Uma velha baronesa em conjunto Chanel que seduz um jovem no Chiado e acaba assassinada num quarto de hotel. Um irmão mais novo que vive na sombra do mais velho e que numa noite de verão se lança no vazio ao encontro do asfalto. Um embaixador com “orelhas de Dumbo” que aprimorou o modesto apelido com um y. Uma marquesa viúva a quem a Revolução obrigou a vir a Portugal tomar pé na administração dos seus bens. Um casamento anulado porque o sogro fugiu com o futuro genro. O intelectual que atrai a canalha do parque Eduardo VII para a sua casa-museu no Príncipe Real. E um agora ex-Presidente da República que na sua agitação própria de “enfant terrible”, numa visita aos Países Baixos, decidiu redistribuir a colocação dos membros da Casa de Orange, alterando a ordem das molduras da família real com toda a sua “irreverência republicana” — ora adivinhe de quem falamos. São capítulos mordazes sobre homens e mulheres que construíram a sua reputação atrás de máscaras. Histórias genuínas, “memórias inconvenientes”, que o antigo embaixador José de Bouza Serrano viveu de perto ou foi anotando ao longo da carreira diplomática, e que reúne agora numa edição da Oficina do Livro, “Esta coisa da vida não é nada fácil”. Recebe-nos em casa, entre café e biscoitos, retratos, condecorações e outros vestígios de um trajeto recheado, em tempos duros para compromissos. “Nunca vi nada assim”, sentencia o antigo chefe de protocolo que lidou com um “colérico” Sócrates, a tampa de Cristina Kirshner a Cavaco, e que temeu que o desafiassem para acompanhar Marcelo. “Não aguentava”.

Já lhe ligaram muito por causa do livro?
Já, já (ri-se)
Pensava sobretudo de reclamações por causa de algumas das indiscrições.
Sabe, aquelas pessoas morreram praticamente todas. Há familiares próximos mas esses têm que aceitar o meu julgamento das coisas. O meu filho Francisco, o mais novo de todos, que é jornalista, está sempre a dizer que eu tenho frases muito longas.
Dizia-me que alguns mais próximos se queixavam de formulações mais antigas ao nível da escrita.
Pois, é verdade, mas eu digo as coisas daquela maneira.
Continua a aplicar o protocolo ao quotidiano, nas pequenas coisas?
Nunca larguei, não se larga. Agora vou rever o livro [sobre o protocolo do Estado] porque a Leya está interessada em publicar outra vez. Tem 12 anos. Foi a melhor coisa que eu escrevi, foi útil.
Sente que há um interesse renovado pelo tema?
O protocolo é certo. Na classe política já mudou tudo, já não conheço ninguém. O Marcelo conhecia de miúdo, o cardeal patriarca também conhecia de novo. Hoje toda a estrutura mudou e muitos não conheço. Com António José Seguro cruzei-me uma ou outra vez mas não faço a mínima ideia. Estou reformado há cinco anos, perde-se o contacto até com as embaixadas. É outra gente, mudam-se as listas de convidados.
Mas há um património comum que se mantém desde os seus primórdios, no final de setentas?
A base é a mesma, às vezes há pequenos acertos mas é ótimo quando há um guião. O protocolo ajuda nisso mesmo. Hoje temos a lei das precedências, que não havia.
Surge em 2006.
Sim, sim, e as coisas realmente estão ali. Não há primeira dama, isso é uma coisa all american, não temos nada a ver com isso. Há é o cônjuge do chefe de estado. Tem sido só senhoras porque não tivemos presidente da República. As coisas estão estabelecidas e é muito fácil. Há muitas dúvidas sobre o que fazer, o que vestir e como há renovação da classe política gostam de um suporte. Mesmo assim temos uma grande tradição.
Acredita que sim?
800 anos de monarquia deixaram grandes marcas. Não são só cento e poucos de República [ri-se]
Portanto devemos essa tradição sobretudo aos reis e rainhas?
Acima de tudo. Digo sempre que o que eu gosto mais na República é a GNR, porque tem os cavalos, as fardas…
É o mais próximo.
É o mais próximo do que tínhamos.
A nossa República, que continua a funcionar boa parte do seu tempo em palácios.
