Pedro Nuno Santos está de volta. Depois de ter suspendido o seu mandato de deputado por 6 meses, o ex-líder do PS regressou ao Parlamento. Ainda nem sequer tinha ocupado o seu lugar no hemiciclo e já havia polémica com as suas declarações aos jornalistas. Era precisamente o efeito pretendido por Pedro Nuno Santos. Que até foi ajudado pelo facto de, a meio da sua intervenção, se ouvir a campainha a indicar o início do plenário – que, pelo sorrisinho de adolescente maroto que preparou uma partida ao stôr, podia bem ser o toque de fim de recreio.
Em menos de um minuto, Pedro Nuno Santos disse que o Governo é liderado por pessoas pouco sérias e que o PS não precisa de tacticistas.
Foi o suficiente para ficar tudo em alvoroço. Pedro Nuno tem o condão de pôr toda a gente a comentar as suas palavras. E não é de agora. A questão é que, ao longo do tempo, tenho reparado que, na maior parte das vezes, entendemos mal o que é dito. Por exemplo, a primeira vez que um discurso de Pedro Nuno Santos foi destacado ocorreu em Dezembro de 2011, no início da troika, quando o então jovem vice-presidente da bancada socialista disse: “Ou os senhores se põem finos ou não pagamos a dívida e, se o fizermos, as pernas dos banqueiros alemães até tremem!” Na altura, todos achámos que era uma bravata. Pedro Nuno ameaçava um calote aos banqueiros alemães, que até tremiam de medo. Só que não era isso que Pedro Nuno Santos queria dizer. Quando falou em pernas a tremer, não era pelo pavor, era pelo ritmo. Os credores borrifavam-se de tal maneira em Portugal, que mesmo perante a hipótese de um default não alteravam os seus planos e até acabavam a noite a dançar numa discoteca. Pedro Nuno Santos não estava a ser fanfarrão, estava a ser humilde.
Outra ocasião em que as palavras de PNS foram mal interpretadas ocorreu em 2017. Pedro Nuno era Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e, numa entrevista, proclamou: “PS não precisa, nunca mais, da direita para governar”. A frase foi capa em todos os jornais. Mas pelas razões erradas. Ao contrário do que todos julgámos, não era uma afirmação arrogante sobre a auto-suficiência do Partido Socialistas. Parecia mesmo que PNS estava a garantir que o PS nunca mais iria precisar da ajuda do PSD para ser Governo, mas o que ele estava a prever é que o PS nunca mais se veria numa situação em que, mesmo com o auxílio da direita, conseguisse chegar ao poder. Concentrámo-nos todos em “nunca mais precisar da direita” em vez de em “nunca mais governar”. Assumindo essa diferença, percebemos que PNS afinal não estava longe da verdade.
Daí que, mais uma vez, nos tenhamos precipitado na exegese das palavras de Pedro Nuno. Ao dizer que este Governo é “liderado por gente muito pouco séria”, apressámo-nos a ver aqui um insulto ao Primeiro-Ministro e sua equipa. Interpretámos “pouco séria” como “desonesta”, quando PNS utilizou enquanto “não sisuda”. É que, sempre que têm uma interacção com Pedro Nuno Santos, Montenegro e os outros membros do Governo, sabe-se lá porquê, estão sempre a rir.
O mesmo em relação à boca dos “tacticistas”. Formatados pelo discurso político rotineiro e limitados pelo dicionário, ouvimos “tacticistas” e pensamos em grande estratégia, em maquiavélicas reuniões secretas, em sonsice. Nesse sentido, Pedro Nuno Santos estaria a insultar os seus camaradas, atribuindo-lhes motivações perversas, contrárias ao interesse do partido. Lá está, Pedro Nuno a ser vítima da nossa incapacidade em compreendê-lo. Na verdade, quando PNS diz “tacticistas”, está meramente a referir-se àqueles socialistas que pensam antes de abrirem a boca.
Evidentemente, não é o caso de Pedro Nuno. Não foi tacticista quando disse as frases acima referidas, nem quando anunciou a localização do novo aeroporto antes de validar com o Primeiro-Ministro. Ou quando afirmou que não sabia da indemnização a Alexandra Reis e exigiu à TAP que o esclarecesse, apesar de ter essa informação no seu WhatsApp, pois até tinha autorizado a operação. Ou ainda quando, já líder, sugeriu aos comentadores da área do PS que não emitissem opiniões contrárias à da direcção – isto depois de, acabado de sair do Governo, ter ido logo comentar para a SIC. Nessas ocasiões, honra lhe seja feita, nunca foi tacticista.
Mas é verdade que Pedro Nuno Santos tem um problema com os tacticistas. Só que não são o Duarte Cordeiro ou a Mariana Vieira da Silva, são aquelas figuras da elite socialista, pensadores do comentariado, que ungiram Pedro Nuno como seu Messias e traçaram planos para federar a esquerda e a conduzir a mil anos de poder. Tantas fizeram que Pedro Nuno se convenceu que era capaz. E agora até se fala em sair do PS para formar um novo partido de esquerda. Se aqui há tacticismo, os meus parabéns ao estratega do PSD que a gizou.