Quando JD Vance decidiu, nestas últimas semanas, repreender publicamente o Papa Leão XIV (o primeiro Papa da Ordem de Santo Agostinho) pelas suas críticas à ofensiva americana no Irão, invocando para o efeito a doutrina católica da guerra justa (que tem em Santo Agostinho o seu principal arquiteto), ofereceu ao mundo uma cena reveladora do momento político que vivemos. Um vice-presidente americano convertido ao catolicismo, a corrigir o homem cuja função institucional é precisamente ser o intérprete dessa tradição. Pior, terá escapado por inteiro a JD Vance a ironia de procurar ensinar Santo Agostinho a um agostiniano. A imagem é absurda, mas o absurdo não está apenas na arrogância individual de Vance. O que neste episódio se revelou foi a estrutura profunda da relação que esta administração americana mantém com o cristianismo. Uma relação na qual a religião é convocada mas não consultada e, sobretudo, é instrumento mas nunca limite.
Esta é, talvez, a marca mais distintiva do trumpismo na sua segunda encarnação e a que mais o separa daquilo que, na própria tradição política americana, sempre foi um modo muito próprio de habitar a linguagem religiosa. A invocação de Deus e do divino nunca foi estranha à vida política nos EUA. Está nos discursos de muitos dos pais fundadores, faz-se sentir desde as intervenções abolicionistas de Lincoln às reivindicações de Martin Luther King, e sobrevive até hoje na despedida característica dos Presidentes, o “God bless America”. Mas em todos os casos esta era uma religiosidade privada compatível com o pluralismo confessional que os fundadores quiseram preservar, e respeitadora, no essencial, da divisão entre o que é de César e o que é de Deus.
O que os fundadores defenderam de forma consistente foi que a religião deve permanecer separada do exercício do poder institucional. James Madison escreveu que a religião e o governo existirão com maior pureza quanto menos estiverem misturados. Alexis de Tocqueville, observando a América algumas décadas depois, percebeu que era precisamente essa separação que tornava a religião um chão partilhado pela sociedade e um horizonte moral comum, não um instrumento de controlo ou domínio. Numa palavra, a sabedoria fundadora expressa esta ideia fulcral de que a religião se corrompe quando o Estado a abraça, e que o Estado se corrompe quando a religião o governa.
Trump, Vance e Hegseth rompem com essa tradição. O seu vocabulário é expressamente teológico e, por vezes, francamente escatológico: falam de batalhas espirituais, de demónios, de eleição providencial e de inimigos a aniquilar em nome de uma causa sagrada. Parece haver uma tentativa de renunciar à herança fundadora. Decidem de forma cada vez mais explícita negar a separação entre Igreja e Estado, apresentando-se como os defensores de uma tradição cristã ameaçada.
Para além disso, e ao mesmo tempo, agem com um à-vontade que sugere que a religião lhes interessa apenas enquanto símbolo mobilizador e nunca enquanto critério moral ou limite ao poder. Podem invocá-la quando os serve, enquanto a ignoram quando os limita. Podem citá-la contra o Islão, sublinhando passagens violentas do Alcorão, e silenciar as passagens igualmente brutais do Antigo Testamento. Mas, sem pestanejar, usam essas mesmas passagens como a sua principal fonte de inspiração quando precisam de cobertura religiosa para a violência.
Importa aqui relembrar que Hegseth é membro da CREC, a Communion of Reformed Evangelical Churches, uma congregação americana enraizada no Reconstrucionismo Cristão do século XX, corrente teológica que advoga a substituição do direito secular pela aplicação literal da lei bíblica e defende que os cristãos devem dominar todas as instituições políticas e militares. O próprio conselheiro espiritual de Hegseth, Doug Wilson, já expressou publicamente o seu desdém pela 19ª Emenda, que deu às mulheres o direito de voto. É deste universo que vem a imagem do guerreiro de Deus, do exército dos justos, do extermínio do inimigo. E é por estar inserido neste universo que o Secretário da Defesa (recentemente rebatizado, de forma reveladora, Secretário da Guerra) pede nas suas intervenções “violência avassaladora” e declara que as forças armadas americanas não devem mostrar nem misericórdia nem clemência aos seus inimigos.
São palavras proferidas por um homem que se declara seguidor de Jesus Cristo. O mesmo que, no Sermão da Montanha, diz “amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mateus 5:44). Passagens como esta são tratadas como inconvenientes exegéticos, marginalizadas a favor de leituras seletivas de livros como Josué ou Deuteronómio, onde Deus parece ordenar a aniquilação de povos inteiros. Não é uma leitura inocente. Os próprios ensinamentos que Hegseth hoje escolhe ignorar são os mesmos que a Igreja, nos últimos dois milénios, considerou como centrais.