Completamente, e temos uma certa tradição. A uns ainda lhes foram tirando as coroas e tal mas no geral continua tudo no sítio. Foi uma coisa inesperada…
Fala da implantação.
Teríamos sido diferentes, de certeza. Não é saudosismo, é outro estilo de vida. No princípio só havia a Suíça, a França. Portugal… Eram as novas repúblicas na Europa, o resto era tudo monarquias.
No seu trajeto sentiu muita diferença nesse contacto com figuras da monarquia e República?
Eu só estive em monarquias. [Ri-se] Ao princípio foi sorte, mas depois agarrei a sorte.

Mas mesmo nas monarquias teve que lidar com republicanos.
Na monarquia há uma educação comum. Bem ou mal eram todos primos entre si, são parentes. Quando fui para a Holanda que foi o meu último posto entrei com a rainha Beatriz, depois ela reformou-se. Assisti à entronização do filho, com quem fiquei até ao fim. Eu estava na cerimónia e nunca tinha tido um parterre de figuras reais ao mesmo tempo. Estão todos mal casados.
Mal casados?
Pelo almanaque de Gotha estavam todos mal casados [ri-se]. Mas no fundo quando acabei o livro sobre as Famílias Reais não pude chegar a essa conclusão. Estas novas famílias com sangue burguês, plebeu, em que se casaram apaixonados com quem quiseram, de uma maneira geral resolveu-se. A da Suécia casou-se com o personal trainer, o de Espanha com a jornalista. Foi tudo muito fora do baralho. Não era o que devia ter sido.
Como vê estas novas composições?
Tem funcionado até agora, resultou. Os tempos são outros, só há uma família real, a do Luxemburgo, que está impoluta. Essas tem os quartéis todos certinhos, o país é pequenino mas eles são muito ricos, poderosos e têm uma coleção de arte maravilhosa. [Faz uma pausa enquanto nos recebe à mesa] Ainda não me habituei a este café. Eu tinha uma máquina que comprei em Bruxelas e que moía o café e fazia tudo ao mesmo tempo mas cá custam caríssimo, uns 700 euros. Um reformado não pode ter uma máquina destas [risos].
Costuma dizer que os diplomatas têm uma vida de emigrante de luxo.
Sim, mas andamos sempre com os caixotes de um lado para o outro. Alguns ainda estão para aí. Sou muito acumulador, não sei despojar-me de coisas. Gosto de tudo o que tenho, é uma coisa horrível. Mesmo assim tinha louças a mais e lá consegui vender uma parte.
As que vendeu ao Museu do Oriente?
Sim, porque essa parte nem queria que se dividisse, que houvesse partilhas nem nada. Tinha 17 anos quando comecei. “Mas tu colecionas chaveninhas? Mas isso é uma mariquice!”, diziam-me.
Muita coisa trazia das suas viagens?
Depois, sim. Mas eu nessa altura viajava pouco, apenas com os meus pais, não passava de Espanha, França. Depois, the sky is the limit. Viajei muito.
A carreira diplomática sempre o entusiasmou, desde novo?
Sempre, sempre, de miúdo, já o pensava.
A família percebia essa vontade?
Percebia. Eu tinha pensado ir para História, gostava muito. O meu pai orientou-me para que eu fosse para Direito. Eu era péssimo a matemática, chumbei no quinto ano. E, pronto, segui, muito contente, e não teria feito outra carreira.
Como tem seguido estes tempos que parecem impróprios para qualquer tentativa diplomática?
Nunca esperei chegar a esta idade e ter o meu país como está, não estou satisfeito. E o mundo como está. Não foi para isto que trabalhei. Eu sou do tempo da União Europeia do [Jacques] Delors, tive outras cabeças, pessoas com outra visão,
E a essência da diplomacia é prevenção do conflito.
Exatamente, nós depois somos uns fontaneros, como dizem os espanhóis, arranjamos as coisas que os outros estragam, mas também tudo na maior das discrições, nunca se diz o que andamos a fazer. O Trump foi o pior que nos podia ter acontecido, coitado não lhe quero mal nenhum, mas qualquer dia, com esta frequência, vem um e acerta-lhe mesmo, e depois fica o Vance que ainda é pior que ele, e mais novo!
