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PS usa "falta de conhecimento" de regras por parte do governador para o questionar sobre venda das reservas de ouro do BdP

Depois da compra irregular de ações da Galp e da Jerónimo Martins, PS levanta dúvidas sobre se o governador do BdP tem competência para gerir o ativo de 45 mil milhões de euros que tem em mãos.

Rita Tavares
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Num primeiro momento, o PS mostrou pudor em atacar Álvaro Santos Pereira e a sua compra de ações, da Galp e da Jerónimo Martins, quando já estava em funções como governador do Banco de Portugal. Mas no Parlamento, a bancada socialista vai aproveitar o caso para questionar o governador sobre a gestão das reservas de ouro, tendo em conta a demonstração de “falta de conhecimento” sobre as regras do cargo que ocupa.

No texto da pergunta a que o Observador teve acesso, os socialistas querem saber “qual a política que está a ser seguida atualmente de gestão das reservas de ouro do Banco de Portugal” e também se o “governador do Banco de Portugal ponderou recentemente junto dos serviços a alienação de parte das reservas de ouro do Banco de Portugal?”. E ainda sobre a sua posição “quanto à forma de gestão das reservas da República que se encontram atribuídas ao Banco de Portugal ao abrigo do respetivo mandato”. Isto numa altura em que o PS suspeita do conhecimento suficiente por parte de Santos Pereira “das regras corporativas”, como diz o deputado do PS António Mendonça Mendes.

Os deputados do PS pegam na notícia avançada pelo Público, esta segunda-feira, e sublinham que “o governador do Banco de Portugal, ao arrepio das regras que enquadram o exercício das funções em bancos centrais, adquiriu ações no mercado bolsista, facto que foi confirmado pelo mesmo, bem como a anulação dessa operação”. Para a seguir acrescentarem que “é também público que as reservas de ouro do Banco de Portugal valorizaram cerca de 46% — para 45.000 milhões de euros –- sendo um importante ativo do país, à guarda do banco central” e que Santos Pereira já admitiu poder vender.

https://observador.pt/2026/04/27/governador-do-banco-de-portugal-comprou-acoes-na-galp-e-na-jeronimo-martins-apos-tomar-posse-bce-obrigou-santos-pereira-a-anular-operacoes/

Os socialistas lembram, no mesmo texto, que na audição parlamentar prévia à sua tomada de posse como governador, Santos Pereira “não rejeitou”a hipótese de “de alienação das reservas de ouro do Banco de Portugal”. Mesmo antes de ser ministro da Economia do Governo de Pedro Passos Coelho, logo no início de março de 2011, escreveu no blogue que mantinha sobre as diferentes formas que o Estado podia utilizar “para fazer aumentar as suas receitas” e entre elas colocava a da venda de parte das reservas de ouro. “Podíamos ainda vender 50 ou 100 toneladas das reservas de ouro do Banco de Portugal. Segundo os regulamentos do Banco de Portugal, os juros e as mais-valias destas vendas poderão ser utilizados pelos governos na redução da dívida pública.”

Ora, o PS pega nessa admissão de hipótese e junta-a à “falta de conhecimento quanto às restrições que [Santos Pereira] tem, enquanto Governador do Banco de Portugal, na participação no mercado bolsista” para concluir que “é razoável ter dúvidas quanto ao seu conhecimento do enquadramento da gestão de reservas do Banco de Portugal” por parte do Governador nomeado em outubro passado.

Ao Observador, Mendonça Mendes diz que “é muito preocupante” que “alguém que não sabe uma coisa básica tenha sob a sua responsabilidade a gestão das reservas do maior activo do país”. E, por isso, considera “importante perceber” se Álvaro Santos Pereira “tem ou não conhecimento da boa gestão” dessas mesmas reservas.

https://observador.pt/2026/04/27/ps-acusa-chega-de-querer-esconder-donativos-e-reprova-dois-anos-de-governo/

A notícia de segunda-feira dava conta de que o antigo ministro da Economia reforçou a sua carteira de investimentos, comprando ações da Galp Energia e da Jerónimo Martins, já depois de estar em funções como governador do BdP. No início deste ano, Santos Pereira entregou a declaração de interesses junto do Banco Central Europeu (a que está obrigado) — onde constava os ativos detidos e a data da sua aquisição — e acabou por ter de anular as transações que desrespeitavam as regras europeias.

Esta segunda-feira, quando foi questionado sobre o caso, o porta-voz do PS, André Moz Caldas assinalou que “o governador falhou”. No entanto, o socialista foi reservado na crítica dizendo que Álvaro Santos Pereira “ainda vai a tempo de corrigir a sua atuação”. “Se recuou [nos investimentos feitos] é porque ele próprio reconhece que não tinha estado ao nível de exigência que as regras que pautam a sua conduta lhe exigem”, disse Moz Caldas que acabou por, nesse dia, preferir poupar o governador nomeado pelo atual Governo: “Não nos parece, contudo, que a situação, ao ter sido prontamente corrigida, seja de monta a merecer muito mais atenção do que isso.”

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]