“Sejam os olhos e os ouvidos da América no estrangeiro”, pode ler-se num anúncio do Departamento de Estado dos EUA, divulgado no fim de semana, para recrutar diplomatas. A campanha, que inclui a bandeira norte-americana sobre uma imagem escura do famoso Big Ben, em Londres, está a provocar tensões nas relações bilaterais, segundo diplomatas norte-americanos e britânico, relata o The Guardian.
No anúncio para o serviço diplomático norte-americano, publicado nas redes sociais, o Departamento de Estado convida os cidadãos a “navegar pelas rivalidades entre grandes potências, desarmar crises globais e proteger os cidadãos e os interesses dos EUA em todo o mundo”.
https://twitter.com/StateDept/status/2047315168648991136
Para um antigo diplomata do Reino Unido, segundo o The Guardian, o anúncio “soa terrivelmente sinistro, como se estivessem a recrutar para a CIA e não para o Departamento de Estado”. Ainda assim, admitiu que a escolha poderá ter sido inocente. “Não sei se escolheram o Big Ben por ser reconhecidamente estrangeiro. Podiam ter escolhido a Torre Eiffel, o Kremlin, suponho. Talvez seja tão simples quanto isso”.
No entanto, acrescentou que, tendo em conta as recentes críticas das autoridades norte-americanas ao Reino Unido sobre a liberdade de expressão, a implicação pode ser a de que os EUA estão a “observar atentamente” o que acontece na Grã-Bretanha e que isso poderá não ser uma coincidência. “Se estiver sentado na King Charles Street a observar isto, não pode descartar a possibilidade de ser algo um pouco premeditado”, afirmou.
Já um antigo diplomata norte-americano considera que existe um “crescente desconforto” em Washington em relação à independência do Reino Unido face aos Estados Unidos. “Pode ser visto como um símbolo de um posto no estrangeiro para observar o que outros países estão a fazer e reportar”, disse ao jornal britânico, acrescentando que a escolha do Big Ben como pano de fundo do anúncio poderá ter outras motivações. “Londres ainda exerce um fascínio sobre aqueles que desejam servir no serviço diplomático”.
“O meu palpite é que isto é apenas incompetência MAGA”
Orna Blum, uma diplomata norte-americana reformada, disse ao The Guardian que a imagem do anúncio do Departamento de Estado dos Estados Unidos podia ser mais uma escolha criativa do que diplomática. “O que é realmente estranho ou surpreendente é que eu nunca diria que o trabalho de um diplomata é ser os olhos e os ouvidos de um país”, confessou.
“Precisamos que os diplomatas sejam canais de comunicação com os governos estrangeiros, não os nossos olhos e ouvidos. O meu palpite é que isto é apenas incompetência MAGA”, afirmou Kristofer Harrison, antigo membro do Departamento de Estado norte-americano, citado pelo mesmo jornal.
Entretanto, o porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, rejeitou essas interpretações, classificando-as como infundadas. “Quaisquer alegações de que os esforços de recrutamento do Departamento de Estado sugiram, de alguma forma, uma má relação com um dos nossos aliados mais próximos são absurdas e conspirativas”, sublinhou.
Em fevereiro do ano passado, as contratações para o corpo diplomático dos Estados Unidos foram congeladas, no âmbito de cortes significativos na administração federal norte-americana, conduzidos pelo Departamento de Eficiência Governamental liderado por Elon Musk. Anunciado em abril, o novo processo de seleção eliminou questões ligadas à agenda de diversidade, equidade e inclusão e passou a focar-se na formação de diplomatas alinhados com a política externa “América Primeiro”, recorda o The Guardian.
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