Mas recorda-se de algum momento de tensão semelhante?
Nunca.
Conheceu outra Europa, outro mundo. Como chegamos a este ponto?
As pessoas desencantaram-se com promessas, promessas. As democracias, que são o melhor sistema que temos, acabam por em períodos muito curtos as pessoas terem que prometer para serem eleitas, e depois não concretizam. Isso dá um certo desencanto ao final de um ciclo. Nas monarquias há a vantagem de o chefe de Estado ser sempre o mesmo.
O que não impede o declínio.
Mas se tiver poder de influência… que é uma coisa que o rei de Espanha não tem, e a Espanha também está num caos total. Dom Juan Carlos teve o poder absoluto, que ninguém tinha no século XX, e ele abriu mão disso, entregou-o ao parlamento. Este Sánchez é uma coisa impressionante. Os espanhóis em termos de reis também eram assim.
A história também está cheia de líderes da República que parecem comportar-se como grandes monarcas.
Veja lá o que o Mitterrand gostava de la grandeur de la France. O próprio De Gaulle, era do tamanho dele. É isso, é isso. A França sempre teve aquela ideia monárquica e eles são moldados assim. Não vejo que as pessoas estejam felizes, está tudo muito difícil para toda a gente, não há casas, as pessoas não chegam ao fim do mês. Não há a vida que a gente esperava para os nossos filhos. Até o Franco na ditadura conseguia que as pessoas tivessem um Fiat 600, uma casa que dava para uma série de pessoas. Os ricos tinham dinheiro, os pobres tinham vidas modestas mas hoje está tudo a contar tostões.
Nem as elites escapam ao momento?
Toda a gente sente. Os tais muito ricos a que a esquerda chama exploradores também já não há muitos assim. Os colégios estão com preços tremendos. E vejo muito pobreza. A gente sai à rua e vê-se gente a dormir, os sem abrigo, choca-me muito. Não foi com isto que pensei acabar a minha vida. Há uma certa desilusão, como é que o sistema bateu no fundo.
Mas como se formam hoje figuras de referência como algumas dessas que citou?
Pois… mas veja, Angela Merkel não tinha filhos, Macron também não. Eu acho que quando as pessoas não se sentem projetadas por uma coisa futura vivem muito dentro do egoísmo do imediato. Não pensam no que vai ser a vida dos filhos e dos netos.
Não será só uma questão de ter descendência ou não para ser preocupado e virtuoso.
Não é só uma questão genealógica, claro, mas há sempre uma cadeia. A monarquia tem sempre os seus sistemas próprios para superar as várias dificuldades. D. João VI foi um rei tão mal compreendido, com uma mãe meio louca. Não sei, pode ser que seja uma fase mas vejo isto muito persistente.
Ainda há fascínio pela profissão e pela ideia de representar o Estado?
Sim, acho que ainda querem, eu sinto. As pessoas gostam, não podem é acreditar que tudo é verdade. A pessoa chega e vive entre móveis do século XVIII, quadros autênticos, e mordomos, mas depois tudo acaba com um tabuleiro a ver televisão. As pessoas não podem pensar que é eterno, mas há quem ache.
Há muito deslumbramento com o glamour da missão?
Pois, mas não é eterno. Havia um colega meu de Braga que dizia assim, sabes quando percebes que acabaste? Vês um carro preto, sentas-te atrás e não acontece nada (ri-se). Já não há motorista, não há nada.
Como foi consigo?
Eu fui-me sempre preparando muito. Foi muito bom, gostei de trabalhar até aos 70 anos. Ainda apanhei o ano da mudança, eu o João Valera, Mário Santos. Ainda fui quatro anos inspetor diplomático e consular, que também é sempre desagradável. Havia pessoas que me tratavam por tu, um não me fala e outro trata por você. São coisas que acontecem.
Que fazia?
