O Papa está em visita apostólica a África, terra de santo Agostinho, seu pai espiritual. São muitas as imagens que vejo no meu telemóvel. Rodeado de segurança e multidões, vejo um homem numa missão singular, e comovo-me. Ele é Pedro, sobre Ele é construída a Igreja, à qual eu também fui chamada a pertencer pelo baptismo. Ele é meu irmão mas é principalmente o meu pastor, e pastor de todos os que o levaram a sair da Europa em visita pastoral à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. África, terra de miríades de cores, sabores e odores, onde se cruzam outras tantas etnias, religiões e feitiços, é-me estranha em tamanhos, caras e potências, mas também África minha, meu amor, meu peso – como o definiu o bispo de Hipona, agora Annaba , cidade onde Leão XIV parou e se comoveu enquanto filho. O meu amor é o meu peso, ele me leva onde quer que eu vá, é a frase completa.
Com os olhos do mundo postos no que diz e no que faz, e no pano de fundo de uma alegada querela entre o Vaticano e Trump, Leão XIV é o guerreiro da Paz que, só Ela, pode salvar a humanidade, e por isso é um homem que caminha só entre as gentes. Assim foram Cristo e todos os santos que à Sua imagem são configurados e que assim viveram e vivem sem medo, dispostos a tudo e ao serviço de todos.
Mostrando que sabe o que anda aqui a fazer, pôs os dedos nas monstruosas feridas de violências, guerras e corrupções. Caminhando sem armas mas a desarmar, ele encarna a Paz que vem do Céu e não das estratégias de quem cuida em ganhar sem se perder.
Será que sei o que ando aqui a fazer? Esta pergunta surge mais cedo ou mais tarde na minha vida. Enquanto criança a vida corre pacificamente, sem o “conhece-te a ti mesmo” próprio da filosofia. Se bem que haja infâncias douradas, abençoadas ou felizes, não esqueço aquelas de quem estive mais próxima estes dias: dolorosas, horríveis de maus tratos, fomes e privações. Mas todas elas atravessadas pelos curiosos “porquês” que estão mesmo interessados em saber, e não apenas em duvidar por duvidar.
O espírito crítico pode nunca chegar a vingar, basta olhar para tantas vidas que nunca se interrogaram seriamente sobre o respectivo sentido. Adolescências que escapam aos reveses da vida, também elas douradas, também as há. Não sei de números e quantidades, apenas conheço pessoas e sei que são marcadas pelos contextos e pela família ou pela ausência dela. E sei que as pessoas verdadeiramente felizes – e não apenas satisfeitas – são as que para a sua vida encontraram uma resposta, sem que nenhum aspecto tenha ficado entre parêntesis, maxime, o sofrimento e a morte. As que mais padecem dos chicotes de desumanidades são paradoxalmente as que têm material privilegiado para sorrisos rasgados, como os que vi esta semana. São pessoas que sabem o que fazem, sabendo que o bordado das suas vidas tem um avesso que não dominamos.
E vi também uma Igreja feita de homens e mulheres todo o terreno, que se perderam e assim se encontraram. Não por acaso Prevost começou a sua primeira visita na Argélia. Pai perdoa-lhes, que eles não sabem o que fazem!, é o pedido de Jesus na cruz para aqueles que o crucificavam. Esse episódio repete-se de cada vez que alguém sem o saber está, de uma forma ou de outra, a crucificar o próprio Deus. Foi o que aconteceu – para referir apenas um entre tantos casos, porque os confrontos entre cristãos e muçulmanos são quotidianos – aos sete monges trapistas do mosteiro de Nossa Senhora do Atlas, em Tibhirine, cruelmente assassinados em 1996 durante a guerra civil argelina – – beatificados em 2018 como mártires, os monges franceses decidiram permanecer no país por amor à população local, apesar das ameaças de grupos radicais islâmicos; parabéns ao filme de Xavier Beauvois, Dos homens e dos deuses, que conta a história em toda a sua dramaticidade e beleza, o que lhe mereceu o grande prémio do Júri em Cannes 2010.
A paz não se ganha a qualquer preço. Intenções, métodos e instrumentos, palavras, políticas, ou se põem ao serviço dos homens ou mais não são do que armas de arremesso ao serviço de interesses, os mais diversos que sejam. Ao longo da história são inúmeros os testemunhos de quem quis construir a paz com a doação da sua vida, muitas vezes em silêncio e fora dos holofotes mediáticos. E África foi e é palco desse sangue, protagonista de uma “política” com letra grande porque fala do evangelho – lembrou o papa nesta viagem, no avião aos jornalistas como sublinhou a Rádio Renascença.
As imagens do papa em Angola são para mim especiais porque também eu lá estive em 92, na Igreja da Sagrada Família, a receber S. João Paulo II, de quem recebi um belo rosário. Desta vez estava ainda mais gente, para quem Leão XIV teve a ternura de falar também em português. E vejo uma criança que corre para os seus braços e também ela recebe um terço.
E vejo muitos que um a um se dirigem a receber a confirmação do papa, no seu semblante reservado e doce, como que a dizer “Eu estou contigo”. E no aparente caos em que se vive neste continente, tão cheio de contrastes e paradoxos, no meio de tanta injustiça, vive-se a tranquilidade da ordem em todas as coisas, que foi assim que Santo Agostinho definiu o que se deve entender por “paz”.