Esta seletividade é tão mais interessante e perigosa quanto reflete uma estratégia deliberada de utilização do texto sagrado como espelho. Procura-se nas Escrituras aquilo que já se pretende fazer e elege-se como divinamente sancionado o que coincide com a vontade prévia. Esta inversão da relação entre revelação e conduta é particularmente visível nas justificações teológicas que começaram a circular em torno de eventuais ações militares contra alvos civis no Irão, apresentadas como exercício legítimo do braço armado de um Deus impaciente. Esse mesmo Deus que perdeu também a paciência com os cananeus e com Amaleque, sancionando a sua destruição.
E convém dizer que esta seletividade já não é exclusiva do mundo evangélico americano. Vance, católico convertido, vai bebendo da mesma lógica, reproduzindo-a com a mesma naturalidade, partindo agora da própria doutrina católica. Também ele invoca a tradição quando lhe convém, ignorando-a quando o constrange. É por isso que importa esclarecer o que essa tradição diz e, sobretudo, o que não diz.
A doutrina da guerra justa, que Vance julgou poder convocar contra o Papa, não funciona como manual para identificar de que lado Deus está, nem como conjunto de selos morais que o cristão estampa nas decisões já tomadas. É uma tradição de perguntas exigentes, formuladas para fazer hesitar quem tem o poder de declarar guerra, uma teologia que parte do princípio de que toda a guerra é um mal e que toda a vida humana perdida, aliada ou inimiga, é uma tragédia. Os seus critérios de justa causa, autoridade legítima, intenção reta, proporcionalidade e último recurso existem precisamente para obrigar um líder político a interrogar a sua própria alma e o seu sentido de moral antes de pôr em risco vidas humanas. Trump, ao afirmar que a sua própria moral era o único constrangimento à sua conduta na guerra, revelou uma fundamental incompreensão desta lição introspetiva. Mas que um vice-presidente americano se tenha arrogado a autoridade de “explicar” isto ao Papa traduz aquilo que Gregório Magno chamou a rainha de todos os vícios: a Soberba.
Mas o conflito entre a administração Trump e Leão XIV vai muito além de mais um episódio de soberba. O Papa, na sua função de Vigário de Cristo, é o intérprete autorizado da tradição para os católicos do mundo inteiro, sendo, por definição, um obstáculo a qualquer tentativa de colapsar a distinção entre autoridade política e autoridade espiritual. Enquanto houver um Papa que diga que esta guerra é injusta, que esta política migratória é cruel, que esta forma de exercer o poder é incompatível com o Evangelho, há um limite externo à apropriação política do cristianismo. Trump não pode reescrever a tradição se a tradição tem um intérprete vivo que insiste em lê-la noutro sentido.
A imagem que circulou nas contas oficiais de Trump, na qual ele próprio aparece representado como Jesus Cristo, é também ilustrativa neste ponto. Não se via ali um homem a receber a autoridade de Cristo, mas um homem a substituí-lo. Iconograficamente, está mais próxima do culto imperial romano do que de qualquer tradição cristã. E é, porventura, aqui que se chega ao núcleo do problema.
A administração Trump, na sua relação com o Sagrado, parece mais romana do que cristã. Mais próxima da figura imperial que encarna ela própria a dimensão divina do que da tradição cristã em que o poder recebe a sua autoridade de uma instância que o transcende e o julga. Quando Trump declarou, depois da tentativa de assassinato em 2024, que tinha sido salvo por Deus para uma missão maior, inscreveu-se nessa linhagem antiga em que o poder político se autoatribui o selo divino sem precisar de mediação institucional. Era o imperador a comunicar-nos a sua eleição.
Há dois mil anos, Roma executou Jesus precisamente porque tinha o poder político e militar para o fazer, e porque, na sua conceção do mundo, ter esse poder bastava para legitimar o seu uso. A perseguição dos cristãos durante os trezentos anos que se seguiram teve a mesma raiz, a convicção de que o império, ao deter a força, detinha também o critério do que era moralmente admissível. Que uma parte significativa dos americanos que se afirmam cristãos esteja hoje confortavelmente alinhada com uma conceção do poder mais romana do que cristã é uma das ironias mais reveladoras deste momento.
Trump entendeu o cristianismo melhor do que muitos dos seus críticos lhe reconhecem, mas entendeu-o num único registo, o da sua utilidade. Percebeu o seu poder mobilizador, o peso simbólico e o rendimento eleitoral que pode conferir a quem o saiba invocar. O que lhe escapa é tudo o resto. Aquilo que Madison procurou inscrever na Primeira Emenda e que Tocqueville identificou como o chão comum da democracia americana era precisamente a convicção de que a religião só podia funcionar como referência partilhada se ficasse fora do alcance do poder e de que o poder só podia conservar a sua legitimidade se renunciasse a apropriar-se dela. É essa fronteira que está agora a ser dissolvida.