O inspetor tem acesso a tudo. Designa alguém que o ministro sanciona para gerir o processo de inquisição, mas não somos nós que vamos lá inquirir, temos é que coordenar aquilo tudo. E realmente há coisas que não passam no fio da agulha. Há sempre inventários. A pessoa não pode pôr uma cómoda e depois pôr a do quarto da criada e leva a francesa para casa. Depois, do dinheiro, as contas têm que estar clean, não podem haver sacos azuis. Ou então vai encher o depósito e enche com o cartão da embaixada, isso é peculato.
Como estamos a estes níveis? Posso deduzir que tem matéria para fazer um segundo volume?
[Ri-se] Eu no livro só conto muito vagamente aquela história das banheiras cheia de dinheiro, porque era uma coisa tremenda, ninguém conseguia controlar. Era às mãos cheias, tipo Tio Patinhas. Mas gostei muito da vida que tive. Tive problemas de saúde aborrecidos pelo meio mas consegui superar isso tudo. Estou sempre muito controlado.
A Holanda foi o último posto?
Ah, e ia contar-lhe, que me quis despedir da rainha. O chefe de protocolo disse-me que o rei me ia receber, condecorar, dar uma foto autografada, mas a rainha não. Mas eu tinha servido com ela o tempo todo. Escrevi-lhe uma carta e ela respondeu. Tenho-a ali emoldurada. “Apesar da quebra de protocolo, muito obrigada por ter gostado do meu país”. Querem ver?
Vamos lá. Saber quando quebrar pode ser tão importante quanto seguir o protocolo?
Pois, claro. E eu achava uma indelicadeza ter servido uma soberana aqueles anos e ir-me embora sem dizer nada. Não pode ser.
A diferença cultural impacta muito nestas relações?
Há essa linguagem comum do protocolo, o que é bom. Isto foi o meu único trabalho na pandemia.
Organizar a vitrina das condecorações?
É, há aqui algumas que os meus filhos já sabem que têm que entregar porque são só vitalícias.




No livro recorda aquele senhor muito maçador que se sentava ao seu lado e perguntava como é que tinha tantas medalhas.
Era ela, coitadinha, a mulher. O americano era um amor, ela era uma deslumbrada. Já morreu tudo. O problema é esse.
Há alguém vivo deste recheio da obra?
Poucos. No fundo este livro eram coisa já escritas há bastantes anos. Aquele suicídio que conto foi do irmão de um amigo meu, que também já morreu. Eram pessoas que marcavam e com quem me dava bem.
Tem aqui histórias muito fortes.
A da baronesa é forte e é verdade… Tenho aqui fotos engraçadas. Isto é do jantar da minha despedida, que o ministro [Augusto] Santos Silva me deu. Há muita gente que não gosta dele, mas comigo foi impecável.
Foi mais difícil trabalhar fora de portas ou em Portugal?
Aqui é difícil…
Mas por insubordinação lusitana?
Não, as pessoas quando não sabem têm a humildade de perguntar, e acatam. Mas também havia grande arrogâncias de pessoas que vinham para jantar sem avisar. Era difícil, mas fomos superando.
Entre chefes de Estado e primeiros-ministros, quem lhe deu mais trabalho?
O Sócrates, mas isso é um lugar comum. Não é bater no ceguinho, mas foi péssimo. Muito indisciplinado, nos países árabes pedia vinho, são coisas sempre desagradáveis. Imagine, um homólogo estava à espera dele e ele dizia “agora vou correr. Eles esperam”. Pobre rapaz do protocolo que dizia “ma tête roulera!!”.
Ainda apanhou Marcelo Rebelo de Sousa?
Já não tive. Aliás, quando o ministro Santos Silva me telefonou, porque sabia que a minha missão ia terminar, e me disse: “Queríamos contar com a sua experiência”. Eu pensei, espero que ele não me vá convidar para chefe de protocolo que eu não aguento o Marcelo. Eu tenho uma hérnia e atrozes nos joelhos (ris-se).
Temeu a natureza do convite mas afinal era outra missão.
Era o tal cargo de inspetor diplomático. O meu filho mais velho, o Martim, disse-me para aceitar.
Também trabalhou com Santana Lopes.
