Cinquenta e dois anos depois, Portugal ainda não tem um espaço à altura do que aconteceu naquela madrugada de abril. Um espaço que seja a casa dos que foram forçados a partir para uma guerra que não queriam. Dos que foram presos e torturados por pensar livremente. Dos que viveram anos de silêncio e de censura. Dos militares de todo o país que um dia decidiram que chegava. E do povo que os foi receber nas ruas. Essa lacuna pesa – e já pesou tempo demais.
Quando o debate sobre onde criar um Centro Interpretativo do 25 de Abril voltou à superfície, pareceu-me natural dar um passo em frente. Falei com o Sr. Primeiro-Ministro e com o Ministro da Presidência: Santarém está disponível. Não como reivindicação, não como pressão de uma Câmara Municipal a defender o seu território – mas como proposta concreta, fundamentada, e já em curso.
Foi daqui, da antiga Escola Prática de Cavalaria, que partiu a coluna liderada pelo Capitão Salgueiro Maia na madrugada do 25 de Abril. Não é um facto que se inventa, nem um argumento que se constrói: está nos manuais de história, nos testemunhos dos que viveram aquele momento, no peso silencioso que ainda hoje se sente quando se percorre aquele espaço. Mas Santarém foi uma peça – decisiva, é certo – de uma operação que envolveu militares e unidades de todo o território. A Operação Fim de Regime foi uma obra coletiva. E um centro interpretativo digno desse nome terá de a contar como tal – sem apagar ninguém, sem hierarquizar sacrifícios, sem reduzir a uma cidade o que foi um gesto de um povo inteiro.
O espaço da antiga Escola Prática de Cavalaria é hoje propriedade municipal, está disponível, e tem já um projeto: o MAVU – Museu de Abril e dos Valores Universais. Estudo prévio realizado, projeto de execução em desenvolvimento, conceito museológico desenhado com ambição – realidade virtual, testemunhos reais, programas pedagógicos para as novas gerações, espaços de debate e investigação. O Governo não chegaria a um terreno vazio. Chegaria a uma base de trabalho já construída, pronta a ser integrada e ampliada.
Este centro deve ser para todos os portugueses. Para os democratas de sempre e para as gerações que não viveram aquilo que custou conquistar a liberdade. Para os que têm um avô que foi à guerra sem perceber bem porquê, uma mãe que guardou livros proibidos, um familiar cujo nome ficou num processo da PIDE. Nenhuma dessas histórias pertence a uma cidade. Pertencem a Portugal. E é Portugal que este espaço deve ser capaz de contar – com rigor, com emoção, e com a dignidade que o tema exige.
Todos os governos falam em coesão territorial com uma seriedade que aprecio. Instalar um equipamento nacional deste alcance na Capital do Ribatejo seria um sinal concreto disso mesmo – não retórica, mas prática de governação. O país não se esgota em Lisboa ou no Porto, e os projetos que dizem respeito a todos os portugueses devem também chegar a todos os portugueses. A centralidade de Santarém, a pouco mais de trinta minutos de Lisboa, a duas horas do Porto, é importantíssima para a equação. Os projetos estruturantes devem refletir o conjunto do território nacional.
Estamos disponíveis para trabalhar com o Governo com o entusiasmo de quem partilha o objetivo e com a seriedade de quem tem algo concreto a oferecer. Honrar o 25 de Abril fazendo-o de forma a que cada português se reveja nesse espaço: é isso que Santarém propõe.
Apresentamo-nos como parte da solução. Pela Liberdade. Pelo futuro de Portugal.