá em 621, através do espírito de Maomé, numa altura em que a colina sagrada era ainda o Monte Moriá de Abraão e de Isaac e não a Esplanada das Mesquitas. Denunciamo-la como uma ideia redutora, senão falsa, que não entende que Maomé foi apenas o profeta tardio do antigo espírito islâmico. Denunciamo-la como uma ideia simplista e rude que não vê nos palestinianos o povo que preservou aquela terra intacta durante centenas de anos, com areia e camelos caminhando entre oásis, natural, sem campos cultivados, sem fábricas e universidades, ecologicamente exemplar. Somos a favor de qualquer coisa que suceda aos sionistas de Israel – não nos preocupa exactamente o quê porque a sua prática de resolver problemas há-de ser suficiente – e que aquela terra seja ocupada pelos palestinianos que ainda vivem na autêntica Palestina.

Defendemos os trabalhadores e as suas organizações sindicais, realizado que está o sonho da unidade sindical. Defendemos os patrões se os patrões forem o Estado. Defendemos as empresas nacionalizadas enquanto prestadoras de serviços sem mira no lucro e, se tal for necessário, com prejuízo. Somos contra o negócio da saúde, somos contra o negócio da educação, somos contra o negócio dos transportes, sejam a CP, a TAP ou a Transtejo, todas as empresas públicas que se conservam como redutos exemplares da soberania popular e o que resta depois de os privados terem recuperado o negócio da banca, das barbearias e dos quiosques. A constituição tem sido ofendida nesse percurso de privatizações selvagens mas registamos, como uma grande vitória da classe operária, que o capitalismo não recuperou a tempo a indústria metalúrgica, petroquímica, energia, construção naval – áreas onde continuariam a exploração dos trabalhadores e a alcançar lucros com que fariam mais fábricas, mais negócios e mais maneiras de explorar os trabalhadores. Defendemos o direito sagrado à greve e a obrigação patriótica de todos portugueses aceitarem pagar por cada uma delas.

Defendemos a paz. Fazemo-lo em todas as televisões e expressamente para o público. Defendemos a paz de uma maneira indignada e inorgânica a cada oportunidade oferecida pelo imperialismo americano e pelos agressores sionistas, fazemo-lo através do Conselho Português para a Paz e Cooperação ou da Amnistia Internacional.

Nós, as personalidades abaixo-assinadas, somos contra a poluição, o aquecimento global, o degelo do Ártico, a gentrificação, a exploração dos senhorios e o alojamento local. Somos contra as coisas de que não somos a favor. Mesmo não sendo mais nada somos, sempre, os abaixo-assinados.