Fui chefe de gabinete dele quando foi secretário de Estado da Cultura e depois quando foi primeiro-ministro convidou-me. Eu estava à bica de ter a minha primeira embaixada e depois escusei-me. Organizei-lhe o gabinete mas pedi para me deixar ir tomar posse na minha primeira embaixada. Depois tivemos aquele problema de o Presidente da República dissolver a Assembleia com maioria. Marcelo também fez isso. Devíamos poupar estas coisas.
Há o argumento de que se tinha votado em Durão Barroso.
E depois o animal feroz chegou e ganhou as eleições! [Ri-se] Foi muito difícil.
Ainda apanha Passo Coelho?
Apanho, era muito simpático. Recebo uma vez o Passos e o António Costa na Holanda, em visitas oficiais. Tenho ótimas referências. Pelo menos tinham humildade de aceitar o que a gente lhes propunha. Costa sempre se mexeu muito bem, sabia das coisas.
O que guarda como missão mais espinhosa?
Talvez fazer cá a reunião ibero-americana [em 2009] com todos aqueles chefes de estado, não se entendiam. A presidente da Argentina, a [Cristina] Kirchener, uma mulher tremenda, ordinaríssima.
Porquê?
Íamos precisamente passar o testemunho à Argentina e ela diz-me “no voy a tua cena” [não vou ao seu jantar] e eu respondo que não é o meu jantar é o jantar do Chefe de Estado. “Pois, não vou, estou cansada”. Isto para o Cavaco não era uma coisa nada simpática, ela estava à direita dele, teve que mudar o discurso todo.
Não chegou mesmo a ir?
Não foi, ela foi para a Bica do Sapato jantar! Ao lado do Cavaco jantou o outro a seguir, mas já não era a mesma coisa.
O Presidente soube da ida à Bica?
Depois soube, ui! O backup não deve ter sido nada simpático, compreensivelmente. Com Cavaco dei-me sempre bem, desde que era primeiro-ministro. Viajámos bastante.
Era de trato fácil?
Ele só não queria que eu atendesse telemóveis à frente dele, porque havia um antecessor meu que estava sempre a falar ao telefone ao pé dele. Tive um drama muito grande na altura de Cavaco, no dia em que os chineses entraram na sala e mudaram os nomes dos cartões na mesa. Como é que a gente sabia quem era quem, em chinês? É tremendo. Cavaco ainda por cima já estava farto de falar com tradução, porque aquilo cansa muito, queria era ir para a sala de jantar e eu não podia deixá-lo entrar porque não sabia onde sentar as pessoas. [Ri-se]
E as primeiras damas, que recordação tem?
Ainda me dou muito bem com Manuela Eanes.
Estreia-se na Noruega com o casal Eanes, em 1980.
Foi. É quando compro a minha primeira farda, ao embaixador do Francisco [Seixas da Costa]. Doutora Maria de Jesus Barroso também era encantadora e mesmo Mário Soares era muito engraçado. Eu estive no protocolo do estado no começo da carreira e no fim e apanhei-o em muitas coisas.
Que episódios recorda?
Muita coisa, tenho livros autografados, fotos. O chefe da casa civil era o João Diogo Nunes barata, meu querido colega, que também já morreu. Fica-se um bocadinho órfão. E depois as pessoas acabam por se encontrar todas no palácio da Ajuda.
Lá estão os palácios.
Aí está. Também fiquei contente que tivessem fechado finalmente aquela ruína que parecia um décor de ópera, agora Museu do Tesouro Real. Hoje custa-me imenso subir as escadarias, tenho sempre que ir de elevador, subi tantas vezes até em São Bento.
Deve ter feito quilómetros nestes mais de 30 anos.
Pois é, e lá dentro, subir e descer. Por isso quando voltei estava com medo do que me ia pedir Santos Silva…
Marcelo e mais escadas.
Marcelo que conheço de toda a vida, até falo dele num capítulo do livro. Eu tinha que descrever aquela cena com ele que se chama “Agitação Presidencial”, ele mudou as fotos todas em Amesterdão. Os homens estavam loucos a olhar para ele. 12 dias depois saí pelo meu pé, não quis ir à sala VIP porque podiam ser os mesmos. Não refiro os nomes mas foi tudo verdade.
O que é fundamental para cumprir bem este papel?
