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(A) :: "Os olhos e os ouvidos" dos EUA no estrangeiro. Anúncio do Departamento de Estado com imagem de Londres provoca tensões diplomáticas

"Os olhos e os ouvidos" dos EUA no estrangeiro. Anúncio do Departamento de Estado com imagem de Londres provoca tensões diplomáticas

Diplomatas ou espiões? Anúncio de recrutamento com imagem do Big Ben gera polémica em Londres num clima de tensão entre os dois aliados. Mas há quem diga que se pode tratar só de "incompetência MAGA".

Margarida Vieira dos Santos
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Sejam os olhos e os ouvidos da América no estrangeiro”, pode ler-se num anúncio do Departamento de Estado dos EUA, divulgado no fim de semana, para recrutar diplomatas. A campanha, que inclui a bandeira norte-americana sobre uma imagem escura do famoso Big Ben, em Londres, está a provocar tensões nas relações bilaterais, segundo diplomatas norte-americanos e britânico, relata o The Guardian.

No anúncio para o serviço diplomático norte-americano, publicado nas redes sociais, o Departamento de Estado convida os cidadãos a “navegar pelas rivalidades entre grandes potências, desarmar crises globais e proteger os cidadãos e os interesses dos EUA em todo o mundo”.

https://twitter.com/StateDept/status/2047315168648991136

Para um antigo diplomata do Reino Unido, segundo o The Guardian, o anúncio “soa terrivelmente sinistro, como se estivessem a recrutar para a CIA e não para o Departamento de Estado”. Ainda assim, admitiu que a escolha poderá ter sido inocente. “Não sei se escolheram o Big Ben por ser reconhecidamente estrangeiro. Podiam ter escolhido a Torre Eiffel, o Kremlin, suponho. Talvez seja tão simples quanto isso”.

No entanto, acrescentou que, tendo em conta as recentes críticas das autoridades norte-americanas ao Reino Unido sobre a liberdade de expressão, a implicação pode ser a de que os EUA estão a “observar atentamente” o que acontece na Grã-Bretanha e que isso poderá não ser uma coincidência. “Se estiver sentado na King Charles Street a observar isto, não pode descartar a possibilidade de ser algo um pouco premeditado”, afirmou.

Já um antigo diplomata norte-americano considera que existe um “crescente desconforto” em Washington em relação à independência do Reino Unido face aos Estados Unidos. “Pode ser visto como um símbolo de um posto no estrangeiro para observar o que outros países estão a fazer e reportar”, disse ao jornal britânico, acrescentando que a escolha do Big Ben como pano de fundo do anúncio poderá ter outras motivações. “Londres ainda exerce um fascínio sobre aqueles que desejam servir no serviço diplomático”.

“O meu palpite é que isto é apenas incompetência MAGA”

Orna Blum, uma diplomata norte-americana reformada, disse ao The Guardian que a imagem do anúncio do  Departamento de Estado dos Estados Unidos podia ser mais uma escolha criativa do que diplomática. “O que é realmente estranho ou surpreendente é que eu nunca diria que o trabalho de um diplomata é ser os olhos e os ouvidos de um país”, confessou.

“Precisamos que os diplomatas sejam canais de comunicação com os governos estrangeiros, não os nossos olhos e ouvidos. O meu palpite é que isto é apenas incompetência MAGA”, afirmou Kristofer Harrison, antigo membro do Departamento de Estado norte-americano, citado pelo mesmo jornal.

Entretanto, o porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, rejeitou essas interpretações, classificando-as como infundadas. “Quaisquer alegações de que os esforços de recrutamento do Departamento de Estado sugiram, de alguma forma, uma má relação com um dos nossos aliados mais próximos são absurdas e conspirativas”, sublinhou.

Em fevereiro do ano passado, as contratações para o corpo diplomático dos Estados Unidos foram congeladas, no âmbito de cortes significativos na administração federal norte-americana, conduzidos pelo Departamento de Eficiência Governamental liderado por Elon Musk. Anunciado em abril, o novo processo de seleção eliminou questões ligadas à agenda de diversidade, equidade e inclusão e passou a focar-se na formação de diplomatas alinhados com a política externa “América Primeiro”, recorda o The Guardian.

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