Ter um bom golpe de cintura. Ter interesse pelas coisas, conseguir adaptar as suas funções a coisas que gosta e já levou na sua bagagem. Línguas é sempre interessante. Ter interesse pela política externa, pelas coisas do dia a dia, mesmo que sejam horríveis como são hoje.
Menciona equívocos linguísticos deliciosos nestes capítulos.
Também, sim, porque acontece imenso. Aquelas baronesas russas com tendência para dizer disparates. O meu filho dizia que ninguém ia achar graça mas eu vivi aquilo.
Há ali muita coisa capaz de chocar os mais puritanos ainda hoje?
Sim, sim, como o outro que tocava piano com o sexo. As pessoas não estão à espera. A diplomacia dá-se muita com uma certa aristocracia que está acima do bem e do mal.
E que conserva essa aura?
Mantêm. Em princípio, fazem coisas que os outros não fazem.
Sentem que pertencem a outra esfera?
São intocáveis e acham que são uma ilha rodeados de labregos por todo o lado.
Ainda os temos muito por cá?
Temos, são é mais discretos.
Mantém-se a máxima das virtudes públicas e vícios privados?
Acho que sim.
Mesmo com as redes e um mundo que quebrou público e privado?
Mas ainda há secretismo nas coisas. Lembro-me sempre de uma grande família espanhola que tinha assessores para garantir que nada saía sobre eles na imprensa, o que dá uma certa tranquilidade.
Mas hoje vemos princesas influencers, o que seria impensável há uns anos.
Sim, sim, era impensável e de mau gosto. O doutor Salazar também não queria que fossem às festas Patiño porque não ficava bem os membros do Governo serem vistos nesses show offs de dinheiro e jet set. Mas por cá ainda há gente discreta. Ou têm uma casa no Mónaco, um barco noutro sítio, as pessoas fazem muita vida fora. Ainda há dinheiro, graças a Deus.
E bons segredos?
Isso sempre haverá. Temos as tais três vidas, pública, privada e secreta e à secreta nem todos têm acesso. Pode parecer pretensioso mas não é. Isto aqui é em Cascais, foi na visita do então príncipe de Gales a Portugal [aponta para algumas imagens na parede].


Como tem visto este reinado de agora Carlos III?
Coitado, é muito difícil, neste momento… A mãe partiu no momento certo. O meu editor tinha-me pedido uma coisa sobre Carlos mas no livro da mãe já falava imenso, por isso propus este. Ele também teve o revés muito grande da saúde. E é notável a Kate Middleton, foi um prodígio. Eu sei que a mãe lutou imenso para que chegasse àquele sítio. Mas resultou.
Tem vocação?
Tem, e o sogro gosta imenso dela. As pessoas aprendem quando é o destino delas.
Lá está, há “mal casados” que funcionam melhor que os bem casados?
Pois é, os mal casados todos dão, eu tive que engolir isso. O que Carlos faz, faz muito bem, é muito culto, interessante e interessado. Cá acompanhei-o sempre. Fizemos um jantar em Queluz.
Mais um palácio.
Mais um palácio e tive que inventar uma coisa, porque o senhor Dom Duarte e Dona Isabel não têm lugar protocolar, como o cardeal patriarca.
Aí entra em cena a cortesia?
Pois, aí pus o casal Cavaco numa ponta e na outra pus os duques de Bragança, para fazer uma espécie de dupla presidência, o que é difícil. Os três anos e meio foram intensos.
Esta farda aqui no quadro é a sua primeira, que comprou por 30 contos?
É, mas tenho a do fim aqui no quarto. Eu engordei muito. Usei o uniforme pela última vez no casamento da infanta Francisca. Foi uma homenagem nossa. Minha, do António Almeida Lima, e Alves Machado, que foi embaixador na Ucrânia. Fomos com as nossas galas até Mafra, outro palácio! Maravilhoso.


A República e esses vestígios da monarquia têm sabido entender-se bem?
Mais ou menos, há pessoas…Há um que não digo o nome, era republicano, nunca dizia senhora condessa, nem senhor conde, era sempre engenheiro, dona Teresa, era incapaz, doía-lhe a boca! [Ri-se]. E naquele quadro ali do Rui Palma Carlos é a Versailles, onde vou desde miúdo, há 70 anos. Apareço a beijar a mão a uma senhora, ali nos dias em que voltei de Madrid.
É do primeiro posto, em Madrid, que guarda melhores memórias?
Foi muito bom. Ai, mas Roma foi maravilhoso, foram anos estupendos. Aqui estou eu no meio de dois monsenhores, uma sanduíche de pecado, como diz uma amiga minha (ri-se). Gostei muito de estar no Vaticano.
Vive numa casa-museu, repleta de muitas referências da monarquia. De onde vem este fascínio que até muitos republicanos acusam?
Mantêm porque é uma coisa que se perdeu, ficam só os faustos do passado, mas tem graça. Aqui atrás é o meu biombo da realeza, com convites e telegramas de pessoas reais e equiparadas. Nem sei qual será o futuro de tudo isto, é preciso que os miúdos gostem das coisas. É outra vida. Eu também tenho um carro antigo porque julgava que ia fazer viagens e não faço nada. Eles querem é praia e surf.

Como se sente ao chegar a esta fase?
Chego ao fim da vida confortado. Correu-me bem. Claro, tive problemas de saúde mas superei. Fiquei contente com a carreira que tive, tive essa graça de passar de cher cousin para cher cousin. Nunca estive no Reino Unido mas não faz mal porque tive visitas.
Tinha algum posto de sonho que não cumpriu?
Não, não, gostava muito do Vaticano e consegui. Foram cinco anos. E depois até poderia ter acabado aí, mas depois não deu. Houve aquela hipótese da Holanda e foi o Paulo Portas que achou que iria melhor para a Europa e assim foi.
E agora também temos visto o Papa envolvido nesta troca diplomática acesa com o Presidente dos EUA.
Meu Deus, o outro de ontem [atirador no jantar dos Correspondentes] devia ter levado uma granada e atirado para a sala. Que horror, que falta de caridade cristã [ri-se], mas de facto é dececionante. Não têm preparação nenhuma, são os americanos na forma mais geba. É uma gente impossível. E aquele disparate do arco do triunfo. Ainda fui lá na altura do Reagan, com o casal Eanes, estivemos na Casa Branca.
Outra leva?
O Reagan era outra leva. Até me fez impressão, quando soube que tinha alzheimer despediu-se das pessoas sabendo que em breve ia cortar com o cordão… Lá está, foi uma pessoas que não estava preparado mas fez bem o seu papel, empenhou-se nas coisas, também teve um atentado. E Nancy Reagan também era uma mulher muito interessante. Aquilo agora parece um bazar.
Prescrevia umas aulas de diplomacia?
Não querem, porque acham que sabem tudo. Cá também temos alguns que acham que sabem tudo, mas há pessoas com humildade para aprender. Agora vou ter que rever o meu Livro do Protocolo para ser reeditado porque já tem 12 anos, e há coisa que já mudaram.
Por exemplo, o que pode ter mudado mais?
Bom, condecorações, o Presidente Marcelo inventou várias [ri-se]. Arranjou colares e graus. Por exemplo, no meu tempo o chefe de protocolo entrava para a audiência com o novo embaixador e agora não, fica cá fora. Há pequenas coisas, mas no fundamental as coisas não mexeram muito, porque funcionam e quando assim é não vale a pena mudar.
E próximo livro? Tem alguma figura interessante que gostasse de perfilar?
Não sei, alguém novo… Neste momento não há assim nada. Fiz o rei [emérito] de Espanha porque será sempre recordado como o homem que trouxe a democracia a Espanha.
Talvez algum nome deste biombo.
Isto ainda acaba tudo na Feira da Ladra. Mas sabe que às vezes devemos insistir nas nossas fantasias para que se tornem coisas sérias.
Manifestar, como se diz agora.
Exato. Em miúdo havia uma prima que tratava de nós, uma daquelas senhoras coitadinhas, sem grandes dinheiros, que iam trabalhar para casa dos parentes. Era a Etelvina, que está sempre presente nas minhas orações, e que era muito monárquica. Foi ela que me pôs isto também. Fui com ela ver a Isabel II passar no Rossio. Quem diria que eu viria a conhecer a rainha naquela carruagem que passava?